Eu, B, e o relacionamento abusivo

Segue relato anônimo de uma seguidora da página. Avisos para descrições de relacionamento abusivo.


 

Hoje eu li um depoimento sobre um relacionamento abusivo aqui na página e pela primeira vez eu pensei “caramba… então meu relacionamento era abusivo?”

E de repente uma necessidade absurda de compartilhá-lo tomou conta de mim. Porque eu demorei quase dez anos para perceber isso e eu tenho certeza de que escondi tão bem que nem as pessoas perto de mim percebiam. É um depoimento longo e detalhado do que aconteceu comigo por cinco anos. Por favor, leiam.

Quando eu tinha 17 anos eu conheci um cara, o B, e ele era um babaca – o que mais me incomoda é que eu sabia que ele era um babaca quando eu o conheci. Eu odiei ele nos primeiros meses em que nós tivemos um contato semanal e quase obrigatório por termos amigos em comum. Achava ele arrogante, metido, machista e infantil. Minhas amigas achavam ele “gatinho”, mas pra mim isso não era suficiente.

Nessa época eu saía com um cara um ano mais novo do que eu, o C, mas nós não namorávamos (ele era (não tão) secretamente apaixonado pela minha melhor amiga) e vira e mexe a gente acabava se pegando, mas nada sério apesar de eu ser apaixonada por ele. E um dia o C me chamou pra ir em um lugar que eu não queria ir (mesmo que todo mundo fosse) e por insistência dele eu acabei indo, aí o bonitinho ficou com outra menina e a tonta aqui, pra mostrar que nem ligava, ficou com o babaca do B. Pois é… fiquei com o B e acabei gostando, mesmo que ele não tivesse A pegada.

Começamos a ficar várias vezes, mas ele sempre repetia que não queria nada sério porque ele tinha acabado de terminar um namoro. Um dia o C  saiu com o nosso grupo de novo e tentou ficar comigo, mas eu já estava me apaixonando pelo B e não quis nada. Quando o B chegou ele ficou muito bravo que o C estava dando em cima de mim e começou a tentar brigar com ele (B fazia isso o tempo todo, nunca realmente brigava, mas ficava arrumando brigas para o pessoal “acalmar” ele) então eu disse “mas nós não temos nada sério! Eu posso ficar com quem eu quiser!” e ele respondeu que agora a gente era namorado. Simples assim. Sem me perguntar nada, nós estávamos namorando.

Como namorado ele começou a me pressionar para transar. Eu não era virgem porque tinha sido estuprada aos 14 anos, mas nunca tinha transado com ninguém depois disso. Eu não queria, mas também não queria que ele me largasse… ele falava que me amava, mas que não poderia ficar sem transar porque eu não queria e, mesmo depois de saber o que tinha acontecido comigo ele disse que já era hora de eu superar.

Acabei cedendo (depois de um mês conversando muito com a minha terapeuta e ela dizendo pra eu não ceder se eu não me sentisse à vontade) porque eu tinha medo mesmo de que ele terminasse – entendam que era a primeira vez que eu namorava e o status de estar namorando um cara “gatinho” parecia importante demais para simplesmente perdê-lo por não transar com o cara. Chamei ele pra ir em casa em uma final de semana que meus pais iam viajar e eu ia ficar sozinha e antes dele chegar eu bebi meia garrafa de vodka de uma vez só.

Nós transamos e a transa não durou nem 15 minutos. Ele gozou, saiu de cima de mim e disse que iria embora. Eu pedi pra ele ficar comigo, pois nunca tinha ficado sozinha em casa. Sempre que meus pais iam viajar eu chamava uma amiga, mas dessa vez eu não chamei porque ele ia lá. Ele respondeu que não gostava de dormir na casa dos outros e foi embora. Eu passei a noite acordada na sala, com todas as luzes acesas, com a TV ligada e com o telefone na mão achando que alguma coisa ia acontecer a qualquer momento.

Depois que transamos a primeira vez a coisa toda piorou. Porque aí eu não tinha mais desculpa para não transar, segundo ele. Já tinha feito uma vez, agora não podia mais ficar “de charme”. E ele queria transar o tempo todo, em qualquer lugar. Como ambos eramos menor de idade no começo, não tinha como ir pra motel e eu ainda não tinha contado nada pros meus pais. Então ele me levava para construções, casas abandonadas, mato, praças mais escuras, banheiro de posto. Qualquer lugar que ele pudesse transar, independente do meu conforto. Ele não ligava realmente para como eu me sentia em relação àquilo. Era sempre o prazer dele, a hora dele, o que ele queria.

Minhas amigas sabiam que a gente estava transando e sempre me perguntavam como que era. Estávamos naquela época em que todas nós começamos nossa vida sexual e queríamos conversar sobre isso. Elas falavam sobre o quanto elas adoravam sexo e o que elas faziam e eu falava também. Falava que era maravilhoso e que eu gozava muito e que ele era super foda. Falava por vergonha de admitir a droga que era e por medo de elas contarem pra ele e ele terminar comigo. Hoje eu penso se elas não mentiam também e se não estávamos todas incentivando uma vida sexual doentia uma na outra.

Depois de alguns meses namorando ele me traiu porque um dia eu não pude sair de casa e ele justificou dizendo que estava apaixonado pela ex-namorada ainda e que iria tentar dar certo com ela, mas se não desse ele iria voltar pra ficar comigo. Fiquei com muita raiva, é lógico. Saí da casa dele e fui ao cinema (era meu Happy Place), lá encontrei um cara na fila e começamos a conversar, ele estava com os amigos e me convidou pra sentar com eles, mas eu não quis.

Durante o filme ele veio se sentar ao meu lado e nós ficamos. Quando ele pediu meu telefone eu disse que não era da cidade e que não não ia adiantar ele me ligar. Como eu estava de férias da escola eu saía toda noite e naquela noite o B tentou ficar comigo, já que a ex-namorada dele não tinha saído. Eu disse que não, que eu tinha ficado com um cara à tarde e que eu já tinha superado ele. O B ficou com raiva e me deu um tapa na cara. Não foi forte, eu sei que ele estava testando um limite. Eu dei um tapa na cara dele de volta e saí de perto, mas ele me seguiu e disse que queria se desculpar e conversar comigo sobre aquilo.

Fomos para uma construção e lá ele ficou tentando transar. Depois de muita insistência eu cedi. E aí ele criou um hábito de transar comigo em “segredo”. Nunca realmente ficava comigo, não me beijava na frente dos outros e ficava com outras garotas na minha frente (já que não deu certo com a ex dele, mesmo), mas depois ele me puxava pra um canto e transava comigo e eu sempre acabava cedendo.

Todo mundo sabia o que acontecia e por conta disso nenhum dos meninos ficavam comigo, eu só ficava com desconhecidos em festas, mas ele dava em cima de todas as meninas do grupo. Algumas ficavam com ele, mesmo sabendo que no final da noite ele ia estar transando comigo. Ele era gatinho e isso era tudo o que importava pra elas, além de toda a propaganda que eu já tinha feito antes, né?

É lógico que isso começou a cansar, mas eu não fazia nada e continuou por anos, apenas piorando. Quando nós fizemos 18 anos tiramos carta e eu tinha um carro, mas ele não. Meus pais sempre foram um pouco mais ricos enquanto ele era realmente pobre. Quando nós saíamos ele sempre queria ir dirigindo e eu deixava, mesmo que ele bebesse e quisesse ficar tirando racha com o meu carro. Ele chegou a bater o carro duas vezes e eu disse para meus pais que tinha sido eu, eles sempre diziam “graças à Deus você está bem” e eu implorava pra que eles me perdoassem enquanto eles ficavam me consolando falando que era só bem material e que a minha vida era mais importante, mas eu estava pedindo desculpas por ter deixado ele dirigir, eu só não sabia que era daí que vinha a culpa. Ele pegava o meu carro e saía dando voltas pela cidade mexendo com outras garotas enquanto eu estava sentada no banco do passageiro. E depois ele estacionava o carro em algum lugar ermo e a gente transava.

Uma hora as pessoas começaram a perceber o quanto isso estava errado. Principalmente as pessoas que não estavam acompanhando tudo desde o começo e começaram a falar comigo sobre isso. A maior parte das minhas conversas com meus amigos era me defendendo e dizendo que eu faria o que eu quisesse com o meu corpo e que eu fazia porque eu queria e não por causa dele. Soltava um discurso feminista que eu tinha ouvido a vida toda dos meus pais e fazia com que todo mundo acreditasse nele, até eu.

Mas minha psicóloga não acreditava e insistia que eu tinha que dar um ultimato nele. Um dia, depois de 3 anos, eu finalmente dei um ultimato e ele disse que não ia namorar comigo.

Naquela noite eu fiquei com um amigo dele que era apaixonado por mim há anos e ele ficou louco da vida, mas eu disse que não lhe dava mais esse direito.

No dia seguinte ele me pediu em namoro e nós começamos a namorar. No começo foi ótimo! Meu pai arrumou um emprego decente para ele, colocaram o nome dele no seguro do carro, ele frequentava minha casa e todo mundo adorava ele. Comecei a frequentar a casa dele e todo mundo também me adorava. Parecia que eu estava no paraíso. Eu até comecei a transar porque EU queria.

Até o dia em que eu disse que ele fazia uma coisa durante o sexo que eu não gostava. Ele ficou irritado e voltou a ser o que ele era antes. Me tratava bem na frente da minha família (porque não era nem louco!), mas quando ninguém estava olhando ele reclamava que eu estava engordando (eu usava 38!) e era uma nojenta. Só dormia na minha casa se eu fosse transar com ele e inúmeras vezes ele me fez transar com ele mesmo que eu estivesse em crise de enxaqueca. Quando eu estava menstruada ele tinha nojo então fazia só sexo anal. Na verdade eu nunca quis fazer sexo anal, mas ele sempre começava com sexo de ladinho e depois pressionava o pênis dele contra o mês ânus. Assim, à seco. Doía a vida, mas ele dizia que era como ele gostava. Que eu já estava muito larga e que ele não tinha obrigação de ficar fazendo sexo com uma garota que cabia um tronco de árvore no meio das pernas.

Sexo na verdade era aquilo que ele não poderia ficar sem sob hipótese alguma. Quando íamos pra casa da minha avó ele queria fazer sexo, mesmo que meus país estivessem dormindo no quarto ao lado com a porta aberta. Às vezes ele estava cansado demais para fazer sexo e me obrigava a lamber os testículos dele enquanto ele se masturbava e gozava  na minha cara. Depois ele me mandava tomar banho e escovar os dentes porque ele não ia me beijar depois de ter colocado a boca no saco dele.

Namoramos dessa forma durante um ano e então eu descobri que ele estava passando a perna no meu pai. E, mesmo com tudo o que ele tinha feito comigo, foi isso que fez com que eu não suportasse mais ele. Ameacei contar pro meu pai e fiz ele pedir demissão. Comecei a me distanciar dele. Não chamava mais ele pra ir em casa e não ia mais na casa dele. Quando meus pais o convidavam eu ficava o tempo todo com a minha mãe pra que ele não pudesse me obrigar a fazer sexo.

Um dia cansei e fui à casa dele para terminar. Ele estava sozinho e eu disse que não queria mais, que eu achava que não gostava mais dele. Ele chorou e implorou pra que eu não fizesse isso, implorou pra gente fazer sexo e eu cedi por dó. Saí de lá me sentindo a pessoa mais suja do mundo, mas pelo menos tinha terminado. Até ele começar a me ligar e dizer que ele ia se matar. Que eu ia ser responsável pela morte dele e que todo mundo sabia. Voltamos, mas eu tinha nojo dele. Não conseguia beijá-lo e muito menos transar com ele.

Depois de seis meses nós terminamos novamente, mas dessa vez eu fiz isso em público para que ele não pudesse me convencer a transar com ele de novo. Me separei das maioria dos nossos amigos em comum e nunca mais o vi. Às vezes o encontrava no mercado ou alguma coisa assim e fingia que não tinha visto. Seis meses depois comecei a namorar o meu atual marido e descobri prazer no sexo. Descobri companheirismo. Descobri liberdade sexual verdadeira. Descobri amor.

Hoje eu escrevi isso sentindo raiva de mim por cada coisa que eu fui capaz de me deixar fazer. Vai demorar muito pra eu sequer assumir isso em voz alta. Não sei se tenho coragem de olhas nos olhos de alguém e contar o que aconteceu e a única razão de estar mandando isso é por estar escondida pelo anonimato.

Tenho vergonha de ter me submetido à tudo isso.

Logo eu que fui criada em uma família feminista, logo eu que fui criada para ser uma mulher independente, logo eu que sou inteligente e esforçada, logo eu que sempre tive oportunidades e estudo, logo eu que sempre tive apoio incondicional dos pais. Logo eu.

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