Meu pai vota Aécio

Segue relato anônimo de uma das seguidoras da página. Aviso para violência doméstica.


Meu pai vota Aécio.

Eu tenho dezesseis anos, moro com meus pais. Estudo em escola pública com ensino precário. Moramos em uma casa precária também. Fui vítima de um relacionamento abusivo durante um ano. Agressões, coação, manipulação óbvia, humilhação, ameaças. Medo. Forçada a fazer sexo quando não tinha vontade. Forçada a dizer sim. Forçada a admitir que era consensual. Forçada a ficar ao lado de meu agressor durante 12 meses. Forçada também a olhar diariamente para meu agressor primário: meu pai. O homem que violou meus direitos enquanto criança e, que quando estava afim, me batia. Me batia muito. O homem que só parou de invadir meus pesadelos quando minha mãe pediu divórcio. O homem que possibilitou minha autopiedade quando apanhava na escola, diariamente, dos 8 aos 10 anos. Que abriu portas ao meu silêncio, a minha culpa infundada. Por ser gorda. Por ser mulher.

A vida da minha mãe também não foi fácil. Não a culpo de nada, nunca. Não tenho esse direito. Respeito sua vivência e a escolha de não me ouvir. Respeito sua opinião mesmo que ela seja uma reprodução machista, mesmo que ela me invada e me agrida enquanto mulher também. Sei que isso, em seu íntimo, a agride também. A agressão do presidenciável não atingiu somente sua ex namorada, atingiu todas as mulheres do Brasil. O silenciamento também. O apagamento. O modo como tudo foi esquecido tão rápido. Como foi escondido. Como foi dito como mentira. Como foi alvo de brincadeiras – afinal, ela mereceu. Ninguém sabe do que se tratava a discussão, ninguém sabe o que se passava naquele momento em que uma mulher foi violada e inferiorizada. Mas se ela apanhou, foi porque pediu. Porque mereceu. Porque queria aquilo.

Durante um ano de relacionamento instável, eu ouvi isso. Sofri muito com opiniões alheias, com a culpabilização, com meus pais me dizendo para ficar com meu agressor de qualquer maneira. Sofri muito e pensei em suicídio dia após dia, até o término definitivo. Até eu me recuperar – não totalmente – de várias coisas e cortar meus laços com ele. Até eu dar um basta.

Com seis meses de relacionamento, eu conheci o feminismo. E sempre pesquisei mais. Sempre li mais, sempre ouvi mais as mulheres. Aprendi muito. Mas não foi o suficiente. Parte porque eu estava totalmente envolvida em correntes psicológicas que me torturavam todos os dias. Parte porque eu não queria deixar aquele monstro a solta e permitir que ele fizesse mal a outras mulheres. Eu não suportaria.

Mas eu me livrei. Saí quase ilesa. E penso constantemente tamanha a sorte que tive. Sou uma sobrevivente. Milhares de mulheres não tem essa sorte. Milhares de mulheres morrem todos os dias por causa do machismo velado, dessa adoração ao sexo masculino. Desse nojo que o patriarcado faz com que criemos pelos nossos corpos, pelos corpos das outras. Que faz com que nos apaguemos enquanto pessoa.

Eu protesto. Não me calo diante de violência psicológica, física, doméstica, verbal. Não me calo diante de homens que diminuem minhas irmãs. Não me calo porque já fui silenciada demais, já fui calada demais.

Mas o meu maior medo tenho em casa. É ouvir, todos os dias, meus pais homofóbicos humilhando e inferiorizando pessoas por sua orientação, por amarem outras do mesmo sexo. É ouvir, todos os dias, meus pais reprodutores de machismo culpabilizando vítimas. É ouvir, todos os dias, o quanto tenho caráter duvidoso por não me negligenciar como feminista. É ouvir, todos os dias, o quanto eu deveria ter continuado com meu ex. É ouvir, todos os dias, que eu preciso cuidar do meu corpo porque homem nenhum quer mulher gorda. É ouvir, todos os dias, o quanto sou um erro.

E falam sem se darem conta de que não sou hétero. Sem se darem conta de que sou mulher também e fui vítima não só por um agressor, por vários – além dos assédios diários. Sem se darem conta que o feminismo me salvou – sou uma sobrevivente. Sem se darem conta das minhas feridas, internas e externas, que o meu último relacionamento causou. Sem se darem conta que amo meu corpo, amo minhas dobras, meu rosto redondo. Mas que essas coisas, acima de tudo, me machucam, me agridem, me violam, me silenciam, me culpabilizam, me invadem, me matam.

Mas minha mãe também é uma sobrevivente. Todas somos.

Meu pai vota Aécio.

Tags:,

Comentários