24/02/2014 - Por O que você tem para falar?

Meu Super Herói

01_falar_01

Poema enviado por uma das seguidoras da página. Aviso para menções de estupro e pedofilia.

Os dois primeiros versos do refrão são parafraseados da música Meu Super Herói do grupo Inquérito.

_

Quando eu me lembro ainda dói
Parece que eu escuto sua voz
Que tipo de pai não é da filha o herói?
A minha nascente se converteu em foz

Me lembro bem de como tudo começou
Você via na tevê um filme pornô
Mamãe estava trabalhando, estávamos a sós
Você deitado no sofá, ainda escuto sua voz…
Me chamava carinhosamente para deitar com você
E aquelas coisas que eu não entendia, na tevê
Em ti eu confiava, e você reclamava do calor
Tirou as roupas, e quando no tal filme pornô
Uma das atrizes começou a chupar outro ator
Me convidou a fazer o mesmo, me encheu de temor
Cinco anos de idade, começo do ano de 2002
Você se impacientava, eu tinha medo e o que veio depois
Perdeu a paciência, me agarrou, me violou
Me forçou a te chupar, minha roupa tirou
Lembro de ter chorado e de você ter acariciado minha vagina
Covarde psicopata, o que fez comigo menina
Indescritível, imperdoável, quando me colocou de quatro
Me estuprou até se saciar, virou rotina
Eu chorava de dor, não entendia o por quê daquilo
Sequer sabia o que era, aquele seu ato demoníaco
Tentava lembrar se tinha feito algo de errado
Para merecer aquilo como castigo
E depois de cada sessão, você me falava no ouvido
Que se eu dissesse para alguém, não importa quem for
Eu aprenderia o verdadeiro significado da palavra dor
E você passava os dias e noites, bebendo, vendo televisão
Enquanto minha mãe, 16 horas ao dia servindo o patrão
Mal me via, e eu tinha medo, tenho até hoje
Eu confesso, a memória é vívida como se fosse ontem!

Quando eu me lembro ainda dói
Parece que eu escuto sua voz
Que tipo de pai não é da filha o herói?
A minha nascente se converteu em foz

No meu aniversário de seis anos, também me lembro
17 de outubro já virando pra novembro
Uns seis ou sete meses que a rotina se repetia
Passara de três por semana a várias por dia
Quantas vezes eu não estava no campinho
Brincando, jogando entre as meninas e meninos
E você me arrastava para casa para me violar
E as crianças do bairro começaram então a falar
Que eu fazia tudo errado, desobedecia e por isso
Era sempre tão severamente castigada, o que não sabiam
Era que os meus olhos vermelhos de tanto chorar
Meus braços cheios de feridas, cicatrizes a sangrar
Eram a parte leve da punição pelos erros que não cometi
E que quando de casa eu não mais saí
Não foi um castigo, uma proibição sua, mas minha vergonha
De ir ao mundo, a pretinha desobediente e chorona
Péssima filha, péssimo exemplo, péssima menina
E o ano passava, e no natal você me deu
Uma boneca, com um cartão que falava de Deus
Verdadeiro significado, perdoar, puro blá blá blá
E sozinha no meu quarto, em outra noite a chorar
Amaldiçoei Deus, Papai Noel e todas as outras mentiras
Mesmo que eu não conhecesse a palavra, foi quando me tornei ateísta
Pela primeira vez.

Quando eu me lembro ainda dói
Parece que eu escuto sua voz
Que tipo de pai não é da filha o herói?
A minha nascente se converteu em foz

O tempo foi passando, e eu cada vez mais infeliz
Era 2003, julho ou agosto e eu tava na casa da Cris
Minha única, última amiga, e ela não sabia o que acontecia
Na verdade nem eu sabia, não conhecia a palavra “pedofilia”
Combináramos de eu passar a noite na casa dela
Estava aliviada, longe de você, vendo desenho e pintando aquarela
Comendo sopa de carne, usava um pijama rosa
Um sorriso por, que seja, algumas horas
A chuva caía pesada lá do lado de fora
Quando onze e meia da noite o telefone toca
E você exige que eu volte pra casa imediatamente
A mãe da Cris tentou mudar a ideia do que mente
Você dizia que eu tinha feito algo muito errado
Que seria castigada, mentiroso do caralho
Eu sabia o que aquilo queria dizer
Tentei contar a ela o que fazia você
Queria fugir, desesperada e sem palavras
“Estupro”, “pedofilia”, “abuso”, nada disso me expressava
Não as conhecia, e nervosa como eu me sentia
Não conseguia descrever o seu ato de covardia
A Cris, inocente como deveria ser
Me abraçou e disse pra eu não me preocupar, nada ruim iria acontecer
Mas ia, eu sabia, só não entendia
Ah, se eu conhecesse a palavra “pedofilia”

Quando eu me lembro ainda dói
Parece que eu escuto sua voz
Que tipo de pai não é da filha o herói?
A minha nascente se converteu em foz

Janeiro de 2004, seria meu primeiro ano no colégio
Uniforme, estojo, lancheira, no comércio
Compráramos tudo, mas eu não queria ir
Fevereiro começaria, eu queria fugir
Tinha medo, e foi quando na TV eu vi
Pela primeira vez na pele de outro o que eu sofri
Você estava dormindo na poltrona, e eu escutava
Atentamente a notícia de um pedófilo preso no flagra
Foi quando comecei a entender pelo o que eu passava
Tinha que pedir ajuda a quem mais me amava
Mesmo com nojo de você, fingi medo da chuva ruidosa
E dormi com você e minha mãe numa noite tempestuosa
Atenta, acordei junto com ela no dia seguinte
Você ainda dormia, era por volta de 6 e 20
Não dei introdução, fui direto ao meu objetivo
Não sabia como falar, e soltei “papai faz pedofilia comigo”
Era minha última esperança, totalmente estilhaçada
Quando me encarou como mentirosa, escapou-me uma lágrima
E cada uma que rolava, no meu rosto se somava
Aos soluços da criança perdida em meio à mágoa
Vivia um pesadelo, e ela dizia que por isso a tevê
Não era boa para crianças, pois nos fazia mentiras dizer
Quando contei onde aprendera o seu significado
Não havia solução: naquela tarde, fugi do barraco.

Quando eu me lembro ainda dói
Parece que eu escuto sua voz
Que tipo de pai não é da filha o herói?
A minha nascente se converteu em foz

Ass: A Poeta

Comentários