Entre existir e viver

Segue o relato de Amanda Nonato, aviso para descrições de uma relacionamento abusivo.


 

Poucos sabem o significado e o peso desse termo: “relacionamento abusivo”. Vou tentar exemplificar a definição com a minha experiência pouco agradável (olha o spoiler).

Adolescente, mergulhei sem ao menos saber nadar no mar profundo de amor por um alguém. E como todo início é frio na barriga, esse não foi diferente. Era tudo flor e chocolate, felicidade que não tinha fim. Adorava o ciúmes e o cuidado excessivo, achava fofo. Afinal, quem além dos meus pais se preocupava com tamanha demasia? Ninguém.

Meses se passaram e, de repente, o zelo se tornou uma caça possessiva e curiosa sobre o meu passado:

– Quem é fulano? Perguntava.

Trêmula e assustada, respondia com receio do término. “Não pode sair da minha vida, eu o amo”, pensava.

Cada vez que sabia mais sobre mim, menos confiava. Não sei o que acontecia, eu tive pessoas, tive histórias, minha vida acontecia antes de o conhecer. Por que me tratava com tanta suspeita? Pirei! “Quem muito teme, muito deve”. Foi o suficiente pra eu começar a questionar fatos já feitos por ele também e que, obviamente, não mudariam. Se sucedeu por meses e meses… Términos e reconciliações, assim, sem mais nem menos. Houve dias em que as brigas se estendiam de um “cala a boca” pra um “vai tomar no cu, sua piranha”. Eu chorava.

Mas o que eu devia fazer?

Eu o amava. E ninguém mais me aceitaria como eu sou. Ninguém seria bacana o suficiente comigo. Afinal, ele estava de compaixão ficando com alguém tão vagabunda como eu.

Momentos em que eu precisei de uma palavra de apoio ou um abraço. Sei lá, que fosse um “estamos juntos”, não tive. Só ganhei o abandono de quem prometia dividir a vida comigo. Me sentia inferior. Tudo que eu fazia não era o suficiente pra eu ser boa em algo. Parabéns? Há… O que é um parabéns? O defeito estava ali, onde ninguém podia enxergar.

“Tá tudo bem? Que nada… Toma chuva de críticas pra você se situar”. Era assim. Nenhuma realização minha merecia um chuva de palmas. Pra quê? Isso quando não acontecia o “que bom pra você, porque eu não…” e eu me sentia mal por ter ido bem em algo que ele não conseguia.

Comecei a perder a noção da vida. Desânimo. Choro. Falta de apetite.

Isso tudo porque mergulhei sem saber nadar. Enfrentei medos e desafios pra entrar naquele mar agitado.

Grandes omissões.

Até que sem saber, fui feminista. “Puta, vadia! Tá dando pra faculdade inteira que eu sei!” as lágrimas escorriam sem forçar. Acusada do que não havia feito. Sendo ofendida por quem jurei amor. Não acreditava, mas criei forças e segui firme:

– VÁ EMBORA DA MINHA VIDA!

Me amei. A partir desse dia, me amei. Cuido de mim. O feminismo me tirou desse relacionamento abusivo. O meu empoderamento teve início no dia que tirei da mão desse alguém, o controle remoto da minha vida. Aqui você não controla! Não deixo ser quem, nem o que sou por alguém, não mais. Me aceite assim. VIVA! Como alguém que vive e que sorri. Não tire meu sorriso, o monitor da minha felicidade.

Independente, empoderada e desprendida.

Hoje, não apenas existo, como também vivo.

E o coração? Tá bem, tá feliz.

Machistas aqui, não mais passarão!

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