Waris Dirie se importa

Quem se importaria com um problema exclusivamente feminino?

 

Waris Dirie se importa.

 

Talvez sua história de vida seja uma das mais fascinantes que você já viu.

 

Waris Dirie

Quem quer que tenha visto sua beleza exuberante em anúncios publicitários e desfiles de moda em meados dos anos 80 e 90 talvez jamais pudesse imaginar o drama pelo qual ela passou – e milhares de meninas passam, em várias partes do mundo, diariamente. Estamos falando de algo conhecido como circuncisão feminina, mas o nome mais apropriado seria mutilação genital feminina – mais conhecido pela sigla em inglês, FGM (Female Genital Mutilation).

A historia de Waris Dirie ficou conhecida em 1997, em uma entrevista para uma famosa publicação feminina. Também foi retratada no livro Flor do Deserto e no filme de mesmo nome. Nessa época, Waris já era uma supermodelo e a publicação a procurou para que ela contasse sua história de “menina nômade da África que havia se tornado uma modelo mundialmente famosa”.

A história de Cinderela que vende bem e com a qual as mulheres em geral gostam de sonhar. Para surpresa da entrevistadora, não era exatamente essa a história que Waris tinha para contar. Por volta dos 5 anos de idade, Waris passou pelo procedimento de mutilação tão comum em sua comunidade. Seu pai contatou a “profissional” que o faria e sua mãe a preparou para o que aconteceria no dia seguinte. Ela foi levada a um lugar mais ermo no deserto e com uma lâmina suja, que a “profissional” limpou com a própria saliva e nas próprias roupas, Waris teve seu clitóris removido, juntamente com os pequenos e grandes lábios. As partes restantes foram costuradas e foi deixado um pequeno buraco, em suas palavras “do tamanho de uma cabeça de fósforo” para que ela pudesse urinar e, mais tarde, para escoar o sangue menstrual. Tudo feito sem nenhuma anestesia. Ela ainda passou algumas semanas com as pernas amarradas para facilitar a cicatrização.

O procedimento sofrido por ela é conhecido como infibulação. Há outras práticas de mutilação. Entre outras, algumas removem o clitóris e seu prepúcio, sem remoção dos lábios e sem costuras. A mutilação é condição vital para uma menina em sua comunidade, já que sem ela é praticamente impossível arranjar um marido. A cirurgia é um dos mais altos investimentos que as famílias fazem em suas filhas; o retorno, economicamente, é importante. Vender as filhas para um candidato a marido é uma das poucas fontes de renda que essas famílias têm ao longo de suas vidas. Uma mulher não mutilada é considerada impura e vista como indigna para o casamento. É uma cultura na qual não há lugar para mulheres que não se casem. Por isso, todo esforço possível é feito para que as meninas se tornem passíveis de se tornar esposas. Uma menina não mutilada não terá nenhuma chance.

Por volta dos 12 anos de idade, o pai de Waris lhe arranjou um marido – um sexagenário que já tinha outras esposas e que estava disposto a “pagar” algo como 5 camelos pela menina. Ela foi apresentada a seu marido e, no dia seguinte, descalça e com a roupa do corpo, atravessou o deserto da Somália para alcançar a capital, Mogadíscio, em busca de uma irmã mais velha. De lá, teve a chance de ir morar em Londres na casa de um tio que era embaixador, trabalhando como sua empregada. O tio voltou mais tarde para a Somália e ela permaneceu em Londres, trabalhando como faxineira numa lanchonete. Foi descoberta por um famoso fotógrafo e, dona de um perfil considerado absolutamente fotogênico, tornou-se modelo mundial.

Um das passagens mais bonitas e intrigantes de sua história é o encontro com um leão em sua fuga pelo deserto. Quase como se fosse parte de uma história mítica ou fantasiosa, o leão a vê, a ameaça, e vai embora sem devorá-la, coisa que ele poderia perfeitamente ter feito já que ela, fraca depois de alguns dias caminhando sem se alimentar, nem teria forças para fugir. Mas ele se vai, e ela vê nisso um sinal divino de que havia um plano maior para ela.

Waris só descobriu que o horror pelo qual havia passado não ocorria com todas as mulheres do mundo quando já estava trilhando seu caminho como modelo. As consequências que a mutilação trouxe para sua saúde e a consciência da impossibilidade de sentir pleno prazer sexual fez com que ela tivesse a coragem de dar essa entrevista e então tornar-se uma ativista em prol dos direitos femininos e contra essa pratica monstruosa. Hoje, Waris é responsável pela Desert Flower Foundation, e embaixadora na ONU na luta contra a mutilação.

Uma das dificuldades enfrentadas por ela é que é comum entre lideres políticos e religiosos alegar que a mutilação é uma questão cultural sobre a qual não devem opinar, em respeito aos povos que cultuam essa prática. É difícil convencê-los de que não se trata de uma prática cultural aceitável, mas de um crime – um crime que atenta contra a dignidade dessas mulheres e, ainda, um crime contra crianças. Mas quem é que quer comprar uma briga por crianças do sexo feminino que em sua maioria, vivem num nível de pobreza que as coloca no limite da sobrevivência? Muito pouco foi feito até hoje para erradicar essa prática, apesar de todos os esforços de Warie e tantas outras militantes. Em suas palavras, “Qualquer coisa que diga respeito a mulheres é considerado menos importante”.

Waris foi batizada com o nome de uma flor que nasce no deserto, quando depois de muita seca e sol um mínimo de chuva acontece. Ela nos parece mesmo um símbolo de resistência, força e desejo de que cada uma das meninas que não podem se defender da mutilação genital possam ser libertas desse procedimento desumano. Por que será que a sexualidade feminina é tão temida que faz com que culturas como essa mantenham essa prática que “corta o mal pela raiz”? O que será que temos de tão poderoso em nossa sexualidade que faz com que deva ser reprimida a esse ponto?

http://www.desertflowerfoundation.org/en/

http://www.fgmnetwork.org/articles/Waris.html

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