Então, veio o silêncio

TW: abuso e depressão

Tenho 17 anos e meus pais são separados. Vez ou outra, minha mãe arranja um namorado e isso nunca me incomodou. Até agora. Eu sou gordinha, mas meu corpo não é feio. Desde os 14 anos (quando meu corpo começou a se desenvolver), eu já atraía a atenção dos homens.

Minha mãe começou a namorar meu atual padrasto quando eu tinha 11 anos e, pra ser sincera, eu nunca gostei dele ou do jeito que ele fala das mulheres: sempre nos objetificando, sempre nos colocando como inferiores aos homens. Nós dois sempre brigamos muito, mas como eu vi que isso deixava minha mãe triste, comecei a ignorá-lo quase que completamente, assim começamos a viver numa paz fingida aqui em casa. Minha mãe começou a trabalhar aos sábados e ele não, então eu e ele começamos a ficar sozinhos nesse dia. Minha política de ignorá-lo não mudou, porém ele parecia mais bonzinho quando estávamos a sós.

E tudo começou num desses sábados de manhã, quando fui para a sala terminar um trabalho no computador. Aonde o computador fica, dá para ver o quarto da minha mãe e vice-e-versa. Liguei o computador e ouvi meu padrasto acordar. Como ele não levantou, pensei que ele iria dormir mais, então não dei muita importância. Continuei o trabalho até que comecei a ouvir um barulho. Procurei no computador e embaixo da mesa para ver de onde o barulho estava vindo. Qual não foi minha surpresa ao ver que o barulho vinha do quarto e era o som dele se masturbando. Pensei que talvez ele não percebesse que da onde eu estava, dava para ver e continuei a fazer o trabalho. E o barulho continuava. Me levantei para ir ao banheiro e o barulho parou. “Ele percebeu que dá para ver e vai parar”, pensei. Fui ao banheiro, voltei, sentei e o barulho recomeçou. “Deve ser coincidência” pensei. Mera ilusão: lá estava ele se masturbando e olhando para mim. Me senti suja e nojenta e decidi terminar o trabalho depois. Fui para o meu quarto e fechei a porta não acreditando no que tinha acabado de acontecer. Me arrumei e fui para o curso de inglês, com aquela imagem na cabeça e com uma culpa que eu sabia que não era minha.

Voltei à noite junto com a minha mãe. Fingi que nada aconteceu e pensei que, naquela tarde, ele teria pensado sobre seu ato e visto que era uma coisa errada, já que ele também tem uma filha de um casamento anterior. E novamente, me enganei. Depois do jantar, depois que minha mãe já havia dormido, ouvi o familiar barulho enquanto mexia no computador. E lá estava ele: deitado do lado da minha mãe, se masturbando e olhando para mim com prazer. Desliguei o computador e fui para o quarto, já quase chorando de nojo e culpa. Deitei e não fechei a porta por completo. Ouvi o som parar e recomeçar, porém dessa vez parecia mais perto.

Quando olhei para a porta, meu coração parou e gelou por um segundo: lá estava ele, na porta do meu quarto, fazendo aquilo e olhando pra mim. Eu que não sou muito cristã, fechei os olhos e rezei para que nada acontecesse e ele fosse embora. Me virei de costas para a porta e comecei a chorar; agora de medo e raiva. “Por que eu?” “O que eu fiz para merecer isso?” Era tudo que eu conseguia pensar. E ele continuou lá. Não foi embora até que não tivesse acabado de se masturbar. E eu, na minha cama, com medo, não conseguia parar de chorar. Não consegui dormir aquela noite. O medo de ele voltar e tentar alguma coisa não me deixou descansar.

E como contar para a minha mãe? Ela que já sofreu tanto para me criar e já chorou muitas e muitas vezes por se sentir sozinha. Como fazer a pessoa que você mais ama chorar? Eu devia contar, mas que provas eu tinha? Ele não abusou de mim, pelo menos não fisicamente. Então, veio o silêncio. A pior dor que já senti. A dor de se sentir abusada e ser silenciada pelo medo e pela consideração dos sentimentos alheios. Hoje, ele continua a viver comigo e com a minha mãe. Esse fato veio a se repetir algumas vezes, mas agora parou. Mesmo assim, agora tenho depressão, ataques de pânico e vivo com medo dele. Não consigo mais trocar de roupa ou tomar banho sem olhar se tem alguém no corredor e não conferir se a porta está trancada pelo menos 5 vezes. Me sinto covarde, fraca e culpada. Covarde por não ter coragem de encará-lo. Fraca por não conseguir falar isso em voz alta. Culpada por ser “cúmplice” de um ato tão repugnante quanto esse. Como disse anteriormente, sou gordinha e, eu tenho medo de emagrecer e ficar bonita e ele fazer algo. Minha sincera vontade é de me matar e por um fim nisso. Porém eu também tenho medo de deixar minha mãe com esse louco. Meus sinceros sentimentos à todxs que passam ou passaram por isso. Eu sei o que vocês sentem.

Tags:,

Comentários