É assim mesmo, depois melhora

Relato enviado por uma das nossas leitoras. AVISO: contém cenas destalhadas de estupro.

Bem, não sei direito como começar, mas posso começar dizendo que o caso do estupro coletivo da menina de 16 anos no Rio de Janeiro lembrou bastante o meu. Me abalou bastante, pois os comentários que eu li no Facebook, foram os mesmos que eu ouvi, até mesmo dentro da Delegacia. Então vamos lá.

03 de setembro de 2014, eu tinha 19 anos. Estava em Minas Gerais pela terceira vez havia uns dois meses, onde eu já conhecia um homem que eu gostava, só que ele era 16 anos mais velho que eu e a minha mãe não aceitava isso muito bem. Mesmo sabendo que ele não queria muito um relacionamento sério, eu continuei tentando uma relação, não havia transado com ele, era virgem ainda, apesar de haver uma insistência por parte dele, me respeitava. Voltando ao dia 03 de setembro, uma quarta-feira, por volta de umas 22:00h, ele me chama para ir comer uma pizza. A princípio imaginei que era numa pizzaria mas seria no apartamento dele, topei mesmo assim, já havia entrado lá anteriormente e nada de ruim ocorreu.

Enfim, me arrumei, me agasalhei por estar frio. Mesmo com a minha mãe me orientando a não ir, eu fui, não havia visto problema nisso. Cheguei ao apartamento dele, comi a pizza que ele havia feito, conversamos um pouco e nisso eu falei que iria embora pois estava tarde, porém ele me convenceu a ficar, e eu fiquei, gostava da companhia dele. Então acabei sentando com ele na cama, e conversa corria de forma normal, até então que me atacou jogando na cama, me beijando e mordendo. Confesso que até senti um tesão de leve, mas eu não fui pra la nessa intenção, até porque estava no meu período menstrual e não estava me sentindo muito confortável com a situação, e eu disse que não queria. Mesmo assim, ele não parou e persistiu dizendo que me queria muito, cheguei a falar que estava menstruada mas ele não se importou e continuou me mordendo e tirando minha roupa. Eu fiquei com medo, não sabia o que fazer, eu sei que poderia ter gritado, batido nele mas eu não consegui reagir e acabei cedendo aquela pressão mesmo não querendo e deixando claro isso.

Enfim, começou a consumar, eu muito nervosa sentindo dor tentei lutar contra a força dele, e ele dizendo que eu estava gostando que eu era safada, que eu não podia gritar, pra eu ficar quieta. Logo que ele acabou, eu ainda dolorida, estava me sentindo usada e um lixo. Ele me pediu desculpas e disse que a próxima seria melhor, que a primeira era assim mesmo. Eu não sabia o que pensar, só estava me sentindo muito mal, queria ir embora dali, mas não encontrei forças e fiquei com medo da minha mãe brigar comigo, acabei ficando ali mesmo, até porque ele insistiu pra eu ficar ali a noite inteira. Eu sabia que estava errado, mas eu aceitei. Não só fui abusada sexualmente, como psicologicamente também. Saí de manhã, cheguei em casa, minha mãe não estava, saiu pra me procurar.

Estava muito nervosa, um vizinho da casa ao lado falou comigo, eu nem lembro direito o que respondi. Entrei e aproveitei pra tomar um banho e trocar a roupa pois estava suja de sangue e bastante dolorida. Saí de casa e encontrei a minha mãe no posto, não contei nada a ela, ela desconfiou que aconteceu algo mas ainda assim eu disse que apenas dormi. Tive medo de ser julgada ali, até porque tinha mais pessoas no local ouvindo. Passou três dias eu melhorei por conta própria. Ele tornou a falar comigo por mensagem, me chamou para sair, dizendo que queria casar comigo, que tudo iria melhorar, que até conversaria com minha mãe. No dia 06, fui com ele numa festa de rua da cidade. Extremamente possessivo, ele não deixava ninguém se aproximar de mim, alguns rapazes tiveram interesse em mim e ele sempre cortava. Vinha até a mim, dizendo que estavam querendo me conhecer e ele não deixou, pois eu tinha que ser só dele alegando estar sentindo muito ciúmes de mim. Por fim, eu decidi que queria ir embora, teoricamente cedo, por volta das 02:30 porque a festa acabaria lá pras 06:00, mas eu não estava me sentindo muito bem. Ele insistiu para que eu fosse pra casa dele, eu sabia que o que ele tinha feito era errado, mas eu gostava muito dele e achei que poderia dar uma segunda chance e aceitei ir.

Por favor, não quero ser julgada mal por isso. Chegando lá, ainda ressentida, sentei numa cadeira. Ele por sua vez me chamou para a cama, eu disse que não queria nada daquilo que ocorreu nos três dias anteriores, e mesmo assim ele falou que não faria mais aquilo. E eu fui, nisso ele me atacou novamente arrancando logo minha calça junto com a calcinha, já enfiando a mão dizendo que eu não era mais virgem e que seria melhor ainda. Eu falei que não, não queria assim, ele disse que se não fosse assim que era porque eu seria lésbica e que sexo era daquela forma e eu tinha que aceitar. E assim foi novamente, doendo muito mais do que a primeira, ele fazia com muita força, eu cheguei sentir batendo no meu útero, já estava praticamente chorando de dor e mesmo assim ele não parou. Finalizou e ele foi se lavar. Quem estava se sentindo suja era eu, e a água não limparia o que eu estava sentindo naquele momento. Um misto de raiva por eu ter sido enganada mais de uma vez e culpa por não ter lutado novamente e ter aceitado aquilo mesmo no fundo sabendo que estava errado.

Novamente, fui pra casa de manhã o mais rápido. Minha mãe acordou comigo entrando, me perguntou se aquilo era horas de chegar, eu fiquei apenas quieta, afinal eu não queria contar o ocorrido. Passou uns dois dias e novamente ele entrou em contato comigo me perguntando se eu queria ir morar com ele, mas eu teria que trabalhar e pagar o aluguel. Também disse para eu não contar nada sobre isso a minha mãe, nem sobre o ocorrido. Eu falei que não queria, e ele disse que não me queria a sério mesmo, afinal eu não prestava pra trabalhar e sustentar uma casa. ele chegou a dizer também que estava namorando com uma garota de 14 anos, sendo que ele tinha 35. também chegou a afirmar que essa menina de 14 anos era capaz de sustentar uma casa ao contrário de mim.

Não sei que rumo deu isso, mas eu lembrei que ele dizia gostar de eu aparentar ser mais nova do que a minha idade real. Anteriormente dizia querer casar comigo e fez aquilo tudo. Eu comecei a chorar na mesma hora. Minha mãe sentou na minha frente e ficou me olhando sentada no sofá com as pernas dobradas e o rosto em cima tremendo e chorando. Ela me perguntou no mesmo instante “Ele te obrigou a transar com ele né?” e eu chorei mais ainda, porque até ela que não serviu como testemunha havia percebido um estupro seguido de uma relação abusiva e eu não. Estava me sentindo um lixo humano. Um conhecido meu que trabalhava no mercado me mandou uma mensagem dizendo que ele estava se vangloriando e rindo de mim. Eu fiquei pior ainda depois disso, foi então que a minha mãe decidiu que iriamos para a delegacia denunciá-lo por estupro, que não estava certo ele ter feito isso tudo.

Eu recusei no primeiro momento pois eu estava com medo dessa exposição e estava me culpando por eu ter me submetido a isso. Mas o culpado era ele. Com a insistência dela, eu fui, junto com uma amiga dela, para testemunhar ao meu favor. Assim que cheguei a delegacia dizendo que estava para dar queixa de um estupro, o policial militar me disse para eu ter calma, pois era uma denúncia muito grave e tinha que ter certeza disto. Ora, se eu fui denunciar é porque tinha certeza, não estaria ali a toa. Enfim, fomos enviadas a sala para abrir a queixa, e eu comecei a contar o ocorrido desde o início, afinal eu estava denunciando uma semana depois; só nessa fui contrariada e duvidada pelos policiais, mesmo com a minha mãe e a amiga dela afirmando que eu fui abusada sexualmente e psicologicamente.

Logo me perguntaram a roupa que eu estava vestindo. Achei absurda a pergunta, senti na mesma hora que estavam me culpabilizando, mas mesmo assim respondi. Não estava considerada “indecente”, estava usando meia-calça preta, uma saia compridinha,tênis, uma blusa preta e um casaco. Mesmo assim foi motivo para deslegitimar a denúncia por eu estar de saia e ter facilitado. E quando eu falei que na segunda vez eu estava de calça, eles acharam que foi difícil ele ter arrancado sem meu consentimento. E eu sei que não foi nada difícil. Então eles resolveram buscar ele no local onde eu havia dito que ele estaria trabalhando. Trouxeram ele na viatura, não algemado, entrou na MESMA sala onde nós estávamos. Eu mal aguentei olhar para a cara dele de deboche, minha mãe e a amiga dela estavam com vontade de matar. Ele deu o depoimento dele, negando ter estuprado, disse que já transava comigo há muito tempo, o que era mentira. E eles acreditaram. E ainda por cima duvidaram que ele seria mais forte que eu, porque eu era um pouco mais alta. Eu tenho apenas 1,58 e não suporto carregar um saco de arroz de 5 kg, enquanto ele pegava em fardo de 60 kg facilmente.

Mesmo assim não acreditaram no meu depoimento, mesmo aparentemente pálida e abalada. Por fim, disseram que não iriam prendê-lo porque não foi em flagrante e quando estava saindo, ele e os policiais estavam rindo, dizendo que eu era louca e estava inventando tudo. Tive vontade de matar todos, mas fui contida pela minha mãe. No dia seguinte voltei lá apenas com a minha mãe e chegando disseram que não estavam encontrando minha queixa. Nisso outro policial que observava de longe, chegou e falou “pois procure direito pois existe uma queixa dela sim, o acusado veio aqui hoje mais cedo” e no fim encontraram minha queixa para fazer o encaminhamento para o exame delito corporal. Agradeci-o em pensamento, ao menos alguém ali percebeu a sacanagem e quis me ajudar. As manchas que eu fiquei no corpo já haviam sumido, também fisicamente não me doía mais. Mas a alma continuava doendo, exame algum comprovaria isso.

Enfim, fui na primeira vez em outra cidade, até bem distante por sinal, encontrar o legista e ele não estava. Havia um outro legista no local mas não específico em estupro. Ele leu apenas meu encaminhamento e me perguntou se eu o conhecia já. Eu afirmei que sim. E ele afirmou que 90% das denúncias de estupro e abuso era com conhecidos próximos. Contei resumidamente como ocorreu. Ele me perguntou se eu ainda gostava dele. Eu respondi que sim. Sim, pior que eu gostava. Ele falou com exatas palavras “Mas ele não gosta de você. Se ele te fez isso tudo é porque não gosta de você”. Por fim ele continuou afirmando que era assim que acontecia a maioria dos abusos e estupros, encantam a vítima e abusam. Ele deu carona para eu e a minha mãe, nos deixando na Rodoviária, me desejou sorte e disse para eu ficar bem, pra eu não me culpar por isso. Agradeci. Voltei posteriormente, com o contato desse legista consegui o contato do outro específico e finalmente consegui fazer o exame. Foi bem constrangedor e desconfortável mas foi necessário fazer. No exame constou ruptura do hímen cicatrizada mas não havia lesão de abuso. Ele falou que provavelmente por eu ter levado uma semana para denunciar. E ele disse que eu precisava ir em um ginecologista, pois havia algo estranho, o meu útero estava alterado e tinha probabilidade ser uma gravidez de 1 semana e meia.

Fiquei bastante assustada, nem me recordo sobre como foi minha reação mas fiquei pior ainda com isso. Não queria ter esse filho, sou a favor da legalização do aborto mas ainda assim cogitei ter por minha mãe ser contra. Estava bastante dividida. Voltamos para casa, todo mundo já estava sabendo. Toda a minha família, parentes, conhecidos próximos. Todos duvidaram. Disseram que eu dei porque quis e estava denunciando por vingança. Que eu estava feliz, que eu estava rindo, foi o que um vizinho falou. Fui ameaçada de morte caso fosse decidido a prisão do meu abusador. Fui a delegacia e não deu em nada. Não houve prova, não houve crime. Era minha palavra contra a dele. Possivelmente tudo comprado para ficar favorável a ele, afinal o pai era fazendeiro e tinha grana. Mas é uma suposição, não posso afirmar isso com toda a certeza.

Decidi numa sexta-feira fazer um exame de gravidez de farmácia, não tive um resultado muito claro, parecia um positivo, mas o segundo ponto estava bem clarinho. Marquei uma médica ginecologista e um exame de sangue pra segunda. No sábado começou a descer muito sangue com coágulo. A princípio parecia menstruação. Ou foi um aborto espontâneo. De qualquer forma sou muito grata, não queria ter um filho fruto de estupro. Até hoje isso me dói muito, o quanto fui/sou culpabilizada. Dizem que sou puta por conta disto. Por fim, saí de Minas e voltei para a minha cidade natal. É a primeira vez que escrevo sobre isso, com lágrimas escorrendo.

As pessoas que não conhecem minha história não sabem porque eu tenho medo de todo mundo, medo de sair, usar uma saia, de beber, ir pra alguma festa como todos os outros jovens. Não consigo me relacionar com homem algum, não que não tenha aparecido pessoas maravilhosas em minha vida, mas porque eu simplesmente não consigo confiar em ninguém. Tento seguir em frente, seguir aquele conselho de não me culpar. Algumas vezes é inevitável eu não me sentir um lixo, suja e vadia. Porque me tornei vadia segundo alguns conhecidos e parentes. Não queria me sentir assim, mas o mundo me diz isso o tempo todo. Não sei o que é o prazer do orgasmo, de ser amada e respeitada. Mas o que eu e essa menina do Rido temos em comum é que somos mulheres. Ambas fomos violentada, questionadas e duvidadas.

Buscaram nosso passado, fomos chamadas de vadias e por isso merecemos. É nossa culpa, não tomamos cuidados. Fomos ameaçadas. Mas uma coisa ela conseguiu e eu até invejo e me sinto muito feliz por ela: prender parte dos culpados, graças a delegada que entrou no caso que eu não me recordo o nome. Isso me deu uma leve esperança, a indignação de muitas pessoas contra os agressores. Me doeu ler pessoas a culpando, doeu em mim, foi em mim, na minha alma. Mas fiquei melhor quando li pessoas dizendo que a culpa nunca é da vítima.

Concluo dizendo que só quem passa por isso sabe como dói, mas se você puder apoiar com palavras de força e um abraço já nos ajudam em muito. E mais: a cada vez que leio pessoas dizendo que o único culpado é o estuprador, perco a vontade de me matar. Continuarei seguindo em frente, nem sempre firme forte, mas pelo menos tentando.

Tags:, , , , , , ,

Comentários