Os pesadelos continuam

Relato anônimo de uma das seguidoras da página – aviso para pedofilia.


 

Quando fiz seis anos, minha mãe se casou pela segunda vez e acredito que esse foi o início de meus problemas. Claro, eles não vieram imediatamente, mas vieram com o passar dos anos e, principalmente com o falecimento do meu avô quando fiz nove anos.

Desde muito cedo notava este homem olhando para meu corpo, mas com a pouca idade que tinha não entendia o que aqueles olhares queriam dizer. E com meus oito anos foi quando senti sua mão passar pelo meu corpo enquanto eu estava deitada – na época falei com a minha mãe que dizia que eu provavelmente estaria “sonhando com aquilo”, mas eu tinha certeza que não era algo fantasiado.

Um dia enquanto estava sozinha em casa com ele (morávamos na casa ao fundo, então por sozinha pode se entender que minha mãe estava na casa da frente com a minha avó).  O cara, que trabalhava a noite, estava dormindo e eu estava assistindo a alguma bobagem na televisão, até que ele saiu do quarto para ir ao banheiro, e quando voltou estava com o pênis visível e passou rindo de volta ao quarto. Depois quando saiu tentou me agarrar a força, porém corri para a casa da frente e, infelizmente, minha mãe não notou nada de diferente. Deixo claro que esse não foi o primeiro incidente no qual ele mostrava sua genital para mim, e que em algumas vezes ele chegava inclusive a forçar que eu olhasse.

Não me recordo bem a época, mas lembro que os noticiários anunciavam muito casos de pedofilia vindo de padrastos e ele não deixava minha mãe – e nem a mim – assistir a nenhuma dessas reportagens. Irônico, não? Isso tudo me fazia cada dia mais sentir nojo dele, e por consequência de minha própria pessoa. Me senti suja, e me perguntava todos os dias o que tinha de errado comigo que era apenas uma criança na fase da pré-adolescência, eu nem sequer tinha malícia de provocá-lo de alguma forma.

Esses incidentes continuavam acontecendo, e pioravam conforme o desenvolvimento do meu corpo, de forma com que quando eu estava com meus quase treze anos isso piorou de forma absurda. O assédio era quase semanal (já que dependia de que minha mãe não estivesse “olhando” para que ele fizesse isso) e diversas vezes acordei no meio da noite com ele do lado da minha cama se masturbando ou me tocando.

Em uma dessas ocasiões denunciei o caso para a minha mãe, e esta mais uma vez não acreditou em minhas palavras, ou se acreditou, talvez achasse que ele estava sob algum efeito de alguma droga (ele virou usuário conforme os anos, e já tinha problemas com álcool, mas todo assédio aconteceu com ele sóbrio, o que descartava essa possibilidade da minha cabeça).

Por fim quando ela se separou dele me senti aliviada, mas como se não bastasse isso, pesadelos com ele invadindo a minha casa me atormentavam quase que diariamente. E eles me atormentam ainda hoje, porém não tão frequentes quanto na época da separação, que foi quando eu tinha 13 anos. Hoje com dezesseis ainda carrego de alguma forma esse fardo sobre mim, já que quando comecei a namorar e fui ter a minha primeira relação sexual, não sangrei, o que me faz voltar no passado e imaginar se não houve algum estupro, e como se não bastasse, meu namorado da época chegou a me taxar de “vadia” por “vender uma imagem de virgem” quando eu não era.

E é por esse meu caso que às vezes penso sozinha “se como criança fui assediada, sendo que não tinha malícia alguma, então nada justifica um estupro, tampouco vestes mais curtas”.

Não sei se chegará até a equipe esse texto, já que devem receber inúmeros e-mails, mas essa é a minha história, que assim como muitas, me calei diante da situação. Mas hoje encontro no feminismo uma espécie de apoio, apoio que me fez compartilhar pela segunda vez o que aconteceu comigo, já que a primeira foi com a minha psicóloga. Quem olha não vê e sequer imagina que passei por uma situação como essa, mas enfim estou livre e quem sabe um dia me liberto até mesmo desses pesadelos.

 

Tags:,

Comentários