Força pra nós

Segue o relato anônimo de uma seguidora da página. Aviso para menções de abuso sexual.


Eu tinha 11 anos e meu primo 15, fomos criados muito próximos, sempre brincando entre irmãos e outros primos e naquele dia, ele iria dormir em casa.

Meu quarto tinha duas camas, afinal, sempre tinha primo ou prima dormindo lá. Era tão legal. Até aquele dia.

Acordei com ele tentando cuidadosamente abaixar a calça do meu pijama sem que eu acordasse, demorou pra eu entender o que estava acontecendo, ouvi o barulho dele se masturbando, mas com 11 anos eu não sabia que barulho era aquele. Chorei. Não sei se passaram 10 minutos ou 10 segundos, só sei que demorei pra decidir o que fazer, foi quando que por instinto, na hora em que ele tentou colocar os dedos na minha vagina, doeu e eu levantei e corri pro quarto dos meus pais, pedi pra dormir lá porque meu primo não me deixava dormir.

Demorei muito pra pegar no sono, esse dia foi o primeiro de muitos dias de insônia que viriam. Me lembro de ter acordado tarde e ele não estava mais lá, disse aos meus pais que estava passando mal e se mandou.

Minha mãe quando ficou a sós comigo me perguntou o que aconteceu eu disse, e fui questionada se nós não estávamos brincando JUNTOS. Só hoje com 22 anos me dou conta de que no fundo ela queria saber se eu era conivente ou se não estava “provocando” ele.

Enfim, meus pais conversaram com ele e os pais dele, sei que foi o maior chororô , ele disse estar arrependido, me mandaram perdoá-lo e voltar a brincar. Mas tudo ficou estranho demais desde aquele dia. Eu que sempre fui ensinada a não mexer nas coisas dos outros, nem nos brinquedos, porque isso era feio, por que caralhos ele podia mexer no meu corpo enquanto eu dormia pra sabe lá ?!

Eu fui crescendo com uma sensação de inadequação quase que crônica, e junto com essa sensação, continuei crescendo convivendo com aquilo em todo natal, ano novo, aniversário… Pra piorar, o responsável pelo abuso procurava, em cada passo que eu dava, um erro pra apontar e falar ELA NÃO É TÃO SANTA QUANTO PARECE, ELA SÓ ANDA COM MENINOS. Eu tinha 11 anos quando ele me violou, e por ser hiperativa me adaptava melhor a brincadeiras de meninos, logo, andava com mais meninos.

Quando estava maiorzinha e passei a ficar com alguns garotos, lá estava o abusador-acusador apontando e mostrando à nossa família o quão santa eu não era.

Cresci nesse inferno. Sendo obrigada a vigiar cada passo que eu dava, cada roupa que eu vestia, cada gesto que eu fazia, senão tudo era motivo ou justificativa para justificar a maior das injustiças que já sofri.

Outra consequência disso tudo: 5 anos de terapia, nenhum relacionamento saudável, enquanto ele, homem, anda por ai sem medo, bebe pra comemorar a vida, faz uma excelente faculdade, e leva a vida numa boa.

Enquanto eu, não consigo fazer nada numa boa nesse mundo machista porque aos 11 anos fui ensinada a não confiar em homens, e que apesar de tudo, não confiáveis somos nós mulheres que despertamos o instinto deles, coitados. Apesar de meu pai e meus irmãos serem homens incríveis, nada me tira a certeza de que eles são minoria.

Posso estar sendo injusta, mas pra mim, nenhum macho presta até que me prove o contrário.

Misândrica? Como quiser.

Não estou me fazendo de vítima (como a maioria da minha família acha), eu FUI vítima, eu SOU vítima de uma sociedade que diz VOCÊ NEM FOI ESTUPRADA DE VERDADE…CONHEÇO MULHERES QUE SOFRERAM ABUSO PIOR E LEVAM A VIDA NUMA BOA… ESSE DRAMA TODO POR CAUSA DE UM PRIMO TARADINHO… TÁ NA HORA DE VOCÊ SUPERAR ISSO.

Se eu fosse obrigada a superar só isso estava bom, mas sou obrigada a superar isso e todo um contexto o qual estamos inseridas.

Hoje estou com 22 anos, continuo me tratando com psiquiatra e psicólogo, e sinceramente, acho que isso não adianta. A minha fuga está sendo canalizar todo o meu ódio e transformá-lo em combustível pra ir mais longe na minha profissão, e fazer justiça pelas minhas irmãs mulheres que passam por isso todos os dias.

Força pra nós.

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