12/04/2017 - Por Notícias

Conheça o selo para filmes aprovados pelo teste de Bechdel

Na última semana, tivemos a oportunidade de ser convidadas pela AVON para o Seminário Mulheres em foco no audiovisual, que abordou as políticas públicas e as ações de organizações, empresas e sociedade civil que propõem a redução da desigualdade de gênero no setor audiovisual.

O evento ocorreu na Unibes Cultural e realmente conseguiu mostrar uma visão bem completa de vários setores da sociedade sobre o assunto. Destaco a presença de Malu Andrade, idealizadora do Grupo Mulheres do Audiovisual Brasil; Marise Barroso, Vice-Presidente de Marketing da Avon; Juliana Vicente, cineasta e fundadora do Petra Portê; Débora Ivanov, diretora da ANCINE; e principalmente Ellen Tejle, criadora do selo A-Rate, da Suécia.

Por parte da AVON, falou-se das próximas iniciativas da empresa dentro da área do audiovisual, cujo projeto completo de investimento ainda será apresentado, por meio de leis de incentivo, em produções dirigidas e roteirizadas por mulheres. Mas o piloto desse plano já se iniciou, com apoio a filmes das diretoras Juliana Vicente, Monique Gardenberg e Laís Bodansky.

Como disse anteriormente, Juliana Vincente estava presente e falou um pouco sobre seu documentário “Diálogos com Ruth de Souza”. Mas mais do que falar sobre o filme, a cineasta conversou sobre sua experiência enquanto mulher no audiovisual – principalmente como mulher negra. Ela brincou que “o negro foi inventado em 2015”, época que sentiu as instituições começaram a mudar seu posicionamento e se interessar sobre o assunto, e que eles são sempre apresentados  como “novidade” nesse meio, como se não estivessem atuando nele há anos. Juliana deixou claro a importância de se discutir as intersecções raciais quando falamos sobre o feminismo, para podermos pensar em ações efetivas e como era importante para ela se ver refletida na plateia, em reuniões de negócios, na mídia.

Após a sua fala, foi a vez da diretora da ANCINE, Débora, que mostrou a última pesquisa da agência em relação a presença das mulheres no meio. Os dados são o esperado, com poucas mulheres em cargos que decidem a maneira como a história será contada. A pesquisa completa você pode ler aqui, incluindo algumas das ações que a agência tem realizado para mudar esse cenário. Isso inclui buscar paridade de gênero das comissões de seleção do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), mudar o banco de dados da empresa para acrescentar a questão do gênero e começar a incluir nas pesquisas a questão racial.

Finalmente, foi a vez de Ellen Tejle. A sueca contou um pouco da sua experiência enquanto cineasta e apresentou alguns dados mundiais – mais deprimente foi a informação que 70% dos personagens com falas são homens e que esse número é o mesmo desde 1940. Ellen também disse que nunca sentiu que a sueca tivesse um problema de gênero nesse sentido, nem que ela contribuía para isso até realmente analisar os filmes que exibia no seu cinema, e descobriu apesar 20% dos filmes dela passavam no teste de Bechdel-Wallace (chamado geralmente só de Bechdel no Brasil).

Esse teste define que um filme deve ter: 1) duas mulheres com nomes, 2) que conversem entre si, 3) sobre algo que não um homem. Parece muito pouco mas infelizmente a grande maioria dos filmes não faz nem isso – importante dizer que isso não define se o filme é bom ou ruim, nem feminista ou não. É apenas uma maneira de observar a presença feminina nos filmes e se elas fazem parte da história ou são apenas decoração. O site oficial do teste é, infelizmente, em inglês, mas traz a lista de filmes recentes e se foram aprovados ou não.

Ellen falou, em sua apresentação, sobre alguns exemplos de filmes clássicos que não passam no teste, incluindo Senhor dos Anéis e Star Wars, e também como a representação negra deixa a desejar (basicamente, somos sujeitadas a cenas sem fim de pessoas negros morrendo e sendo torturadas). Apresentou, também, o equivalente do teste Bechdel para minorias: 1) duas pessoas não-brancas com nomes, 2) que conversam entre si, 3) sobre algo que não seja crime.

Para além do audiovisual, Ellen explorou também os efeitos que essas representações tem em todos nós, mesmo que não percebamos, desde criança, trazendo como exemplo o estudo abaixo.

Foi então que Ellen apresentou sua campanha, que consiste em colocar um selo de “filme A”, justamente, nos filmes que passam no Teste de Bechdel, buscando uma maior conscientização da presença feminina no audiovisual – a campanha se iniciou no seu cinema e hoje já está em mais de 10 países. O Brasil, foi anunciado, será o primeiro país da América Latina a se utilizar do selo, e a iniciativa já conta com apoio das salas Caixa Belas Artes, Espaço Itaú de Cinema e Reserva Cultural, bem como das distribuidoras Ello Company, Fênix, Imovision, Pandora e Vitrine. Além disso, integrantes do coletivo Elviras, que reúne profissionais da crítica, se comprometeram, durante o seminário a se utilizar do selo em suas resenhas, e o site Mulher no Cinema, dedicado a produções centradas em mulheres e/ou realizadas por mulheres, também deve utilizá-lo.

É uma pequena ação num universo enorme, mas acreditamos que é preciso começar de algum lugar, e saber como está a representação feminina – boa ou ruim, saber simplesmente que as mulheres existem nesses filmes – é essencial para qualquer luta a ser realizada sobre o papel da mulher no audiovisual.

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