O ex-marido e o policial

Segue relato anônimo de uma das seguidoras da página. Avisos para violência doméstica.


 

Em uma cidade do interior de São Paulo, no final de 2009, não me lembro bem se em setembro ou outubro, eu tinha acabado de ir morar com meu marido e estava grávida de uns 5 meses. Meu irmão estava morando com meu avô em Santos e minha irmã mais nova estava com minha mãe, que havia se separado há pouco.

O ex-marido da minha mãe pulou o muro da casa dela, e nem era tão tarde, devia ser umas 21hr, ele procurava briga. Ele a espancou por 3 horas! Ela teve a metade de seus cabelos arrancados, muitos ferimentos na cabeça, o cotovelo deslocado, entre outros ferimentos e contusões. A casa da minha mãe era a visão do inferno.

Depois dessas 3 horas apanhando, um dos vizinhos cansados de ligar pra polícia, ligou no meu celular e, sabendo da minha condição, pediu pra falar com meu marido. Meu marido desceu de bicicleta pra tentar acudir – chegando na casa da minha mãe viu que um único policial foi até lá colocou o ex no banco da frente da viatura, sem prestar socorro a minha mãe, e o levou até o carro dele. Depois o escoltou até a minha casa, pra onde minha mãe estava indo de carro, parou o carro da minha mãe e pediu pra que ela se acalmasse pois o homem que acabara de quase matá-la precisava falar com ela, e apenas queria ver se sua filha estava bem.

O policial deixou que homem chegasse até o carro pra falar com a minha mãe – meu marido, que estava de bicicleta atras do carro, viu a cena e tentou impedir, e ainda foi ameaçado pelo policial que disse que iria prendê-lo por desacato caso ele o desobedecesse e interferisse. Nessa momento eu cheguei andando e disse pra minha mãe que ela iria ao hospital pra fazer exames e registrar um B.O. O policial me advertiu, orientando a minha mãe da seguinte forma: “A senhora não vai a lugar algum. Agora não é hora pra isso. Agora a senhora vai cuidar da sua filha pequena que está chorando, e vai descansar. Amanhã ou segunda a senhora pensa se vai fazer alguma coisa.”.

Assim que o policial foi embora, levamos minha mãe ao posto de saúde. A essa altura, o ex-marido dela já estava em casa. O policial, ao passar na frente do posto, parou e ficou tentando fazer com que minha mãe fosse embora. De dentro do posto eu liguei pro 180 e, por falta de uma delegacia da mulher que fosse próxima e estivesse aberta, fui orientada a levar minha mãe pra um hospital onde pudesse fazer exames e no dia seguinte ir à delegacia. Enquanto isso, o policial continuava insistindo que estávamos perdendo tempo.

Por fim, aquele policial nunca nem registrou a ocorrência, e pelo que eu entendi, ele era amigo do ex-marido da minha mãe. Não existe nenhuma ordem de restrição, e o processo nunca foi levado a diante. Não existiu nunca uma ordem de prisão preventiva. E mesmo com todas as provas, testemunhas, fotos e exames, estamos há mais de 5 anos esperando que ele seja intimado, ou que algo seja feito.

Minha mãe teve que sair da casa dela e se esconder em Santos, depois voltou pra se esconder em Rio Preto, e quando ele a encontrou, ela se cansou de se esconder e voltou pra casa dela. Ele continua atormentando a vida dela com ligações e ameaças. Só nos resta esperar que ele nunca cumpra as ameaças novamente.

Não foi a primeira vez que ele a agrediu, mas minha mãe nunca mais foi a mesma. Até hoje todas as pessoas, absolutamente TODAS elas, me perguntam se minha mãe “já voltou” com ele. Como se fosse iminente que ela o aceitasse de volta. Ouço coisas como “Ela ainda está sozinha? Acho que ela ainda gosta dele mesmo então.”. Ninguém entende o que significou tudo o que aconteceu. Minha mãe ficou num estado de depressão inacreditável – eu chego a pensar, às vezes, que é irreversível!

Eu só quero sororidade. Mulheres, não deixem que esse tipo de coisa se torne normal pra vocês. Não se acostumem com essas situações. Não se calem!

Eu NUNCA vou me calar!

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