Pequenos grilhões

Segue relato enviado por seguidora da página, Marcela Alferes.


Andei um dia desses conversando com a minha irmã sobre vários assuntos aleatórios e um deles era como eu cresci aprendendo que não posso olhar na cara das pessoas na rua. Ando olhando pra frente, de preferência com uma cara séria ou compenetrada, andando sempre como se tivesse pressa, mesmo que não, só pra evitar ser importunada por aí.

Sei que vai ter muita gente chiando sobre o assunto, porque tem milhares de pessoas que andam na rua sem olhar pros lados… mas daí eu me sinto obrigada a perguntar: Mas você tem medo? Medo medo? E não digo medo de a pessoa te abordar e mandar você passar seu celular (medo óbvio esse), mas sim medo de ser abordado por um estranho porque ele VAI tentar te jogar xaveco com toda a propriedade do mundo, como se lhe fosse um direito divino, ou tentar agressivamente conseguir seu celular sim, mas o número de telefone dele, não o aparelho?

Gente, minha primeira lembrança clara disso eu nem estava olhando pra cara de ninguém na verdade, só exercendo me direito de circular na rua. Estava sentada bum banco de praça com a minha melhor amiga. Eu tinha uns 13 anos mais ou menos.

Estava eu lá, sentada com a minha amiga discutindo a vida o mundo e todas as coisas, quando um carro para na nossa frente, janela baixa, e dois caras no banco da frente, provavelmente já com seus 18 ou 20 anos, nos abordam pra saber o que “duas meninas bonitas como nós” estávamos fazendo sozinhas num domingo.

Só quem já passou algo do tipo tem dimensão do quão aterrorizador pode ser.

Fui criada para desconfiar de estranhos e não é à toa. O que não parece faltar nesse mundo é gente esquisita com intenções obscuras.

Mas os estranhos sempre se sentiram no direito de vir pra cima de mim, antes mesmo de haver qualquer tipo de segunda intenção. Lembro de ter uns 6 anos talvez e entrar em pânico com a ideia de sair de casa, porque toda vez que meus pais me levavam pra algum lugar algum adulto esquisito parava do meu lado e passava a mão na minha cabeça.

Não digo que essa parte referente à infância seja necessariamente derivada do fato de eu ser uma mulher, mas algo que sempre me deixou desconfortável, desde criança, só se agravou com o tempo. Essas pequenas liberdades as quais nunca permiti à ninguém só foram se tornando piores.

Percebi, à medida que ia crescendo, que se eu olhasse pra cara das pessoas na rua, uma quantidade alarmante de homens ficavam me encarando de um jeito que hoje em dia eu batizei carinhosamente de “olhar seboso”. Ou pior, vinham me abordar com um tom de voz seboso. Daqueles que te faz sentir suja, mesmo que as palavras proferidas sejam só um “Bom dia”.

Então assim, no ensino fundamental ainda, eu decidi que era mais seguro não olhar pra cara de ninguém na rua.

Não sei. Talvez não pareça nada, mas ter de abrir mão do direito fundamental de olhar pra onde eu quiser para evitar ser mexida da rua comprometeu demais minha autoconfiança e segurança. Passei minha juventude toda tendo dificuldade de olhar meninos nos olhos, especialmente quando sabia que eles queriam algo comigo.

Eu cresci ouvindo o mundo zurrando as grandes máximas do machismo, como: “isso não é roupa de mulher decente”, ou “se não quisesse atenção não se vestia, agia, *insira sua estupidez aqui* assim”… E sempre fiz tudo o que era pregado como o oposto de atitudes que não incitavam respeito. Era a miss respeitável. Não conseguia vestir saia acima de um palmo do joelho e mesmo com ela nessa altura me sentia exposta demais. Parei de usar saias e shorts porque mostrar a perna era “pedir por atenção” e passei a viver dentro de jeans.

Depois, comecei a parar de dar o mesmo nível de liberdade para os meus colegas meninos que eu dava para minhas amigas meninas, porque se eu abraçasse uma amiga, era porque a amizade era forte, mas se eu fizesse o mesmo com um amigo, eu tava “dando abertura” pra ele.

O grande clichê do “não existe amizade entre homem e mulher” está aí. Você não pode ter o mesmo nível de intimidade com um cara sem o mundo (e muitas vezes ele mesmo!) achar que você está “dando mole”.

E, nossa, eu podeira passar dias pensando e acrescentando outras pequenas atitudes às quais fui me privando ao longo da minha vida para evitar atenção indesejada… Não visto isso, não olho aqui, não vou lá, só vou ali companhada, não bebo aqui, atravesso aqui pra não passar ali… Pequenas atitudes, pequenas privações que vão se empilhando e modificando sua percepção do mundo e sua margem de ação, sabe?

Sei que não é um desabafo com muito nexo, mas o que tentei dizer com ele é que passei boa parte da minha vida tentando ser aquilo que a sociedade dizia ser respeitável e, ainda assim, sofri e sofro desrespeitos todos os dias. Que tudo o que alcancei sendo o que o mundo esperava de mim, foi uma atitude passiva ante à tudo que acima citei.

Passei minha vida tentando não ser “a errada” numa relação em que errado é o mundo que me cerca, não eu. Me agrilhoando de pequenas atitudes em pequenas atitudes que prejudicaram minha vida e meu amor próprio.

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