09/02/2017 - Por O que você tem para falar?

A morte, o nascimento, a dor e os sonhos.

Segue relato de Luiza L., seguidora da página. Aviso para descrições de um relacionamento abusivo.


Não lembro quando foi que me perdi na felicidade de ser quem eu queria ser. Eu não lembro quando foi, mas lembro que tentei me destruir. Eu parei de me conectar com o mundo a minha volta, e coloquei minha máscara da felicidade. Eu saía muito, mais do que deveria provavelmente, minhas ressacas eram colossais, mas eu estava lá, tentando encher meu corpo com algo líquido. Até que um dia, como se a mãe natureza soubesse que eu havia me desconectado, me mandou um aviso, um aviso na forma de um atraso, mas eu, tão perdida em tentar me encontrar ainda ignorei o aviso, e continuei a viver, mas a mãe natureza não falha duas vezes seguidas, infelizmente os testes de farmácia falham. Até que um não falhou, e me deu as duas tirinhas azuis tão temidas por aquelas que fazem sexo casual e estão iniciando a carreira.

Eu tinha vidas crescendo dentro de mim, o problema é que eu não tinha vida em mim. Eu estava apenas vivendo, dia após dia, sem ao menos pensar, e lá estavam, aquelas vidas consumindo algo que eu não tinha para dar. As arranquei de mim no desespero do não papel. Que mãe seria eu, se mal sabia quem eu era? Um pedaço morreu comigo, naquele dia, naquela clínica, naquela decisão. O dia seguinte foi regado a álcool, para acalmar os demônios que se reviravam em mim. Não passou, os demônios me atormentam até hoje, tenho impressão que se eu sufocá-los irei sufocar a mim mesma no processo.

Não parei para pensar não só nas vidas potenciais que tirei de mim, mas também na possibilidade de vida que eu teria. Não parei para pensar que lá estava minha oportunidade de ser mãe, de cumprir com algo que carrego dentro de mim sufocado e escondido, esse desejo inerente de cuidar do próximo, de me apaziguar no abraço do amor incondicional, de me apaziguar no outro, já que dentro de mim a tempestade é constante e ininterrupta.

Não muito tempo depois, com esse buraco dentro de mim, que mal sabia eu havia sido exposto, encontrei ele, ele não tem nome, porque ele poderia ter sido qualquer um, qualquer um vulnerável teria servido para preencher o buraco da minha necessidade de cuidar. Que ele não me leve a mal, mas nosso relacionamento não foi pessoal, foi sugado e engolido pela minha necessidade de cuidar, de organizar, de regrar e de amor doído. Tem um pedaço de mim que sempre apreciou a dor, o desespero e o choro, vai ver é minha tempestade tomando conta de mim.

Mas não existe controle sobre aquilo que não nos habita, e ele virou o centro, o centro daquela minha vida que não tinha centro. Já me ensinaram que o centro está na carreira, ou no trabalho, ou na família, ou nos amigos ou em si mesmo, mas não sei informar pois sempre coloquei alguém no centro sem ao menos pensar no que aquilo causaria a mim. Só posso descrever ele com explosões, ele falava muito, fumava muito, se mexia muito e ria, ria como uma criança que ainda não viu a dureza do mundo. Aquela inocência sobre o mundo me cativou, me cativou talvez na minha tentativa interna de lidar com o desejo da maternidade.

Ele tomou conta da minha vida, não porque ele fez algo, mas porque eu o coloquei naquela posição, não tardou para me decepcionar, o problema dele era o vício, e não importa o vício, nem importa ele, mas importa o que me permiti passar na tentativa de cobrir esse buraco aberto que habita minha alma. As pancadas eram fortes, e naquele drama que só vemos em relatos distantes, encontrei aquela dor que algo dentro de mim dizia que eu deveria viver, essa dor do martírio, essa dor de não ter domínio sobre si mesma. Tem um orgulho também, aí no meio dessa loucura, o orgulho de continuar apoiando quem te machuca, o orgulho de ser forte, invencível e resistente. Não foram poucas pancadas, foram muitas, e foram fortes no corpo e na alma. Será que existe curativo para a alma?

Em uma das vezes ele fez a pior coisa que um homem pode fazer para uma mulher, ele violou a integridade do meu ser, usando o sexo como arma de poder. Mas ele estava no vício, e o vício levava a culpa pela dor que eu vivia. O vício era um terceiro nessa relação a dois, que me desculpem os modernos, mas dois é bom, três é demais. Tratávamos dele, o vício, como um alguém, como o corrosivo de nosso relacionamento destinado ao fracasso. Também usamos do vício para ignorarmos nossas incompatibilidades, eu usei o vício para justificar minhas tempestades, se ele me batia e me violava eu poderia o humilhar, xingar e rebaixá-lo a qualquer nível, e o poder, o poder de humilhar envenena nossa alma, e nos consome. Eu podia ser o demônio que eu quisesse, porque ele tinha violado e transpassado todos os outros limites.

A calmaria não chegava, não passávamos um mês sem nos destruir, testando os limites um do outro, como duas crianças brincando com um balão de ar, vendo o quanto ele resistia antes de explodir. Testávamos o quanto valia esse tão aclamado amor. Qual seria a gota d’água? Enquanto as tempestades ocorriam, seguíamos na superfície como um casal apaixonado, encontro com as respectivas famílias, almoços com as avós, alianças de namoro, presentes, jantares, viagens, tudo ocorria, como manda o figurino. Mas era isso, era uma figuração de algo que não era real, eu estava tentando preencher meu buraco, extravasar meus demônios, e ele, bom ele eu nunca vou saber o que estava fazendo.

Não sei porque, nem como, no meio de todo esse drama, a decisão de casar ocorreu, amarrar de vez duas tragédias parece agora tão absurdo, mas meu buraco era/é tão grande, que sem ele eu não suportava me imaginar. Uma aliança foi comprada, foi tudo falso, não houve romance, surpresa, foi tudo contado antes, como que para afirmar que de real nada existia nesse relacionamento destinado a padecer. Dizem as más línguas que o romance é uma enganação, uma expectativa que nunca se satisfaz, mas nós mulheres, feministas ou não, céticas ou não, temos essa expectativa que nunca é realizada. Eu fui levada a um lugar que eu não tinha desejo nenhum de ir, num lugar onde a comida é cara e as pessoas são baratas, num lugar que é bonito de falar e tedioso de se comer. Não poderia ser mais piegas, ou mais falso, aquele noivado destinado ao fracasso, eu já havia visto o anel, já sabia o que ele iria me pedir, ele já sabia minha resposta e tudo foi seguindo, conforme o figurino. Como vemos nos filmes, aquilo deveria ser comemorado, e nesse ocidente a comemoração vem na forma líquida e alcoólica. Mas o calor de seguir com aquela farsa me fez esquecer daquele vício, daquele terceiro no nosso relacionamento de dois. Mas a terceira parte custa a desistir de seu papel protagonista, e o vício se mostrou, daquela vez ele parecia um monstro, arrancou a aliança recém oferecida, proferiu xingamentos e humilhações, e eu naquele desejo de cuidar, mesmo que significasse minha ruína, os segui, ele e o vício, garantindo a chegada segura naquela casa de horrores. Mas cheguei lá já dolorida, machucada por aquele momento ter sido destruído e acabado, e qual foi minha surpresa, as pancadas reapareceram, mais fortes, mais duras do que nunca, seguidas de ameaças com uma faca na mão. Não se engane, ele, não quis só me matar, ele quis matar a mãe dele, e eu, num ímpeto de coragem burra me coloquei na frente da ponta da faca e do ódio mortífero. Não morri porque talvez não fosse minha hora, ou porque até para isso ele era covarde demais. Salvo a continuação do drama, os levei, ele e o vício, para o hospital, dormi em uma poltrona, eu coberta de hematomas, lágrimas e dor, ele consumido pelos remédios que desligam as emoções.

Me recuso a reviver cada uma das agressões, pois elas ainda me agridem e me machucam, não se passa um dia que eu não lembre que apanhei e fui violada, ele diz que eu deveria tratar isso na terapia, que isso é um problema meu, que eu deveria perdoar e seguir em frente, pois afinal não foi ele, foi o terceiro componente, foi o vício que me causou a dor. Ou foi meu vício em continuar sofrendo?

Dizem que os relacionamentos que tem agressão seguem um padrão claro, a agressão ocorre, o romance se instala, a calmaria domina, e no calor da alegria os ânimos se agitam e a agressão volta a acontecer. Pois posso afirmar que o padrão confere. O padrão pior é o que criei na minha cabeça, toda vez pensava que aquela seria a última, e que ninguém seria capaz de querer ficar comigo, e que por isso valia a pena aguentar só mais uma vez. Só mais uma vez. Só mais uma vez. Só mais uma vez.

No último ano novo, nesse momento de calmaria inata que ocorre, pois, as pessoas acreditam que datas arbitrárias são significativas, eu, de novo, no calor da felicidade, esqueci do terceiro componente, só que dessa vez eu tentei fugir antes, as pancadas doíam antes de ocorrer, meu corpo estremecia do trauma revivido tantas vezes, e na minha fuga, uma ponta de cigarro acesa queimou o meu rosto, e mais um pouco da minha alma. Voltei para minha família no meio da madrugada, desferida, machucada, com a roupa rasgada, pedindo desculpas, pedindo desculpas por ter me tornado a mulher que apanha, mas não larga o companheiro. Eu tomada de raiva, de cólera, quis denunciar, quis denunciar, quis prevenir o mundo sobre eles dois, ele e o vício eram perigosos e maléficos. Meu pai desaconselhou, será que homens se protegem a qualquer custo?

Dois dias depois, com o rosto e a alma queimados, eu segui viagem ao lado dele e do vício, num navio, no meio da água, minha mãe com o coração na mão de que ele me machucasse de novo, e eu apostando o que eu achava ser minha última ficha nesse relacionamento maldito. Brigamos, brigamos muito, eu soltei os demônios em cima dele, eu tentei mostrar o quanto eu estava destruída, mas ele parecia não entender, parecia achar que o perdão era a saída óbvia, e no meio de uma briga ameaçou me largar, naquele navio, com a família dele. Que direito tinha ele de me abandonar, se alguém deveria largar o osso era eu, o ódio de passar toda aquela dor em vão me consumiu, tudo me consumiu, e o que antes era um buraco foi virando um vazio completo.

Mas o orgulho, o sonho de realizar o desejo de construir família me dominou por completo, e eu continuei, continuei a alimentar um relacionamento já fracassado. Ele jurou abandonar o vício, jogou tudo fora, se disse capaz de seguir só comigo nessa jornada que até aquele ponto havia sido uma jornada a três. Eu acreditei. Talvez eu ainda tenha um pedaço em mim que ainda acredite. Até que um dia ele sumiu, sumiu por dois dias, fui busca-lo onde seu vício morava, mas ele não estava lá, no desespero de perder meu objeto que eu cuidava, o busquei, o busquei sem parar, e o encontrei me deixando para se internar. A clínica iria lhe fazer bem disse a mim mesma, não parei, porém, para analisar o que me faria bem. Naquele momento tinha virado amor doído, e aquela dor beirava o insuportável, mas também fazia eu me sentir viva. Parecia irreal, visitar o noivo em uma clínica, eu acho que nunca nem conheci alguém que estivesse internado. Havia dentro de mim um certo deslumbramento, uma ideia que aquilo poderia ser uma história de superação, renascimento.

Ele saiu, aparentemente renovado, e a vida seguiu, a vida seguiu como manda o figurino, o terapeuta, ou o psiquiatra lhe aconselhou a sair daquela casa tóxica, mas ele na sua infância mal vivida, não queria sair de lá sozinho, e eu, na minha maternidade não vivida o acompanhei, lhe ensinei a montar uma casa, um lar, lhe ensinei a cuidar de um lar e ter responsabilidades, lhe mostrei rotina, lhe mostrei o que era um lar cooperativo. A excitação da mudança nos dominou, e talvez tenha sido meu momento mais feliz ao lado dele, mas a minha carne também era fraca, e me sentindo segura na posição de quase esposa eu fui atrás do terceiro componente do nosso relacionamento, a busca por ele hoje tem claro o seu significado, nós dois éramos muito pouco um para o outro. Nós precisávamos de mais. Mas dessa vez eu quis fazer o que ele fez comigo, eu enlouqueci, me perdi igual ele se perdia, e o agredi, na fraqueza e fúria que definem a mulher magoada, e para meu espanto ele saiu pela porta, pois apesar de tudo, ele era mais inteligente do que eu, ele não estava disposto viver aquilo, e naquele momento eu percebi que eu era a única amarrando aquele relacionamento.

Mas como tudo sempre era, nós ligados pelas nossas fraquezas e nossas carências, continuamos, marcamos casamento, fizemos lista de convidados, pagamos alguém para registrar o que na superfície acreditávamos ser o momento mais feliz de nossas vidas, aquele momento prometia nos purificar de todo o inferno vivido, nos libertava da história de terror e nos encaminhava para o caminho sereno da construção de uma família.

Eu levei minha mãe a uma loja de noiva, eu precisava ter algo tangível, real, me convencendo que aquilo realmente iria ocorrer, e lá, no meio daqueles vestidos de noiva, eu encontrei também a dor de perceber que aquele era o momento em que ou resolveríamos nosso passado conturbado ou nunca mais seríamos capazes de ficar juntos.

O casamento se aproximava, e ele se mostrava cada vez mais distante, não fazíamos amor, não conversávamos e mal nos beijamos. Admito que sinto falta dos beijos dele, eles eram doces o bastante para me fazer esquecer por momentos das dores já vividas. Mas eu via uma sombra nos olhos dele, eu via a sombra do fim, da rejeição, a sombra que confirmava que tudo que sofri havia sido em vão. Neguei, me recusei a admitir, as brigas cresciam, aumentavam, eu inventava motivos para que ele me demonstrasse que aquilo era real, eu requisitava comunhão total de bens, meu nome na propriedade dele, na tentativa que ele me desse um sinal que ele estava colocando todas as fichas dele no relacionamento. O sinal nunca veio. O sinal nunca veio. O sinal nunca veio.

E aí, no meio de uma calmaria, eu recebi a temida mensagem. “Fui embora. Não estava feliz. ”. E lá estava eu, abandonada em um lar desfeito durante minhas horas de trabalho, sem conversa, sem diálogo. Deixada vazia, como a casa estava. Eu não chorei, eu berrei, eu urrei uma dor que veio de um lugar que eu desconhecia em mim mesma, era a dor de ter vivido tanto tempo cobrindo um buraco, agora esgarçado, e ter esse buraco de volta. Mais dolorido, mais machucado, com menos esperança do que nunca.

Eu presenciei meu irmão quase morrendo, eu tive diversas perdas importantes, muitos morreram ao meu redor, mas minha dor nunca foi tão grande como aquele dia, o dia que eu percebi que eu estava até agora usando o outro para mascarar minha total falta de preparo para o mundo. Meu desespero de não saber o que fazer, de me sentir sozinha, de me sentir indesejável, estranha, grosseira, fria. O desespero de que ninguém mais teria coragem de me amar novamente, pois só alguém como ele, destruído, frágil, quebradiço, confuso, perdido em seus próprios problemas seria capaz de ignorar meus defeitos e ficar ao meu lado, mas não, nem ele ficou. Nem ele ficou. Ninguém ficou, ninguém nunca fica.

Eu retorno a minha máscara, eu entrego minha vida nas mãos do destino, eu volto a sorrir, a tentar completar o buraco com líquido. Mas eu retorno mais forte, mais consciente desse buraco, buscando algo que me complete, mas que que não seja outro indivíduo. Algo que me faça sonhar de novo, assim como eu sonhei com a família que eu ia construir, com o casamento que eu planejei, e com o companheiro que eu me mantive firme ao lado. Eu retorno mais dona de mim mesma, mais capaz de lidar com a dor, admito a vontade de morrer, mas piso nela como fui pisada por ele, e passo por cima de tudo para me tornar mulher de mim mesma.

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