Carta a um estuprador

Segue relato anônimo de seguidora da página. Aviso para descrições detalhadas de estupro.


Eu cresci ouvindo que deveria ser recatada, ter modos. Cresci ouvindo que deveria vigiar o tamanho de minhas roupas e não andar sozinha depois de certo horário. Eu cresci sendo tolhida para que pessoas como você tivessem o direito de me olhar como um pedaço de carne. Eu cresci ouvindo que mulheres devem aprender a manter-se em seus lugares, que devem perdoar sempre e acatar silenciosamente.

Questionar? Essa palavra não devia existir em meu vocabulário.

Eu cresci tentando me manter invisível e quanto mais eu fazia isso, mais visível me tornava a seus olhos.

Aos onze veio o primeiro toque – estávamos sozinhos no corredor, que tinha iluminação somente vinda pela janela, sua mão deslizava lentamente em minha perna seguindo o caminho entre as mesmas, eu ali, paralisada. Fomos interrompidos. Você bufou de ódio e eu respirei aliviada. Corri o mais rápido que pude.

Mas correr não seria o suficiente, pois fugiria de um e encontraria outro. Um lobo disfarçado de cordeiro, disfarçado de amigo.

Aos dezessete veio novamente um toque,  que me pegou de surpresa. Fui “gentilmente” empurrada a um quartinho, que foi trancado logo em seguida, a luz apagada e novamente uma iluminação vinda de fora. Uma de suas mãos percorriam o meu corpo enquanto a outra tapava a minha boca, impedindo qualquer som que eu viesse a fazer. Minha saia veio parar na altura dos meus seios e minha calcinha rasgada e jogada num canto … era a primeira vez que um homem via as minhas partes íntimas e aquilo estava bem longe de ser romântico.

Você me encarou e me apoiou em uma das  paredes, tapando minha boca com mais força enquanto se enfiava dentro de mim. Doeu muito, mas você não ligou. Eu chorei mas minhas lágrimas não te comoveram. Acho que durou apenas uns minutos mas com certeza foram os mais longos da minha vida.

Você ejaculou fora de mim, não queria que eu ficasse grávida. Mandou eu me tapar e correr em casa para me lavar. Mas antes me fez prometer que aquilo seria nosso segredinho. Após minha promessa fui liberada e novamente corri o mais rápido que pude, me banhei, por muito tempo, mas não adiantava. Eu estava suja, desonrada. O que eu diria a minha mãe? Ela não acreditaria novamente. Achei melhor guardar esse segredo, tentando esquecer o inesquecível.

Novamente os anos foram passando e eu parecia estar indo bem. Mas era tudo ilusão minha, pois por mais que eu quisesse ser invisível, eu não era. Novamente alguém me viu, reparou em curvas que sempre tente esconder. Esse alguém me deu asas, somente para cortá-las depois. Ganhou minha confiança, minha admiração e até o meu amor. E para quê? Para me fazer sentir como aquela menina que tanto tentei esquecer, que tanto lutei para apagar.

Logo … estava novamente, com alguém entrando e saindo de mim fortemente, meus gritos, minhas lágrimas e muito menos toda a força que eu fiz para escapar não serviam. Dessa vez durou em torno de duas horas, mas me pareceram anos. Após terminar você ejaculou dentro de mim e riu. Levantou da cama e pegou uma Stella na geladeira. “Não me olhe assim. Você também queria. É sua obrigação me satisfazer.” – você disse.

Novamente fui me banhar, o mas o cheiro não sai, a imagem não sai. É difícil dormir sem ter pesadelos, é difícil sair sem achar que algo ruim pode acontecer novamente, é difícil falar sobre isso em voz alta. Mas nada disso te importa, não? O sofrimento é uma escolha, dizem, mas com certeza não sou eu que faço.

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