Minha mãe e eu

Segue relato anônimo de uma das seguidoras da página. Relatos de abuso psicológico e anorexia.


 

Já são diversos textos que li aqui no blog. Desde confissões sobre relacionamentos abusivos, até sobre abusos sexuais. O meu problema é que nunca fui abusada, e meus relacionamentos nunca foram abusivos. Na verdade, a realidade que vivo pode ser considerada como um “abuso piscológico”. E sobre isso que desejo falar nesse texto, espero que consiga.

Nasci em uma família de classe “estamos bem”. Sou a terceira filha, tenho dois irmãos e uma irmã. Desde pequena percebi a diferença no tratamento que minha mãe tinha comigo e com a minha irmã. Nós tinhámos que ajudar no trabalho de casa, nunca podíamos contestar algo e muito menos achar um menino bonitinho, isso desde cedo.

Nunca tinha ficado claro de verdade para mim, na minha cabeça minha mãe apenas era “conservadora” e queria meu bem. Mesmo que eu era obrigada a realizar tarefas, e coitada de mim se falasse que precisava estudar para provas. Mas como eu mentia todos os dias para todos, acreditava que àquilo era para o meu bem,  essa era minha vida.

Foi quando eu me apaixonei pela primeira vez e beijei também. Ele tinha 16 e eu 13, nós não fazíamos nada além de ir ao parque, shopping e muito raramente à algum evento de anime. Não tinha pegação pesada, era um namoro bobinho. Mãos dadas, beijinhos. Foi ao completar o meu primeiro mês de namoro que minha mãe me fez largar dele. Ela disse que eu era uma vagabunda, que eu já deveria ter dado minha “vagina” a ele. Coitada do meu eu com seus treze anos escutando da própria mãe que já tinha “dado tanto que caberia um trem”.

Logicamente, terminei o tal fulano. Nunca achei que isso fosse pesar, nunca joguei na cara dela esse fato. Porém, lá no fundo no meu coração, eu sabia que estava pesado e principalmente errado. Apenas gostava dele, custava ela me deixar namorar? Eu não era uma vagabunda, com treze anos não queria transar, somente gostava do papo dele.

Depois de dois anos após o tal namoro, começou uma certa pressão dela sobre minha aparência. Nunca fui magra, sempre tive problemas em ser gorda. Na época eu tinha 1,68 e pesava mais ou menos 78Kg. Mesmo com inúmeras dietas eu nunca consegui ser magra, foi então que pela pressão dela, desenvolvi anorexia. Era monstruoso viver ao lado dela, todo dia existia alguma coisa que não tinha feito, algo que eu tinha falhado. Eu me odiava, sem ter a miníma noção que me odiava.

Quando eu tinha 15 namorei com dois meninos ao decorrer do ano. Ambos ela tinha me forçado. Um pela mãe dele ser amiga dela e outro por ser “rico”. Sim caro leitor, minha própria mãe fez isso. Mesmo assim ainda existiam críticas sobre como eu me vestia, meu nariz que é “largo” e sobre meu peso. Nessa época eu pesava mais ou menos 49Kg.

Quando eu fiz 16, decidi que não deixaria ela roubar minha vida. Acabei o segundo namoro e recuperei meu peso normal. Foi então que ela espalhou à toda família que eu estava “estranha”, e como tinha uma amiga naquele ano, deveria ter me tornado lésbica. Lembro até hoje quando ela me veio falar que meus irmãos concordavam que eu estava estranha, que ela nunca aceitaria e que chegou a me bater porque ela “suspeitava” que existia uma filha dela homo. Sendo que nunca tive qualquer atração por meninas.

Essa fase passou depois de um tempo, mas com 17 eu conheci meu atual. Ele me trata bem, se hoje tenho ânimo de viver, alegria e auto-estima: a culpa é dele. Por causa dele entendi que ela me tratava mal, que eu nunca tinha merecido nada disso. E que principalmente: uma mulher ter vida sexual não é pecado, nem mesmo um erro. É normal. Ela ainda me acusa de estar com ele. Diz que sou “sem moral” sendo que nunca transei. Que sou vagabunda, puta e biscate. Que apenas vou viver de macho e não pela minha profissão.

Entretanto como a vida não é um mar-de-rosas, essa semana ela decidiu transformar minha vida em um inferno. Qualquer coisa que faço está errada. Não ajudo mais ela e por conta disso, a “depressão “ dela atacou.

Nunca vou entender como uma mãe, uma mulher assim como eu, consegue transformar a vida das filhas dessa forma. Fazendo minha irmã e eu acreditar que o fato de ter desejos sexuais, vontades e sonhos é algo errado. Que tudo que fazemos está errado, que nosso lugar é na cozinha.

Fica um aprendizado dessa história: Se você é mãe, apoie suas filhas. Nunca faça nada que a minha fez comigo, porquê isso apenas me fez sofrer. Nada mais além de chorar e ter de viver em um inferno até hoje.

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