MISÂNDRICA, SEM QUERER.

Segue o relato anônimo de uma seguidora da página – aviso para menções de abuso e estupro.


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Quando eu tinha 12 anos de idade, fui passear pela rua de casa (único lugar que minha mãe me deixava ir sozinha) e parei na lojinha de bijuterias de um conhecido. Eu era moleca, andava de calça comprida e moletom. Nesse dia, porém, o meu abusador, dono da lojinha, decidiu que iria tentar me apalpar e me beijar.

Falei que precisava ir pra casa, porque fui educada pra respeitar todo mundo e disparar dali sem dar satisfação seria inadequado. Saí com lágrimas nos olhos, murmurando pra mim mesma que ninguém acreditaria em mim, que minha mãe diria que a culpa foi minha e todas as ideias se embaralhavam na minha cabeça. A única vontade que eu tinha era enfiar minha cabeça num travesseiro e chorar.

Eu era uma garota estudiosa, li um monte de livros sobre biologia e anatomia feminina, tinha menstruado há pouco tempo e estava doida pra fazer meu primeiro exame ginecológico, com uma médica bacana numa clínica. Mas ele se deu na mesa gelada do ambulatório da Delegacia da Mulher, pra onde meus pais me levaram assim que eu criei coragem pra relatar o acontecido.

Felizmente, eu consegui superar o abuso e desenvolver minha sexualidade sem maiores problemas. Importante deixar claro que isso não acontece com todas as pessoas vítimas de abuso. Anos depois, me assumi bissexual para alguns amigos em quem eu confiava. Mas no carro de um deles, numa noite de sexta, ouvi:

– Você não é bissexual? Não dá pra todo mundo? Então porque não dá pra mim?

Depois desse episódio, passei a me encaminhar lentamente (e inconscientemente) para o feminismo. Fiquei sabendo que outras mulheres eram abusadas, violentadas, estupradas. Que aquilo não era normal. Que a mulher não deve sua sexualidade ao homem e que se você quiser dizer “não”, não precisa ficar dando satisfação. Sabe a analogia do sapo na água quente? Se você joga um sapo na água quente, ele pula na hora. Mas se você gradualmente aquece a água em que ele está, o sapo não mostra desconforto e vai se adaptando. A minha experiência como mulher foi assim, de sempre me adaptar aos absurdos que homens cometiam à minha volta. A achar que homem era assim mesmo e que se algo acontecesse, era culpa minha. Então tudo me parecia perfeitamente natural.

E como a sociedade também acha que tudo isso é natural, eu poderia citar mais dezenas de casos. Das vezes em que fui apalpada no transporte público. De quando um homem ejaculou nas roupas de uma amiga no ônibus. Das vezes em que fui assediada na balada. Do cara que tentou forçar um beijo em mim. De quando meu colega de trabalho levantou minha saia enquanto eu conversava com ele, sob a desculpa de ver algo que estava na minha coxa. Dos absurdos que já ouvi simplesmente exercendo meu direito de ir e vir na rua. Das minhas amigas que foram coagidas por seus namorados, das que foram estupradas por seus parceiros. De como as revistas masculinas ensinam aos homens técnicas para suas esposas não lhes negarem sexo e as femininas dizem a elas que se negarem, serão trocadas, como uma peça defeituosa.

Mas eu vou citar só o que aconteceu semana passada. Semana passada minha amiga flagrou o namorado fazendo planos para sair com outra garota. Fiquei nervosa, mas ao mesmo tempo tentei acalmá-la, conversando com ela e por esse motivo acabei não indo pra balada com uma segunda amiga. Esta, por sua vez, foi estuprada dentro do estabelecimento. No meio da festa, um rapaz lhe empurrou pra parede e enfiou a mão dentro de sua calcinha, apesar de ela dizer não e tentar empurrá-lo.

Quando soube disso, me senti péssima. Culpada por não estar lá para ajudá-la. Senti a mesma lama no estômago, a mesma vontade de chorar do dia em que eu fui abusada. Ela não quis falar mais no assunto, só me disse que nunca mais queria ir pra balada e não queria mais homens na vida dela. Isso trouxe a tona uma série de lembranças e sensações, me fez refletir sobre como eu lido com homens no meu cotidiano.

Sabe, eu não me tornei misândrica por nada. E olha que eu sou muito, MUITO privilegiada. Sou uma moça branca cis, rica, moradora de bairro nobre paulistano, estudo em faculdade particular. Eu convivi minha vida inteira com homens brancos cis, ricos, educados nos melhores colégios, filhos de famílias tradicionais. Os supostos Homens de Bem.

Isso não foi suficiente pra que cada um deles não me decepcionasse. Não acredito que todos são assim, eu tenho um pai que me educou livre, um namorado maravilhoso, um irmão que me enche de orgulho e amigos que me protegeriam se fosse necessário. Mas eu tenho pulga atrás da orelha com qualquer homem desconhecido. Eu não confio, eu não entrego. Olho pra alguns caras já pressupondo que eles são uns merdas. Não acredito que homens são inerentemente ruins; acredito que a sociedade machista forja monstros, estupradores, pessoas sem controle e responsabilidade por seus atos. A cultura do estupro e a culpabilização da vítima são provas disso.

Por isso eu digo a vocês: não julguem as misândricas. Nenhuma de nós vai sair pela rua assassinando homens ou cortando pintos pra fazer coleção, como é do imaginário popular (até de algumas feministas). A gente simplesmente se nega a conviver, se preserva de mais uma experiência que, seguindo as estatísticas da nossa vida, vai ser nociva. É muito difícil que isso não aconteça, já que uma de nós é vítima de violência a cada 12 segundos no Brasil. Nós temos medo. Eu tenho muito medo. E em algum ponto esse medo virou aversão. Eu sou misândrica e não cheguei a esse ponto de propósito, eu nunca quis isso pra mim. Isso aconteceu porque os homens me fizeram esperar o pior deles mesmos.

Não fiquem surpresos porque existe misandria. Fiquem surpresos porque chegamos a esse ponto. Fiquem surpresos com o fato de que não aguentamos mais abusos, violências e estupros, de tão frequentes que são. Não fiquem surpresos com o barulho da explosão, questionem quem jogou a bomba.

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