De volta à superfície

Relato enviado por um de nossas leitoras, Agatha*.

*A autora do texto nos deu permissão para divulgarmos seu nome.

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Tenho 16 anos e há pouco tempo atrás vivi um relacionamento abusivo. Normalmente, quando conto isso, a maior parte das pessoas não levam a sério. Não acham que seja possível sofrer com um relacionamento abusivo nessa idade, acham que tudo é “fase”. Mas não é! O abuso está ao nosso redor. No nosso dia-a-dia. E eu passei por isso.

Há 2 meses terminei meu namoro. Tive coragem e reuni todas as minhas forças para acabar de vez com aquilo que estava me matando a cada dia. Mesmo com todas as consequências que vieram depois, não me arrependo. Durante meses eu fui submissa. Eu, que sempre fui uma pessoa de personalidade forte e determinada, que dizia que nunca entraria em um relacionamento assim, me vi sacrificando tudo ao meu redor por ele. Briguei com meus pais, com minha irmã, fui contra a opinião dos meus melhores amigos, comecei a decair na escola, comecei a imaginar um futuro que pertencia à ele, não à mim. Nunca quis ter filhos, ser mãe nunca foi meu plano, mas em um determinado momento da relação me vi desejando engravidar dele um dia para que ele ficasse grato por me ter por perto, por eu ter dado esse “presente” para ele. Imagina?!

Engoli os erros dele. Perdoei tudo. Aceitei ele de volta diversas vezes. E era sempre o mesmo ciclo vicioso. Ele cometia o erro, eu perdoava, ele fingia ter mudado por um tempo e errava de novo. De repente vi minha vida totalmente confiscada. Meu celular sendo espiado de hora em hora, minhas redes sociais acessadas por outra pessoa, meus segredos, as coisas que queria guardar pra mim sendo revelados obrigatoriamente porque ele insistia em dizer que “eramos um só e por isso eu tinha que contar absolutamente tudo”. Enquanto isso ele escondia as meninas com as quais ele falava, tinha intenções ou já tinha ficado. Eu não podia fazer um movimento diferente. Algo para mim. Ele sempre achava uma maneira de me rebaixar e fazer das minhas coisas, pequenas e insignificantes. Principalmente durante discussões, além dos apertões nos braços, os gritos, dedos apontados na minha cara, empurrões, socos na parede, chutes na porta, celulares quebrados, livros rasgados, ainda era chamada de “louca”, “perturbada”, “descontrolada”, “sociopata” quando eu descobria algo. Ou então o pior. O que me fez dar um ponto final nisso tudo: “vadia”, “vagabunda”, “maldita” e “desgraçada”. Sim, ele me chamou disso tudo. Ao mesmo tempo, seguidamente. E escutar isso do seu primeiro namorado, do seu primeiro parceiro sexual é muito doloroso. Porque ele sabia e sempre soube que eu nunca fui isso tudo. Respeitava mais os “contatinhos” dele do que eu, a própria namorada. Desisti. Abri mão. Fui embora. Mandei embora. Xinguei também, gritei também, assumo que até tapa na cara eu dei. Mas tudo porque eu estava farta de ir dormir chorando quase todas as noites. De aturar ele me provocando ciúme com outras meninas. De ver ele se insinuando para as minhas amigas na minha frente e de ver ele surtando e me humilhando toda vez que eu chegava perto de um menino para conversar.

Terminei o namoro pela segunda vez e então não falei mais com ele. Cortei todos os tipos de contato com qualquer pessoa próxima à ele. Mudei de período na escola. Parei de frequentar os lugares em que ele ia. Mudei meus horários pra nenhum se encaixar com os dele. Me livrei disso tudo. Mas, infelizmente, um tempo depois fui descobrir algo que mais uma vez me abalou: ele havia colocado um vírus no meu computador e vigiado minha vida durante meses. E o vírus consistia em enviar prints da minha tela e da minha webcam pro computador dele. E eu aparecia nua na frente da webcam. Chorei, fiquei mal, com raiva, com vontade de matá-lo. Mas infelizmente como o vírus já havia sido tirado do meu computador e eu não tinha como provar o que ele havia feito, ficou por isso.

Nunca mais olhei na cara dele e luto todos os dias para pensar nele o menos possível. Criei nojo, repulsa, raiva, rancor. Mas eu sei que tudo isso vai embora um dia. E a sensação de estar finalmente fora de algo tão sufocante assim é libertadora, eu me sinto viva novamente. Me encontrando todos os dias cada vez mais. Voltando a ser o que eu era antes dele. Curando todo o mal que ele me causou e enfiando todo dia na minha cabeça que ele nunca gostou de mim. Ele gostava de ser gostado. Era puro ego. Perdi um ano na minha vida cuidando e perdoando alguém que nunca gostou de mim. Então eu resolvi gostar. Eu resolvi me amar e por esse meu amor próprio me afastei de tudo que poderia me causar mal.

Hoje estou estável. Estou vivendo, tocando meus planos, conhecendo pessoas novas e maravilhosas, aprendendo a valorizar mais quem me ama e os pequenos detalhes da vida. É como poder respirar de novo. Recuperar o fôlego depois de um afogamento intenso. Subi até a superfície e me achei de volta. Deixei, la embaixo, tudo que poderia sentir por ele e todas as lembranças. Me trouxe para mim. E é uma sensação ótima. Apenas você pode sair dessa situação. As pessoas podem te ajudar, mas você precisa querer estar de volta!

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