Eu era dele

Apesar de não entender bem as nomenclaturas penso que vivi um relacionamento abusivo.

Conheci meu ex namorado quando tinha 14 anos e passei com ele 6 anos e meio. Ele sempre foi uma pessoa maravilhosa e admirável exceto num ponto: ele tinha ciúmes absurdos e, por conta disso, acabava por me limitar em qualquer coisa que fizesse. Namoramos à distância os últimos 6 anos e essa era a desculpa para os ciúmes excessivos.

Ele me dizia que tinha algo que a gente chamava de “noia”, que eram pensamentos invasivos e incontroláveis, que sempre depreciavam a minha pessoa, fazendo-o criar a fantasia de que eu estaria traindo-o ou planejando fazer isso. No início pensei que fosse a distância, achei que fosse culpa minha e que eu podia acabar com esse medo dele. Não podia. Aos poucos fui parando de sair com amigxs, parando de fazer viagens da faculdade, parando de ir a festas… Depois me via obrigada a omitir a presença de homens héteros no círculo de amizades, porque, claro, TODOS estariam dando em cima de mim e eu, uma pessoa sem vontades, seria facilmente “seduzida” por algum deles e atacada por todos. Mesmo quando estávamos perto, ele tinha “noias” sobre eu estar planejando traí-lo com algum amigo dele que estivesse presente. Sabe o que é ver a pessoa que você mais ama te acusando o tempo inteiro de algo que você sequer pensou em fazer? Desconfiando o tempo inteiro? Isso dói.

Não importava o que eu fizesse ele SEMPRE tinha ciúmes e desconfiança. Até quando eu ia no mercado ele perguntava se estava indo no mercado mesmo ou estava enrolando ele. Comecei a me sentir cada vez mais presa. Terminamos algumas vezes, TODAS de iniciativa dele, e ele ficou com outras algumas vezes, viajou para onde quis, sempre foi às festas que quis e eu nunca liguei tanto para isso, pois o via como uma pessoa independente de mim que tem o direito de fazer coisas sem mim. Entretanto a recíproca nunca foi verdadeira.

Ele não aceita que eu faça coisas que ele fez/faz, dizia que eu era dele e NUNCA aceitaria me “dividir” com outra pessoa (mas quando ele quis ficar com outras era ok…).

Esse medo extremo que ele tinha na verdade era medo que eu fizesse com ele aquilo que ele fez comigo várias vezes. E por isso me controlava, selecionava minhas roupas, vigiava meu facebook, me ligava para se certificar do que eu estava fazendo e, mesmo quando eu falava que essa desconfiança me machucava, não ligava e dizia que era algo “normal. outros casais passam por coisas piores”. Eu não fiz qualquer coisa que ele tanto desconfiava, mas eu nunca podia provar o suficiente para ele acreditar.

Eu o amo, ele promete que vai mudar, promete que se eu estiver junto ele vai mudar, mas penso que ele já teve muito tempo para fazer isso e só quando me viu chorando de dor implorando para acabar com as desconfianças e acusações que ele teve a brilhante ideia de mudar. E isso porque eu terminei com ele e ele se viu perdendo o controle. Eu acredito que ele possa mudar, mas eu não tenho mais forças para estar junto e sei que eu não tenho o poder de acabar com o medo dos outros, principalmente os injustificados, e ainda continuar oprimida não importando o que faça.

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