Puro mel do asco

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Quando eu sonho com histórias detalhadas, por mais surreais que os enredos sejam, eu acordo com uma sensação de flutuar, assim que lembro da história. Pra mim, este é o click de que só foi um sonho.

 

Eu estava no ônibus, indo pro segundo tempo, ou seja, saindo de um trabalho e indo para o outro. Entrei no ônibus que em menos de 15 minutos me deixaria na porta da agência, e esse seria o tempo ideal para passar a limpo todas as pendências do primeiro trabalho e poder me preparar para todas as pendências que estavam por vir. É quase não existir por um quarto de hora, mas ok.

 

Já que desceria logo, sentei-me no banco mais próximo à porta e logo me incomodei com uma pressão no meu próprio cabelo. Me ajeitei porque achei que prendia os fios contra o banco. Entre 20 pensamentos, me acertei novamente, porque ainda sentia uma o cabelo “pegando” em algo. Nesse momento, um 21º pensamento me passou rapidamente “nossa, imagina se é alguém prendendo meu cabelo. risos”. E essa ideia se perdeu no meio de outras.

 

Chegou meu ponto. Levantei e com apenas dois pensamentos na cabeça, lembrei do 21º e pensei “imagina se era alguém mesmo prendendo meu cabelo. risos” e olhei para o banco atrás do que estava. Quando eu olho, um homem me fitava por entre a alça do banco, fazendo caras e bocas, com um olhar asqueroso e com a mão apoiada no meu banco, justamente onde me incomodava a pressão do cabelo.

 

O que dizer? O que fazer? Eu tinha um minuto pra decidir. Eu que por duas vezes fotografei senhores cometeram assédios no metro. Eu que não tolero manifestações de machismo. Eu que não tolero o abuso, me vi alí, passiva e impotente, porque as minhas únicas provas de que aquele escroto era um escroto, eram o olhar daquele verme com um sorrisinho sádico e a clara sensação de que aquela pressão que senti, não era meu corpo contra o assento, mas de “afago” (muitas aspas, porque afago é consentido e querido).

 

Fui tomada por algo tão cruel quanto a certeza do que tinha acabado de acontecer. Eu fui calada. Calada pelo cinismo, calada pelo oportunismo, calada por não ter provas concretas, calada pelo medo de ser injusta. O que é bizarro, porque eu sei que não estaria fazendo uma falsa acusação. Mas se quando as minhas irmãs sofrem abusos que deixam marcas em suas peles e vão denunciar, ainda assim, elas, explicitamente abusadas, são questionadas sobre a veracidade dos fatos. Um Estado que não ampara, políticas que não asseguram, polícia que não protege.

 

Calada desci do ônibus e o verme me acompanhou o olhar de satisfação. Era um gozo pra ele. Por dentro eu gritava e pensava “estamos assim, à disposição, soltas pelas ruas e chamadas de loucas, porque lógico, é o mais conveniente.”

 

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