As “pequenas” coisas

Relato de uma seguidora da página que preferiu não de identificar.

Moro há quatro anos em uma rua de um bairro afastado e que tem uma distribuidora de bebidas (usada como “boteco” para os “atoas” passarem o tempo) na esquina. Todos os dias eu passo na porta da distribuidora para sair. Ir trabalhar, ir ao mercado, padaria, etc. Como sempre, vários homens desocupados tomando uma cervejinha na porta e “aterrorizando” mulheres na rua.

Todos os dias, há quatro anos, ouço coisas absurdas e que me incomodam bastante, mas que sempre ignorei. O proprietário desse “bar” é conhecido da minha mãe, já que a mesma é alcoólatra e frequenta diariamente a distribuidora pra comprar alguma coisa. Minha mãe, sempre muito machista e “nariz empinado”, defende desde sempre o proprietário do bar (que sempre deu em cima de mim, para a minha mãe, não diretamente para mim porque ele sabe que não permito esse tipo de coisa), alegando que ele e esse tipo de homem só elogia, entre outras defesas mais malucas. Confesso que sempre tive vontade de chamá-la de vagabunda, piranha, periguete, assanhada, entre outros pelo fato dela defender esse tipo de agressão e achar que sou eu a maluca da história, sempre que me sinto ofendida com esses “insultos”. Mas é minha mãe; machista e sem conhecimento de muitas coisas/sem muito estudo e eu não posso dizer mais do que já digo (sermãozinho de vez em quando).

Tem um homem, que frequenta esse bar, que adora aparecer. Todos mexem com as moças, mas este adora chamar a atenção. Sempre fala mais alto, sempre se acha o gostosão. Hoje, como de costume, lá vou eu à padaria! Ao passar na porta do bar, com os fones no ouvido e sem colocar a música ainda, ouço: “Nossa, olha que tesão! Essa novinha vive passando com os fones no ouvido e nunca escuta a gente. Ela precisa ouvir, precisa saber o quanto acho ela gostosa. Se ela ficar passando aqui na porta com essas calças apertadinhas eu vou acabar metendo nela sem querer. Tem “mó” cara de “vagaba” essazinha aí! Se eu pego uma “mina” dessas, eu arregaço ela todinha!” Ouvi, mais uma vez, calada e com o sentimento de abuso guardadinho. Passei de nariz empinado, fingi que não ouvi. Na volta, já sem os fones de ouvido, o sujeito me diz: “Olha lá a novinha passando de novo! Nossa, que espetáculo! Se eu pego essa “mina”.. ai ai, se eu pego ela..” E já com os nervos à flor da pele, me dirigi ao proprietário do bar e perguntei: “Esse cara mora por aqui?” E como quem não entendeu muito bem a minha reação (até então muito calma) balançou a cabeça fazendo um gesto de “aham”. Então, eu sai do bar, fui pra calçada e peguei meu celular para ligar pra Polícia Militar a fim de registrar uma ocorrência sobre os assédios. Quando o sujeito percebeu que eu estava ligando para a polícia, ele veio com tudo pra cima de mim completamente assustado, querendo pegar meu celular, falando alto e xingando! Sim, xingando! Cada vez mais descontrolado e até tremendo de raiva, ou sei lá o que! E, claro, me desestruturei! Comecei a discutir com ele, ainda com o telefone na orelha. O atendente da PM registrou algumas coisas que o sujeito falou. Me chamou de “filha da puta”, de “vagabunda”, me mandou “tomar no cú” e por fim DISSE QUE TAMBÉM É POLICIAL E QUE VAI ME CAÇAR E METER O PAU EM MIM e me processar também.

Continuamos discutindo, eu ignorando e ele vindo pra cima gritando. Eu deixei bem claro como ele tem uma péssima ética e conduta pessoal e profissional e a quais crimes essas agressões dele levariam, caso ele continuasse os insultos. Ele, sempre abusando da sua “autoridade”, me ameaçou diversas vezes por ser policial e que vai me procurar ainda… Disse que tem uma filha. Eu disse que ele deveria ter mais vergonha ainda de agir assim por ser policial e ter uma FILHA.

Após longos dez minutos de espera (esperei na lojinha da esquina, depois de ter discutido mais um pouco com ele), a viatura da PM chegou. O sujeito, completamente desestruturado (dessa vez com o rabo entre as pernas e muito mais calmo) nem esperou os agentes descerem da viatura e já começou a falar alto (gostei do fato dele ter se mostrado descontrolado) e me ofender, discutindo comigo na frente dos agentes. Enquanto eu conversava com um dos agentes, muito educado e calmo até demais, ele conversava distante com outro agente, muito estúpido e “machistinha” também. O proprietário do bar e alguns clientes testemunharam a favor do sujeito. ÓBVIO, né?! TINHA QUE SER! Não esperava o contrário, também. O agente mais grosseiro fez de tudo pra que eu desistisse de registrar a ocorrência. Não desisti! E deixei claro a minha decepção. Os agentes me orientaram a aguardar em casa para que eles trouxessem o número do boletim de ocorrência aqui. Quase uma hora depois, fui na porta olhar e ainda estavam discutindo com o sujeito. Vou me sentir muito mal, se não registrarem ou não procederem corretamente. Agora só me resta o medo e a insegurança. Sabe lá o que esse sujeito é capaz de fazer, né? Valem as ameaças dele. Espero que ele realmente, como disse para os agentes, não me procure e não volte a assediar as pessoas. Coisas piores só acontecem quando as mulheres relevam e não se importam com essas coisas mais simples. Quanto mais deixarmos isto acontecer, mais a nossa cultura vai ficar “atrasada”. Salvo um monte de detalhes que eu não consegui escrever por estar tão nervosa com o fato.

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