Olhando para trás

Relato anônimo da seguidora C.G.D.!


Hoje cedo me dei conta de que já estive em um relacionamento abusivo. Gostaria de relatar aqui os motivos que me levaram a concluir isso, após, não sei, 1 ano do término (ou mais). Mas para isso terei que contextualizar todo o início do relacionamento, anos atrás, então o texto será longo. Vamos chamar o rapaz de X. Estamos em 2010/2011, eu tinha 15 anos e X tinha 18. Ficávamos, eu gostava dele e ele tinha namorada, mas passava todas as tardes comigo. Eu queria que ele desistisse da namorada e ficasse comigo, mas ao mesmo tempo eu tinha um pouco de receio da minha família, por ele ser mais velho e, a bem da verdade, não “ser ninguém”: não estudava, não trabalhava, tinha péssimas amizades, não sabia o que queria da vida.

Após praticamente 10 meses, 1 ano ficando, decidi que não dava mais, que não ia pra frente. Me afastei 100% dele, comecei um relacionamento com outra pessoa. Em 2013, após 1 ano e alguns meses de namoro com a outra pessoa, estava cansada e retomei o contato com o X. Terminei meu relacionamento (que já não tinha sentimento) e voltei a ficar com o X – ele parecia mudado, parecia ter crescido.

Começamos a namorar pouco tempo depois. E foi aí que tudo começou. Ele era gentil com todos, mas brigávamos por qualquer motivo. Na realidade ele sempre buscava conflito comigo, era ciumento e possessivo, e sempre se colocava na posição de vítima. Ele não aceitava que eu dizia não ter ciúmes (e de fato não tinha). Ele não gostava dos meus amigos e nem das minhas amigas, e um pouco sem perceber acabei me afastando da maioria deles, para evitar brigas, porque eu não aguentava. A cada discussão, sem argumentos, ele falava um “tá bom, C.” e virava a cara, e quando eu argumentava vinha um “não quero saber, tá bom, chega”, infantilidade de quem sabe que está errado.

Ele dormia na minha casa quase todo final de semana, e ele achava que dormir comigo significava transar comigo. Eu não queria transar. Não me sentia confortável, sempre havia gente em casa e, principalmente, não o desejava. Não cedia. Ele ficava me provocando, e eu falava que não queria e pronto, e então ele ficava irritado. Simplesmente virava de costas para mim e falava: “boa noite”. E ficava no celular. Eu chorava, na outra cama. Parte de mim se sentia culpada, parte de mim se sentia correta, e essa dualidade era horrível. Passei a dormir na casa dele 1x por semana, porque era do lado de um dos meus empregos, o que me economizaria tempo (e me daria horas de sono). E se na minha casa ele já se sentia no direito de me aporrinhar para transar, imagina na dele, em que os pais não davam a mínima. E eu novamente não cedia.

Minto: cedi algumas vezes, porque só queria que ele calasse a boca; eu queria dormir para trabalhar cedo, enquanto ele ficaria jogando no computador o dia inteiro, sem hora para dormir e acordar, sem obrigações, sem ter uma vida. Ficamos um longo tempo sem transar. Descobri que ele me traiu por conta disso. Relevei. Eu gostava dele, mas não gostava de muitas de suas opiniões e posicionamentos (machistas). Eu não me dei conta no como eu me fechei para o mundo, em como eu passei a me preocupar mais com a forma com que ele reagiria do que com meu bem estar.

Eu me acostumei a abrir mão das coisas só para ele não se fazer de vítima e ME culpar por absolutamente nada. Me acostumei me calar para não ter que ouvir também. Me acostumei a não ser eu. A cada vez que eu dizia que não estava satisfeita, ele falava que a culpa era minha. E quando eu mencionava terminar, ele ameaçava a própria vida. Conseguem imaginar o que isso fez comigo? Me fez ficar meses prolongando um relacionamento que já não existia, que se baseava em eu ficar me podando e deixando de viver minha vida para agradar um inútil qualquer. Ninguém sabe o quanto esse relacionamento me fez mal (exceto no começo, em que o X não mostrava ser essa pessoa).

Quando finalmente terminei, ele inventou histórias para nossos amigos em comum, sobre como eu era uma “vagabunda que terminou com ele pra dar pra meio mundo”. Espalhou boatos sobre mim. Tentou me infernizar em cada minuto que tinha chance, inclusive se fez de vítima para pessoas da minha família, falando que estava sofrendo e que eu terminei sem motivos. Ele me mandava mensagens no celular, falando que eu era uma “puta de segunda”, se eu “já estava dando por aí”, que eu “não valia nada”. Chegou a falar que desejava minha morte, que eu era uma vadia, para amigos em comum (que me enviaram print das conversas).

Tudo isso por quê? Porque eu me enchi de coragem e falei que não ia mais aguentar a bomba psicológica que era estar ao lado dele, não ia mais me sentir culpada até por respirar, não ia mais me afastar dos meus amigos e não ia mais aguentar alguém tentando transar comigo mesmo quando eu dizia que não. Hoje não quero notícias dele. Não tenho raiva, mas pena, porque pelo pouco que sei, ele continua o mesmo; continua infantil e cretino.

Felizmente nunca desacreditei que o amor existia, nunca perdi a fé na humanidade (principalmente nos homens). Hoje estou em um relacionamento que só me faz bem, só me acrescenta, com alguém que compartilha dos mesmos pensamentos e princípios que eu. Hoje estou plenamente feliz e sei que um futuro lindo me aguarda. Para as meninas que vivem um relacionamento abusivo: terminem, fujam, saiam dessa. Ele disse que vai se matar se você terminar? Que se mate, sua sanidade vale muito mais do que ameaças tolas. Não se prendam a quem não as merece. Busquem o melhor para vocês. Se amem e sejam felizes.

 

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