MDV SP – Mexeu com uma, mexeu com todas

No sábado frio e chuvoso do dia 24 de maio, o Vão do Masp foi tomado pelo sentimento de insatisfação de mulheres que lutavam por sua liberdade e por seus direitos. Como dizia a camiseta de uma das presentes: “Girls just wanna have fundamental rights” [“meninas só querem direitos fundamentais”]. Entretanto, em meio a um ato tão valioso, os privilégios dos opressores foram esfregados nos rostos de pelo menos 500 mulheres, lembrando porque essa luta é tão necessária e que ainda estamos longe de ter conquistado tudo.

A jornalista Carol Patrocínio, presente na Marcha das Vadias de São Paulo e no momento da agressão, relatou o ocorrido:

“O privilégio do opressor foi jogado na nossa cara durante a Marcha das Vadias. Foram, pelo menos, 500 mulheres encarando chuva para luta por seus direitos. Caminhamos pela Paulista e descemos a Augusta.

Quando estávamos perto do número 541, a Marcha se separou e uma menina foi agredida. O agressor correu para dentro de uma academia –https://www.facebook.com/biocompany.sp – e foi acolhido. A história só foi compartilhada quando já estávamos na Praça Roosevelt.

Depois de encerrada a Marcha, um grupo de 150 pessoas subiu para a academia. A intenção era fazer um escracho.

Chegamos lá e fomos recebidos com um sorriso irônico tanto do agressor quanto do dono da academia. Começou um empurra-empurra, uma menina foi agredida, o namorado tentou defende-la e se tornou o foco da polícia.

As mulheres da Marcha, em sua maioria, tentaram separar, mas sem sucesso. A polícia nos empurrou, agrediu e continuou batendo em um dos nossos.

Enquanto isso, do outro lado, o agressor ria na cara de quem dizia que ele estava errado. Uma garota perguntou se ele também bateria nela – enquanto eu pedia para que ele voltasse para dentro da academia e evitasse uma tragédia – e ele apenas sorriu pra ela o sorriso mais assustador que já vi.

Rolou bomba, rolou gás. Muita gente correndo, passando mal. Muitas mulheres extremamente nervosas com mais um desrespeito sofrido.

Um dos nossos foi algemado – isso não é inconstitucional? – e levado para dentro da academia junto com algumas mulheres. A porta foi baixada, ninguém sabia o que estava acontecendo.

Começamos a ser informados pelas mulheres que estavam ali. Estava tudo bem, mas ele continuava algemado e o agressor numa boa. Chegou uma advogada e todo mundo ia para a DP.

O Choque estava lá. A polícia fez um cordão para que as pessoas pudessem sair. O homem que estava conosco saiu algemado e foi jogado em um porta-malas. O agressor e o homem que o acolheu entraram no banco de trás numa boa.

Quando o agressor e o dono da academia saíram, eles olharam na cara de cada uma de nós, sorriram. Eles não estavam preocupados com o que ia acontecer. Eles sabem que a polícia estava ali para proteger o status quo, que estão no topo da cadeia alimentar.

A nós, impotentes, restou seguir para a DP, prestar depoimentos, entregar fotos e vídeos que comprovavam todas as agressões e abusos.

No meio de uma Marcha por igualdade e respeito tivemos jogado na nossa cara todos os privilégios do opressor e sua certeza de impunidade. Tivemos, durante essa Marcha das Vadias, a certeza de que o feminismo é extremamente necessário e que, se depender de nós, machistas não passarão. Mexeu com uma, mexeu com todas. “

Link do post da Carol: https://www.facebook.com/carol.patrocinio/posts/10152132997096918

CAROL PATROCÍNIO

Carol Patrocínio é jornalista, blogueira, esposa, mãe e feminista. Atua como editora-chefe na agência New Content e é colunista para o Yahoo Brasil, no blog Preliminares.

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