Me olhavam sem parar, mas ninguém fez nada

TW: Estupro

No sábado de carnaval do ano passado, saí de casa para encontrar meu namorado no shopping. Não era muito tarde, não devia passar das 20h. Chegando ao ponto de ônibus, que estava lotado, tinha cinco garotos, que deviam ter de 15 a 20 anos, sentados na calçada. Quando passei por eles, o mais velho levantou e me agarrou. Ele me forçava contra ele e me beijava à força. Logo que aconteceu, pensei que os amigos dele iriam segura-lo e brigar com ele, perguntar se ele estava maluco ou algo assim. Os amigos levantaram também e todos começaram a passar a mão em mim, aproveitando que o amigo estava me imobilizando levantaram minha saia e enfiaram a mão na minha calcinha. Quando eles começaram a me alisar, lembrei que logo antes de sair de casa minha mãe disse que minha saia estava muito curta. Me senti culpada, não deveria ter ido com aquela saia. Enquanto tudo isso acontecia, tentava me soltar, gritar, mas não conseguia. Não podia olhar pros lados, mas lembrava que o ponto de ônibus estava muito cheio e fiquei me perguntando por que ninguém fez nada. Depois que eles cansaram de mim, o mais velho deles me soltou. Fui andando aos prantos pro meu ônibus que estava parado. O motorista me olhava, os passageiros me olhavam. Havia uma fila pra entrar no ônibus e eles me olhavam sem parar, mas ninguém fez nada. Um menino atrás de mim na fila falou que eu deveria ter gritado, só assim ele poderia ter feito algo. Quando subi, o motorista estava rindo bastante do que aconteceu e de mim. Alguém gritou pros meninos que me agarraram e ainda estavam lá tranquilamente: “Vocês fizeram a menina chorar”. O primeiro garoto que me agarrou gritou de volta “Ela tá chorando de alegria”. A única pessoa que me ajudou foi um senhor que se prontificou a ir à delegacia comigo.

 

Eles acharam que não fizeram nada demais, afinal, não é isso que acontece no carnaval? Quando conto isso para as pessoas como caso de violência e estupro, normalmente escuto “Carnaval é assim mesmo” ou então “Ah, você levou a sério demais, nem teve penetração”. Não basta ser violentada uma vez, o machismo te obriga a ser violentada todo dia até pelas pessoas que te amam. Ouvi coisas muito ruins depois disso. Não faltaram acusações contra mim, mas felizmente conheço muitas pessoas que pensam como eu e me ajudaram muito. Não tive nenhum trauma e consegui lidar bem com a situação depois de um tempo, mas quantas meninas nem se dão conta de que estão sofrendo uma violência? É isso que me preocupa.

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