29/02/2016 - Por Notícias

Os Oscars 2016 – um passo pra trás

A gente sempre gosta de pensar que estamos andando pra frente – “três passos pra frente, um pra trás”, ou combinações similares, é o que geralmente se ouve. Mas a verdade é que a mudança vem só quando as pessoas lutam e insistem e os Oscars, infelizmente, parece ser uma das coisas que não só não melhora, mas parece até que realmente está regredindo com o passar dos anos. Eu pessoalmente não consigo mais assistir – acompanho pelo twitter e depois vejo os vídeos dos melhores momentos no Youtube.

A questão não é tanto os vencedores quanto os as pessoas que foram nomeadas, os escolhidos para apresentar e cantar, e o que é dito versus o que é feito.

Bem, começamos pelo começo. Acho que já foi dito mil vezes que, pelo segundo ano seguido, nenhum negro foi indicado, em nenhuma categoria. O problema não é só da Academia, embora a maioria dos que votam serem homens brancos não ajuda – é um sintoma da falta de papeis interessantes para pessoas não brancas em filmes de grande escala. Os números são tristes – somente 14 homens negros e 7 mulheres negras venceram o prêmio, em 88 – agora 89 – edições, sendo que só uma mulher negra por melhor atriz, o resto como coadjuvante. E não é só quantidade – os papeis reservados a pessoas negras costumam confirmar estereótipos, de empregados a escravas.

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As meninas do Collant escreveram mais sobre isso, para quem quiser se revoltar, só conferir aqui. Não vou me estender nisso, já que estamos cansado de saber.

Mas é notável como o apresentador (negro – os apresentadores tiveram uma maior diversidade que os indicados, pelo menos, embora eu não considere isso uma grande vitória) fez vários comentários e piadas sobre a falta de diversidade. Por um lado, adorei a cara de desconforto e risadas constrangidas da audiência, mas, por outro, temos um segundo ano seguinte que a questão da diversidade racial é introduzida nas piadas, mas não é tratada como sério problema (embora tenha adorado o Chris Rock comentando de vários atores “ele poderia ter sido indicado…”, nos lembrando que haviam sim atores negros que mereciam no mínimo a indicação).

Porém, é importante notar que estamos muito focados na questão da representação negra – para as outras minorias as coisas estão até na pior. Para ilustrar, segundo o pessoal do Collant, apenas sete mulheres de ascendência asiática foram indicadas nas duas categorias, e apenas duas delas ganharam e apenas três mulheres latinas foram indicadas ao Oscar e nenhuma ganhou.

Bem, pra não dizer que tudo foi deprê tivemos bons momentos – Joe Biden, vice presidente dos Estados Unidos, falou sobre a questão do estupro nos campus de faculdade para introduzir Lady Gaga, que cantou sobre a questão acompanhada de sobreviventes. Me fez chorar, admito.

Sharmeen Obaid-Chinoy’s merece destaque também – ela ganhou o Oscar de Melhor Curta Documentário por “A Girl in the River: The Price of Forgiviness” (A Garota dentro do Rio: O Preço do Perdão), a história de Saba Qaiser, uma mulher de 19 anos que sofre tentativa de assassinato por honra. E entregou essa frase linda: Isso é o que acontece quando mulheres determinadas trabalham juntas.

Também não tinha notado, mas no Collant falaram sobre como a vencedora do Oscar de Melhor Atriz, Brie Larson, que ganhou por O Quarto de Jack, no qual interpreta uma adolescente sequestrada que é estuprada e tem um filho com seu sequestrador, dedicou uns momentos para conversar um pouco com as sobreviventes de estupros que subiram no palco com Lady Gaga.

Além disso, o mexicano Alejandro Gonzalez Inarritu ganhou o prêmio de Melhor Diretor pelo segundo ano consecutivo (primeira vez que isso acontece em 65 anos!) por O Regresso. 

Como últimas notícias, para terminar o texto meio triste, tivemos de novo problemas de representação trans. De novo, um homem foi indicado a Melhor Ator por interpretar uma mulher trans (versão curta de porque isso não é legal: ajuda no estereótipo que mulheres trans são homens de vestido e rouba papeis de mulheres trans reais). A Academia também decidiu não deixar ANOHNI, a primeira cantora trans a ser indicada ao prêmio, se apresentar.

Os vestidos estavam lindos, pelo menos. E o Leo ganhou o prêmio, finalmente. Então algumas pessoas sairam felizes de lá.

Vou terminar com o tweet da Bette Midler, pra quem achou o texto muito mimimi (por mais que eu ame o Leonardo DiCaprio, ela tem razão).

“Os Oscars são hoje! Você sabe, o show de prêmios no qual o Leonardo DiCaprio “precisa ganhar” mas pessoas negras podem “esperar até ano que vem”. (Fonte)

PS: No meu coração, Carol e Mad Max dividiram o prêmio de Melhor Filme.

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