Entre a lâmina e a manga

Um dia desses lembrei de uma ocasião, quando eu tava no colégio. Engraçado é que eu ainda me lembro dos nomes de todos os envolvidos.

Não lembro a série que eu estava, mas me lembro que era nova. Eu tinha ido com uma camisa sem manga ao colégio. Durante a hora do recreio, um garoto chamado Ian (um dos bagunceiros e zoeiros da turma) começou a me hostilizar porque eu estava ‘com o cabelo do sovaco já começando a crescer’. Depois de rir um pouco e sacanear, ele chegou perto de mim, e falou, num tom de ‘pai opressor-amigo’:

– Os cabelos da Aline começaram a crescer também. A gente zoa ela, então ela raspou o sovaco. Você tem duas alternativas: Ou você raspa o socavo, ou vc vem com uma camisa de manga pra escola.

Dito isso, ele foi embora.

Acho que eu fiquei tão chocada com o fato que fiquei sem ação e não disse nada. No dia seguinte, eu não lembro se foi por conta do que ele disse, ou porque a roupa estava lavando, mas eu acabei indo com a camisa de manga pro colégio. E, na hora do recreio, o Ian deu uma batidinha do meu ombro e falou:

– Camisa de manga, hein? Muito bom.

 

 

O Ian tinha o socavo mais cabeludo da sala. Mas como ele mesmo disse, “homem não raspa o sovaco.”

 

Sério. O que é isso? Eu era criança. Eu tive que ouvir de outra criança o que eu tinha que fazer, como me portar e agir. Eu tive que chegar em casa e pensar em como eu deveria me vestir, pra “agradar”, não incomodar, ou atender as expectativas de outrém.

 

Eu nem falava com o Ian. Eu nunca soube nada da vida dele. E ele veio me dizer como eu tinha que ser.

Que porra de mundo é esse?

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