Assobio

assobio

Era uma tarde ensolarada de outono norte-americano na cidadezinha de Swarthmore. Eu estava andando rápido pra casa carregando minha mochila de livros nas costas e a mente atribulada com os afazeres do dia-dia. Mas tudo respirava a tranquilidade das cidades do interior. O sol afagava gentil a copa das árvores, os pássaros sobrevoavam as nuvens baixas e o cheiro de café se esgueirava da confeitaria de esquina. Por um momento, eu diminui o passo e me permiti apreciar toda essa calmaria. Um daqueles segundos que você sente paz no meio do cotidiano e sorri um pouquinho por dentro.

Um Ford escuro se aproximou de mim. Parou do meu lado da rua e a janela abaixada revelou um homem na faixa dos seus 40 e poucos anos.

– Posso te fazer uma pergunta?

Eu me aproximei do carro – antecipando de antemão alguma dúvida sobre direções que eu não saberia responder.

– Claro – respondi sorrindo

– Você é solteira?

Meu sorriso morreu, me afastei do Ford revirando os olhos sem dizer nenhuma palavra. O homem fechou a janela com uma expressão ilegível, mas não foi embora. O carro lentamente começou me acompanhar.

De súbito, a calmaria da cidade se extinguiu. Tudo me pareceu estrangeiro e ameaçador. O som dos meus passos ecoavam na calçada. A rua estava deserta. Apressei o passo e o automóvel permaneceu colado a mim como uma sombra. Virei na próxima esquina. Pensei em correr. E se ele visse aonde eu moro? E se ele saísse do carro? Com o canto dos olhos eu podia ver a mancha preta do Ford a menos de dois metros de distância.

O silêncio era opressor. Ninguém na rua, nenhum outro pedestre ou carro a vista. Suor brotava da minha testa. Mãos se fecharam em punhos de ódio. Entrei num café. Sentei numa mesa e, trêmula, esperei ele desistir e ir embora. Passaram-se 20 minutos até que ouvi o motor do carro acelerando e seu rastro escuro desaparecer de vista.

Caminhei de volta para casa com o gosto amargo do medo. Vontade de gritar para o mundo a opressão travada nos maxilares. De como senti a minha liberdade cerceada em um espaço público. Meu corpo objectificado por um estranho que me encarava por uma janela – eu sendo seu espetáculo privado.

Histórias como essa se repetem todos os dias em todos os cantos do globo. Aconteceu comigo nos Estados Unidos provavelmente no mesmo momento em que uma mulher recebia um assobio não solicitado na Itália e outra desviava dos berros de “gostosa” nas ruas de São Paulo. Quanto tempo vai demorar para o mundo perceber que isso não é galanteio e sim afronta? Que assédio não é elogio, é agressão?

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