Eu ainda ardo

Relato anônimo de uma seguidora da página. Gente, aviso gigante para descrições explícitas e muito fortes de estupro, abuso e pedofilia. Não recomendamos ler caso seja sensível a esses temas.


Minha família finge até hoje – depois de dez anos – que nada aconteceu. Levam sua vida normalmente, dizem que é “assim mesmo”, que coisas assim “acontecem”, que eu “estava pedindo, com o comportamento ruim que tinha”. As sequelas ficaram só em mim.

Eu tinha nove anos quando a agressão passou de psicológica e física a sexual. Eu quero contar os detalhes, porque ninguém nunca se importou. Ninguém nunca quis me ouvir, mas eu quero falar. Eu preciso falar. Minha mente ainda arde.

Minha mãe casou com o meu ex-padrasto no ano de dois mil e um, quando eu tinha seis anos. Àquela altura já tinhamos problemas. Ele, do alto de sua posição de macho alfa católico branco cisgênero heterossexual merecedor natural de todas as coisas, tinha raiva e ciúme de minha boa relação com minha mãe. Ela, perdidamente apaixonada, preferiu abrir mão da filha. Eu, sempre “questionadora e inteligente”, fui a vítima.

Já não sei mais quantas vezes a família perfeita saiu de casa para passear sem levar a “escória”, que era como ele me chamava; quantas vezes chorei de fome e desmaiei, porque me trancavam no quarto e não me deixavam o que comer; quantas vezes ele me bateu apenas para descontar a raiva; quantas vezes eu usei moletom mesmo no calor infernal para esconder minha pele roxa e minha vergonha de ser uma desgraça para minha mãe; quantas vezes minha família me viu ali, no chão, gritando por socorro, e virou o rosto (como ainda fazem). Meu coração ardia.

Foi no meu aniversário de nove anos, no ano de dois mil e quatro, que tudo aconteceu. Eu estava trancada no quarto, ainda machucada da surra de ramo de bambu que ele me dera (depois de chegar bêbado) no dia anterior, quando ele abriu a porta com força. Ele sempre teve problemas com bebidas, mas naquele dia estava sóbrio, como se soubesse o que faria e quisesse gravar na memória. Ele me disse que estava de ressaca, então minha mãe havia saído e levado meu irmão e a filha dele ao shopping. Não me importei, já não era a primeira vez. Fiquei lá, de cabeça baixa, brincando com os pontos de linha de costura que eu mesma suturara em meu braço direito afim de parar o sangramento, e ele me observou por longos minutos.

Nem me assustei quando ele me puxou pelo braço com força. Eu pensei que ele fosse me bater de novo, já estava acostumada, porém não soube o que fazer quando ele começou a abrir o zíper da calça. Na época eu não entendia, entretanto com meu pouco conhecimento catequético eu sabia que era errado. Ele me mandou chupar e eu não soube o que fazer. Diante da minha hesitação, ele me deu um tapa forte no rosto. Minha bochecha ardia. No meu pavor, acabei mordendo-o de leve. Consternado, ele forçou seu pênis em minha garganta.

Eu vomitei tudo o que não tinha no estômago, bem em cima de meu peito, minhas coxas e dele. Minha garganta ardia. Chorando de dor e susto, mal ouvi os xingamentos que ele proferia, tentando se limpar. Ele saiu e eu fiquei lá, sentada, inerte, com vômito em meu peito e coxas feridos. Minha pele ardia. Ele voltou, já limpo, e chutou minha barriga, fazendo com que eu desmoronasse no chão. Com violência, colocou-me de quatro e nem se deu ao trabalho de retirar minha calcinha. Meu estômago ardia. Ali mesmo ele me penetrou. Doeu. Doeu e ainda dói no meu físico, no meu psicológico, no meu sexual.

Foram minutos de investidas violentas, apertões e tapas pelo meu corpo todo. Ele me chamou de putinha, de cachorra, de escória, de vagabunda. Ele puxou meu cabelo com força, assim como fazem nos pornôs. Eu já não chorava e isso pareceu irá-lo, porque ele gritava, ordenava para que eu chorasse. Ele disse que eu ficava um tesão quando chorava toda machucada, então deveria chorar sempre. Ele disse que minha “bocetinha lisinha era apertadinha e deliciosa”. Não sei por quanto tempo aquilo durou, porque eu não lembro de muita coisa antes do escuro. Só lembro que prometi a mim mesma que ninguém era digno das minhas lágrimas. E que minha vagina ardia.

Eu sei que nem todo mundo quer me machucar, mas eu não consigo controlar. Hoje, dez anos depois que tudo aconteceu, eu ainda tenho medo. Medo de toques, medo de homens, medo de contato sexual. Medo. Hoje, dez anos depois, eu olho para as cicatrizes em meus braços, rosto e pernas e tenho pavor de que elas voltem a acontecer. Hoje, dez anos depois, eu sinto pela infância que não tive. Sinto pelas vezes que apanhei e tive de curar as feridas sozinha. Sinto pelas vezes que chorei em desespero sem ninguém pra me ajudar. Sinto por não acreditar mais em mentiras como deuses e igualdade de gêneros. Sinto por ter fortes vontades sexuais, mas rejeitá-las imediatamente por medo. Sinto pelo que perdi e pelo que ainda vou perder.

Hoje, dez anos depois, eu ainda ardo.

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