09/10/2014 - Por O que você tem para falar?

Em briga de marido e mulher…

Relato de uma seguidora anônima da página – aviso para violência doméstica.


 

Era um sábado pós-feriadão e eu tinha acabado de voltar de uma pequena viagem que fiz com meu namorado. Exatas três horas após chegar em casa, meu pai iniciou um ataque verbal a minha mãe e a agrediu verbalmente bradando injúrias. Cansada de ouvir os absurdos eu entrei no meio para tentar parar aquilo. Ele se virou contra mim, falou coisas ainda piores do que tinha dito a minha mãe sobre mim, um discurso machista, e me agrediu fisicamente.

Minha mãe tentou impedir e foi empurrada e quase apanhou também. Eu, no alto do meu feminismo idealista, disse a ele que se me batesse eu o denunciaria por violência domestica. Ele debochando, respondeu: então chama a polícia, liga pro 190 vir me prender.

Eu, cheia dos meus direitos de mulher, fui à delegacia prestar queixa. Era sábado, por volta das 19h30 e a delegacia da mulher encontrava-se fechada. Restou-me prestar queixa numa delegacia comum. Ao chegar à delegacia o atendente me perguntou do que se tratava, resumi o caso e ele me disse pra retornar pra casa e chamar uma guarnição pelo 190 pra que fosse feito o flagrante. Respondi que não voltaria pra casa com uma pessoa transtornada que havia acabado de me agredir lá, que não havia segurança em fazer isso e poderia ser agredida novamente.

Então ele me perguntou se eu realmente queria prestar queixa, se não queria resolver isso em família, pois estava prestando queixa contra meu próprio pai. Respondi que iria sim prestar queixa, pois não era a primeira vez que esse tipo de coisa acontecia (a agressão física foi a primeira vez consumada, mas houveram outras tentativas). Ele então novamente me perguntou se eu tinha noção do que estava prestes a fazer, que imputaria ao meu agressor ao denunciá-lo “problemas legais”. Respondi que não abriria mão da denúncia pra resguardar minha segurança e para evitar que voltasse a acontecer.

Vendo que eu não desistiria, ele registrou a ocorrência como lesão corporal e apenas citou na narrativa que se tratava de violência doméstica, como forma a minimizar a tipificação criminal, pois segundo ele, a pena seria prestar uns serviços pra comunidade, limpar a delegacia uns dias. E me encaminhou ao IML para fazer o exame de corpo de delito.

Cheguei ao IML e uma senhora, de aparência humilde, com olho roxo não podia ser atendida, pois na delegacia não lhe deram a guia solicitando o corpo de delito e ela teria que retornar à delegacia onde registrou a ocorrência para pegar o tal papel. Quando ela se foi, o atendente do IML ligou furioso para a delegacia pedindo que não mandassem mais pessoas sem o tal papel pra lá – a pessoa do outro lado da linha questionou porque ele não retirava a solicitação pelo sistema para senhora poder ser atendida, foi então quando o atendente respondeu: “aqui a internet só funciona em metade do prédio e durante o expediente da manhã. O plantão não tem internet, a gente não tem acesso ao sistema aqui, só mandem ocorrência pra cá com a solicitação impressa”.

Fui chamada para o exame. O médico perguntou o que havia ocorrido e eu novamente narrei os fatos – foi quando ele me falou “por isso que dizem que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, uma forma de me dizer que eu estava errada ao impedir que minha mãe continuasse sendo injustamente agredida por um homem que deveria respeitá-la como companheira e como mulher. Após ouvir o comentário eu o fuzilei com os olhos e ele tentando se redimir completou “mas pai e mãe é mais difícil, né?”.

Ele, antes de iniciar o exame perguntou por que eu estava denunciando meu próprio pai. Respondi, com nós na garganta, de humilhação e raiva, que era para impedir que isso voltasse a acontecer. Ele apenas olhou, mediu meu machucado (que pela demora já tinha até desinchado) e não tirou nenhuma foto pra anexar ao inquérito, apenas fez anotações a mão num pedaço de papel.

Naquela noite eu não consegui comer, mal consegui dormir. Só pensava no quanto o coleguismo masculino era superior a uma lei. Eu era a filha ingrata denunciando um pai, como se a acusação lhe fosse injusta. Os anos de violência psicológica, material e corporal não eram suficientes para que eu tivesse o direito de dar um fim naquela situação. Eu deveria abaixar minha cabeça, pois eu era apenas filha.

Eu não parava de pensar naquela senhora, visivelmente humilhada, sozinha, em busca de justiça, sendo impedida de buscar seus direitos porque os homens da delegacia e naquele IML, que deveriam lhe proteger, não foram solidários com sua dor. Me perguntei por dias se aquela senhora voltaria pra casa pra ser novamente agredida e quantas mulheres desistem de procurar ajuda ao encontrar um sistema falho, pessoas com má vontade e um machismo travestido de coleguismo masculino que se sobrepõe a uma lei.

Nos dias que se seguiram, eu percebi o quanto meu feminismo era idealista, o quanto eu não tinha noção de como as coisas realmente funcionam. Uma delegacia da mulher que só funciona em horário comercial (pois somente nesse horário acontecem as agressões), policiais e médicos despreparados, totalmente desumanos com a causa. Eu me senti duplamente humilhada e agredida, eu percebi que virei apenas mais um número na estatística.

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