Compaixão e união

Fiquei sabendo do ocorrido no dia 12, dia dos namorados: um maluco entrou em uma boate LGBT, em Orlando, armado até os dentes e abriu fogo, matando muitas pessoas e deixando feridas tantas outras. Ao ler as notícias que passeavam pelo meu facebook sentia meus pelos se arrepiando e uma onda de horror passava por todo o meu corpo. Passei o dia inteiro pensativa e um pouco distraída. Meu namorado ficara preocupado, sempre choro quando algo do tipo acontece pelo mundo, então ele ficou me rodeando e esperando para me abraçar quando eu desabasse.

A noite chegou e nos deitamos para dormir e minha cabeça simplesmente não desligou, fiquei pensando em como uma pessoa chega ao ponto de matar alguém por qualquer motivo: por homofobia, por fé numa religião, por um movimento… E não entendi, não consegui chegar à nenhuma conclusão e, enquanto meu namorado dormia, eu chorei. Chorei por que, por um momento em que fechei os olhos, eu quase podia sentir a situação: quase pude ouvir a musica alta, as pessoas dançando e no outro momento, o som dos tiros pessoas esbarrando em mim enquanto corriam desesperadas, o sangue sujando minha roupa, a dor queimando pelas minhas veias, senti os tiros abrirem buracos em minha pele e senti a vida vazar por entre meus dedos.

Senti como se fosse eu.

E por um segundo eu também me senti como um membro da SWAT, senti a arma fria em minhas mãos, congelando meus dedos, e senti o coração disparando quando arrombei a entrada do lugar e dei o tiro de misericórdia: matando o desgraçado causador de tantas mortes.

Chorei por que tudo isso que senti por poucos segundos foi mera imaginação, mas enquanto eu imaginava, as pessoas em Orlando sofriam isso de verdade, na pele, nos hospitais, no chão da boate, escondidas nos banheiros… Tudo que senti em minha mente aconteceu e isso é desesperador.

Meu namorado acordou com meus soluços e, depois de uma longa conversa e depois de conseguir me acalmar, perguntou se eu tinha medo de acontecer comigo e minha resposta imediata foi: “Eu não tenho medo de acontecer aqui, tenho medo por que já aconteceu e tenho medo por que sei que não é a última vez”.

Muitas outras boates ainda vão ser explodidas, muitas outras pessoas inocentes ainda vão ser mortas, muitas outras mães perderão os filhos, filhos perderão os pais e isso pra que? Por que alguém faria isso? – Me pergunto – Como alguém consegue se incomodar tanto com algo, com alguém, a ponto de matar, de bate, atirar?

E então, no outro dia eu me vejo assistindo discussões na internet entre pessoas tentando decidir se foi homofobia ou não e sabe o que eu digo? Não importa. Não importa se foi homofobia, se foi racismo, se ele fez por diversão, se foi pela sua religião ou por algum movimento doentio… O que importa é que ele fez. Se abrirmos a nossa mente e pensarmos que ainda existem pessoas que literalmente morrem de fome, que tem as cabeças cerradas enquanto outras pessoas assistem ao vivo pela internet, que crianças morrem afogadas tentando fugir de guerras, que meninas e meninos são explorados para que o capitalismo lucre cada vez mais, que meninas jovens são vendidas pelas próprias famílias e obrigadas a casar-se com homens mais velhos e sofrerem agressões, estupros e serem mortas por eles e que as mortes são computadas como números na nossa sociedade poderemos perceber que ainda somos primitivos, ainda somos um pedaço de uma cultura mal feita e desrespeitosa.

Consideração, compaixão, amor e gentileza são palavras que desconhecemos, que não sabemos seus significados por completo e prova disso são os massacres que acontecem ao nosso redor diariamente e não percebemos, é o atirador que entra numa escola e mata várias crianças, é a briga no trânsito, é a moça que fura a fila, o policial e o presidente corruptos, é a bomba que explode e mata milhares de pessoas, é o frio que passam os moradores de rua: tudo isso é exemplo da nossa falta de compaixão e de união.

Ainda sinto pontadas no coração quando imagino a dor das mães que perderam os filhos, dos amigos que perderam pessoas incríveis, dos jovens que faleceram e que poderiam ter sido extraordinários e a cada hora que passa prometo a mim mesma que por onde eu passar, vou espalhar amor, vou sorrir na rua para todo mundo, vou me sentar ao lado de um estranho e perguntar como vai seu dia, prometo que nunca vou ferir ninguém: seja essa pessoa boa ou não. Vou ser humana, vou ensinar meus filhos a serem humanos e nunca, jamais, deixarei o significado de “humano” se perder na escuridão do tempo.

Beatriz Domingues, 17 anos.

Praia Grande, SP.

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