01/08/2014 - Por Notícias

Encontrão Cacheando em Salvador

O Encontrão Cacheando em Salvador ocorreu, no dia certo e no horário certo, em Salvador, capital do estado mais negro do Brasil, e seria muito pouco interessante se escrevêssemos um texto jornalístico. Então qual contribuição podemos dar ao feminismo do ponto de vista da avaliação do nosso Encontrão? Talvez seja melhor mudar a pergunta: O Encontrão passou, e dele, o que ficou?

O encontro foi protagonizado pelas mulheres negras e se voltou, como era esperado, para a discussão sobre o empoderamento desta mulher, através do reconhecimento do seu estado de opressão, da importância de fortalecerem uma autoidentidade negra e feminista.

 

cacheando

Foto: Reprodução 

 

Tratando este momento de forma objetiva, não conseguimos nem de longe vislumbrar a emoção de ouvir os relatos de tantas mulheres que durante diversos momentos da sua trajetória foram constrangidas a negarem seu cabelo, e a odiarem seus próprios traços, seus narizes largos, seus lábios grossos, suas peles escuras. E provavelmente, somente outra linguagem, quem sabe da fotografia, pudesse captar o brilho dessas mulheres que, reconhecendo esse estágio anterior de opressão, reconhecem-se hoje como mulheres negras e lindas, fortes e determinadas a afastarem de si, todo tipo de opressão.

Para nós que organizamos o encontro, não podíamos deixar de mencionar a enorme surpresa que foi ver um número tão grande de mulheres optando pelo BC no próprio espaço do encontro, com a cabeleleira que convidamos para este trabalho.

Para as meninas que não estão acostumadas à sigla, o BC significa Big Chop, é o nome que damos ao corte do cabelo que retira toda a química e deixa-o no cumprimento do cabelo natural. Este corte geralmente deixa o cabelo das meninas extremamente curto, e por isso é um passo muito difícil mesmo para aquelas que já decidiram abandonar a química, quando nos vemos inseridas numa sociedade machista que dita regras às quais as mulheres devem procurar obedecer para que sejam reconhecidas como femininas e bonitas, e uma destas regras é, sem dúvidas a necessidade do cabelo longo. Talvez baste a fim de esclarecer a importância que reconhecemos nesse passo, no BC, apenas uma fala de um dos depoimentos que ouvimos das mulheres:

 

“Quando fiz o meu BC, era como se eu estivesse me despindo, cada mecha de cabelo que caia, parecia que estava me renovando, estava nascendo outra de mim”.

 

Bom, esse evento que serviu sobretudo pra nos ensinar, cumpriu seu papel em mostrar as possibilidades das mulheres negras organizadas, da complexidade e amplitude das pautas do movimento feminista negro e da importância do empoderamento das mulheres no reconhecimento de situações de opressão e meios de combatê-la. Mas a maior lição de todas foi a de que feminismo também se realiza com amor, com carinho, com troca de abraços, com doações de ombros amigos, com cafunés, lágrimas e mãos dadas. Acho que nós militantes, depois de um certo tempo nos meios dos movimentos sociais e da própria realidade que nos rodeia (e que construímos), com o passar do tempo nos embrutecemos, tornamo-nos mais rígidas pela necessidade que nos implica mesmo esta postura. Mas então é preciso nos dar conta de que a solidariedade que podemos e precisamos prestar umas com as outras não precisa vir apenas de um imperativo puramente racional, teórico, que traz o termo “sororidade”. A solidariedade pode ter um impulso sentimental também, que cria como num espaço deste, uma áurea de identificação mútua, a partir do compartilhamento de histórias mais ou menos semelhantes entre si, girando todas em torno das opressões machistas e racistas sofridas por nós mulheres negras.

É com sensibilidade que conseguimos às vezes um diálogo de coração aberto, de olhos nos olhos, e de mulheres amigas,  que unidas se fortalecem contra todo o tipo de opressão.

 

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