Carta à prima do meu primeiro namorado

Segue texto anônimo de uma seguidora da página. Para variar (e para a nossa felicidade), não tem avisos – é uma história feliz.


Olá,

Esqueci seu nome há muito tempo, lembro que era um nome curto, bonito.

Mas não vou negar, não gostava de você.

Eu tinha 15 anos cercada da pressão que todo mulher é sujeita nesse período.  Eu era imatura e impressionável quando conheci o L., seu primo e consequentemente você. Mas me ensinaram que mulheres não podiam ser amigas, me disseram que você iria ser contra mim, seja lá o que isso significa.

Dez anos depois, me lembro vagamente de seus discursos. Você tinha seus vinte e poucos anos, se proclamava feminista e falava abertamente de sexo. Você era soberana em tudo que fazia. Eu sentia repulsa. Pela criação que tive, você era o contrario do que uma mulher deveria ser. Tinha um pouco de medo e ás vezes eu nem me dava o trabalho de esconder de você o meu desprezo.

Perdi minha virgindade com o L. naquela noite em que tudo parecia certo, perfeito. O sexo foi o retrato do relacionamento: empolgante, fácil, delicioso. Nos meses seguintes e nos sexos seguintes foi o mesmo: Eu como uma Deusa.

Pela influência dele, pela experiência de ter sido tratada com dignidade e respeito, por ter te assistido tão de perto e pela oportunidade de ter me iniciado na vida amorosa de forma tão privilegiada, meus relacionamentos posteriores refletiram isso. Ele me fez sentir livre pra falar de amor e me explorar como mulher, me sentir confortável pra experimentar um relacionamento em que eu podia ser eu mesma, sem medos, sem inseguranças, sem padrões de beleza, sem tabus. Ele respeitava minhas opiniões e me tratava como igual, mesmo sendo mais velho. Falava de mim como se eu fosse a mais sábia, a mais bela e a mais bondosa.

Irmã me perdoe.

Me gabei , na década seguinte das boas escolhas que fiz nos homens subsequentes. Me dizia inteligente, digna e não aceitaria ser tratada nada menos do que como a melhor. Propaguei machismo culpabilizando as vítimas de relacionamentos infelizes e até abusivos. Pelo simples fato de me achar a suprema responsável pela minha experiência social como mulher.

Hoje vejo, ex prima, quão tola eu fui. Só hoje me lembro claramente que, depois de cada dia ou noite comigo, era com você que ele ia conversar. Era você que ele ia pedir conselhos.

Era você minha ex prima, minha irmã. Você que estava ali a cada passo do caminho, cochichando no ouvido dele, guiando os pensamentos dele em sincronia com o meu durante 8 meses sem que eu nunca percebesse. Foi você que impediu que ele fosse como os primeiros namorados das minhas amigas, aqueles que não ouviam, que faziam as minhas amigas se sentirem inadequadas e até feias. Foi você que impediu que ele falasse alto comigo, que ignorasse minhas opiniões (mesmo que extremamente erradas), que ele menosprezasse as minhas dores.

Hoje sou casada, feliz. E me arrependo muito de só perceber agora o quanto eu devo a você. Obrigada por ter me blindado do pior que o mundo tem a oferecer a meninas de 15 anos que tem mais empolgação do que senso. Que lia muito e vivia pouco. Você me deu meu primeiro namorado que serviu de molde aos outros e nunca me pediu nada em troca.

Em sua homenagem, tento seguir seu exemplo fazendo o mesmo pelas minhas companheiras.

Mas não me lembro sequer seu nome… Espero que esteja feliz.

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