Infâncias perdidas

Segue o relato anônimo de uma seguidora da página. Aviso para menções a pedofilia, abuso sexual, e pensamentos suicidas.


 

Esta é a história de duas meninas que descobriram da pior maneira que Papai Noel não existe. E nem coelhinho da Páscoa. Muito menos que todas as brincadeiras podem ser inocentes.

Por ser meio peculiar para a maioria e, por ser culpabilizada (como a maioria de nós), relutei muito a escrever sobre o que aconteceu quando eu era criança.

Devo confessar que não me lembro de tudo. As imagens que restaram são fortes demais para mim e minha irmã. Acho que apaguei uma parte quando tive plena noção do que eram. Eu tenho vontade de vomitar, chorar, me esconder quando me lembro. Eu e minha irmã não lembramos claramente de nossa infância. As coisas só se tornam nítidas depois do dia da morte dele e, mesmo assim, não desejamos recordar de tudo – pois temos medo.

Ele morreu quando eu tinha sete anos. Sou um ano mais velha que minha irmã. Meus pais nunca tiveram muito dinheiro, e decidiram morar na casa da minha mãe mesmo, em que seu pai ainda era vivo. Disseram-nos que estavam esperando ele morrer, mesmo sabendo que ele foi um péssimo pai para minha mãe. Disseram-nos que nascemos “cedo de mais”, e que por isso ficaram nessa casa, ao qual moramos até hoje e infelizmente durmo com minha irmã no mesmo quarto em que fomos abusadas…

Cresci sem saber de nada, mas diziam que sempre fui uma menina isolada. Eu não gostava de tocar em pessoas. Eu não sabia por que preferia ler e desenhar a estar com pessoas, principalmente homens. Descobri sozinha o que realmente eram aquelas “brincadeiras” quando comecei (assim que me foi permitido por minha mãe) assistir TV.

Comecei a assimilar. Comecei a recordar. Entrei em pânico. Sempre me senti estranha e sentia que algo estava errado, porém eu não sabia ao certo.  Eu tinha 11 anos quando eu descobri as verdadeiras intenções: ele me fazia masturba-lo, ele mandava que eu ficasse de pernas abertas para ele no banheiro ou banho, ele me colocava por cima dele nu, ele me dava cerveja escondido, ele tentou me fazer fumar.

Não deveria contar a minha mãe, eram “apenas brincadeiras”. Essas são algumas das imagens que ainda tenho. E eu descobri recentemente mais: que ele fez o mesmo com minha irmãzinha. As mesmas coisas, talvez até mais. Isso, entre talvez 5 a 7 dos nossos anos. Talvez até antes. E com minha irmã fez ainda pior: ele a estuprou. Talvez tenha até feito o mesmo comigo, mas eu não me lembro… O choque nela foi tão forte que ela só se lembra da dor e de lapsos. Mas nós não queremos nos lembrar de mais… Há em todos nesses lapsos o mesmo cheiro de cigarro e de cerveja que até hoje nos dá pânico.

Eu não reagi como a maioria das vítimas reagem, e isso me fez me sentir ainda mais imunda e destruída: comecei a me masturbar muito cedo, me machuquei várias vezes, comecei a ansiar cedo por mulheres, a me perder em fantasias… Mas não viver. Sempre sozinha, com medo do mundo. Parada, estática, longe do corpo que eu tinha medo e nojo e com a mente onde eu achava estar segura… embora até em pesadelos eu não esteja em paz. Nem em minha mente estava em paz daquele maldito.

Quando assimilei as coisas, tornei-me uma criança ainda mais antissocial. Escondia-me debaixo de panos e riam de mim. Um pediatra disse que eu devia possuir alguma espécie de autismo. Eu passava horas imaginando mundos em que eu fosse uma guerreira forte e nada disso tivesse me acontecido. Não conseguia me olhar nua. Menstruei aos onze anos e aos doze já tinha cistos nos ovários. Aos treze doenças, infeções. Tentei me matar. Odiava a mim mesma. Queria qualquer mundo que não fosse esse. Desejei ser menino porque tive nojo de ser menina.

Eu não tive infância. Aos doze anos já conspirava minha própria morte à noite. Desisti da ideia do suicídio só recentemente. Tinha e tenho medo do escuro, medo de entrar em qualquer banheiro sozinha. Tinha e tenho medo e nojo de qualquer idoso que se aproxime de mim.

Tornei-me insegura, incapaz de sair sem medo, de curtir amigos. Não consegui abraçar nenhum rapaz, fosse meu melhor amigo, até meus dezesseis anos. Pra falar a verdade, ainda reluto muito. Meu primeiro namorado foi aos 16, e pra nos tocarmos foi difícil. Ele foi muito paciente, mas, até hoje, do nada algo que ele faz remete ao meu avô. Eu entro em pânico. Não consigo dormir direito. Cerveja me dá medo e por isso é muito difícil beber socialmente com meus amigos de faculdade.

Estou somente agora, aos vinte anos, conseguindo viver, me aceitar como mulher, a conhecer a mim mesma e a minha sexualidade. Mas antes, riam de mim por ser medrosa e antissocial. Minha mãe gritava comigo, que havia algo errado comigo, que eu era o erro, que eu e minha irmã fomos seu erro. Meu pai insistia pra eu abraçá-lo, mas eu odiava e temia qualquer toque dele.

Eu contei a minha mãe tudo e ela respondeu que a culpa era minha por nunca ter falado nada. Um dia, gritou que eu era louca, no meio da rua, que eu era doente, que rasgaria todos os meus desenhos e me internaria num hospício! Ela gritava que eu não fazia “mais nada em casa”, só desenhava e escrevia. Ontem, ela me disse que não acreditava na minha irmã porque ela não “demonstrou nada”; que por causa do que eu disse a ela (eu contei-lhe aos 13 anos, minha irmã somente ano passado) ganhou problemas de coração. Ouvi da boca de minha mãe que teria sido melhor ele ter nos matado, porque vivas ela carregará a culpa…

Nossos pais nunca buscaram formas de nos ajudar a superar isso – e creio que nem tentarão.

Pois muito bem, por causa do pai dela eu não tive infância. Minha irmã não consegue viver sua sexualidade em paz, ela pensa em suicídio! Por causa do pai dela eu não vivi este mundo, porque eu o temia e o ainda o temo, afinal, este mundo diz que a culpa era minha; que talvez eu gostasse; que eu gosto de meninos e meninas porque não “superei” o que houve; que eu vou para o inferno por tentar descobrir o que deveria ser realmente sexo com amor; que eu e minha irmã “estamos enganadas” ou “estamos exagerando”; que NÓS ESTAMOS ERRADAS POR NÃO SUPERAR!

Mas minha irmã precisa de mim. Ela não busca fuga em mundos fantásticos, ela está em cacos, e eu não sei como protegê-la e fazê-la superar porque nem eu mesma sei se superei. Eu quero tanto cuidar dela, e no final nem isso eu pude, porque meu avô nos fez pensar que era tudo uma brincadeira e eu, me fechando, fui incapaz de perceber que havia algo errado com ela também… Nós fomos enganadas, nossas infâncias foram para sempre destruídas e nós sempre seremos culpadas…

Neste mundo, nós, as vítimas, sempre seremos culpadas. Mas eu não quero aceitar isso. Acho que por isso estou escrevendo. Acho que é assim que tento superar, por mais difícil que seja. E rezo pra conseguir reerguer minha irmã, a mim mesma e todas as outras meninas. Quero que um dia, meus desenhos e minhas histórias possam abrir os olhos do mundo, para que nenhuma outra menina se sinta sozinha como nós nos sentimos!

Tags:, , ,

Comentários