O dentista e o chefe

Segue relato anônimo de uma seguidora da página. Aviso para relato de assédio.


Há uns anos, precisei realizar uma perícia para realização de um procedimento odontológico pelo convênio. Fui ao dentista perito do meu plano, uma consulta de perícia normal, até aí tudo bem. Ao fim da consulta, ele insistiu para que eu ficasse mais para conversar. Na época eu andava de ônibus, a consulta foi no início da noite, eu precisava ir embora, pegar meu ônibus. Eu, sem compreender direito o que se passava e sem saber como me livrar daquilo, dei um pouco de trela pra conversa.

Lembro de ele vindo se sentar mais perto de mim. Lembro de falar mais de uma vez “preciso ir embora, está tarde” e ele responder com um sorriso meio sarcástico “mas por que a pressa? fica mais um pouco. não precisa ter medo.”. Estava extremamente desconfortável com a situação, mas não sabia como sair daquele lugar. Mais uma vez, eu insisti que tinha que ir embora, que QUERIA ir embora, e fui me levantando. Ele quis se despedir com um abraço. Não sei como consegui não permitir aquilo, como consegui me desvencilhar e ir até a porta.

Ele continuou me olhando como quem me estuda, como quem quer ver até onde eu sou capaz de ir. Ele não tinha secretária, não dividia aquele consultório com ninguém. Não havia ninguém que soubesse que eu estava ali, além de mim e dele. Eu consegui ir embora, tremendo, com medo, apavorada, me sentindo suja, sentindo que fiz algo muito errado, sabendo que se eu contasse isso pra qualquer pessoa, a primeira pergunta que me fariam seria “mas por que você não saiu dali?”. Só quem passou por isso conhece a sensação paralisante que a gente sente, a completa ausência de reação coerente com o momento. O medo paralisa o mais corajoso e valente, por que eu, uma garota normal, haveria de não ser paralisada? Nunca mais tive que voltar naquele lugar. Mas aquela cena as vezes me assombra, mesmo tantos anos depois.

Revivi na semana esse pavor. O mesmo pavor. Fui para outra cidade em busca de uma oportunidade de emprego. Fui chamada para entrevista, após uma pré-entrevista por telefone com o dono da empresa. Eu estava muito empolgada, aquele emprego e aquela mudança significavam muito pra mim. Eu sempre procurei ser reservada na relação com pessoas desconhecidas, não gosto de intimidades, em especial com homens. Sempre me senti desconfortável, principalmente quando os homens querem me forçar a uma situação mais íntima. Nunca gostei disso.

Desde a entrevista por telefone, o dono dessa empresa me tratava de uma maneira mais íntima, que me incomodava, mas preferi lidar com isso e aceitar, porque queria o emprego. Dizia que me levaria a lugares na cidade, me levaria à praia, me levaria jantar não sei onde. Isso não parecia certo, mas não contestei. Ao chegar lá, mais algumas coisas foram ligando meu sinal de alerta. Por diversas vezes, ele insistia em pegar na minha mão. Aquilo foi me incomodando, e fui fechando minha cara, pois era algo que realmente não me parecia certo.

Percebi que ele trabalhava praticamente só com meninas, em especial se tratando das pessoas mais próximas dele. Talvez a minha desaprovação tenha ficado bem explícita, porque ele diminuiu as intimidades nos dias seguintes. Porém, na sexta-feira, quando fomos definir se realmente eu ficaria ou voltaria pra minha cidade, ele disse que eu não ficaria (o motivo não é algo ruim, em todo caso). Ele insistiu que eu arranjasse “mais um tempo para ele” antes de ir embora. Que passássemos mais um tempo juntos. Aquilo foi me apavorando.

Eu queria ir pra casa, e ele queria “me levar pra fazer alguma coisa”. Eu concordei, por não saber o que fazer. Um dilema entre ser grosseira de uma vez e dizer que ele estava me confundindo naquele momento, e ser delicada e contar com algum tipo de recomendação futura. Ele foi me buscar no hotel de noite, e eu procurei não me arrumar, usei praticamente a mesma roupa com que trabalhei o dia todo. Ele quis me levar à praia, que fica a uns 20 minutos da cidade, e eu entrei naquele carro já muito tensa. Havia avisado uma amiga do que estava acontecendo, e prometi a ela que a manteria informada, e caso eu não desse mais notícia, ela devia falar com alguém, chamar a polícia, sei lá.

Primeiro ele me levou na praia, disse que eu seria ridículo eu ir até lá e nem ver a praia. Eu fiquei aliviada por um segundo, por ver que havia alguns adolescentes próximos, que eu não estava totalmente sozinha. Já na areia, ele quis pegar na minha mão, como se fosse um namorado, e aquilo me enojou. Eu estava travada, com nojo e medo. Ele quis me abraçar e tentou me beijar, eu me desvencilhei, mas não tive força nem coragem para gritar com ele, e mandar que se colocasse em seu lugar.

O lugar onde ele queria me levar estava fechado, então ele parou em outro bar. Fiquei muito aliviada por ver que havia gente ali, e logo fui ao banheiro, para atualizar minha amiga do que estava acontecendo. Escolhi uma mesa próxima de outras pessoas. Ele perguntou o que eu queria beber, insistiu que eu bebesse uma vodka, uma cerveja pelo menos. Eu não iria botar uma gota sequer de álcool na boca naquela situação. E fiquei apavorada quando vi que ele ia buscar o guaraná e o copo, com medo que ele colocasse algo naquele copo. Demorei muito pra começar a beber aquele refrigerante.

Eu estava travada, apavorada, tremia, e não sabia o que falar. Ele perguntava “você está bem?” e minha vontade era gritar que não, que ele estava abusando de mim, que ele era nojento. Ele começou a me propor para irmos a “um lugar mais discreto, mais reservado”, e eu consegui responder que não com mais veemência. Quando consegui fazer com que fôssemos embora, ele veio com um papo de que “aqui, quando um homem convida uma mulher para sair namorar…” e eu só pensava “que nojo, eu nunca disse que sairia ~namorar~ com você”. Consegui me livrar “ilesa”. Só com o abuso psicológico. Mais uma vez. Cheguei no meu quarto de hotel, tranquei a porta e a janela, apavorada, em pânico, e fui tomar banho, pra tirar aquilo de mim.

Por que os homens acham que podem agir assim com uma mulher? Por que, antes de ser a paciente do dentista ou a nova funcionária da empresa eu tenho que ser uma mulher objeto para esses homens? Por que homens tem que forçar essa intimidade que eu não quero, e quando eu corto a intimidade desde o começo sou grossa, não sei aceitar gentileza, sou mal amada? “Não precisa ter medo” eles dizem. Não preciso? Sozinha com eles num consultório, ou num carro, ou numa praia a noite, eu não preciso ter medo? A única coisa que eu preciso ter é medo.

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