Só uma piada

Segue relato anônimo de seguidora da página. Aviso para relatos de agressão e relacionamentos abusivos.


 

Ultimamente venho vendo pessoas, na maior parte homens, fazendo piada com agressão contra mulher. E isso me lembra todos os dias o que eu passei, o que eu vi, e o quanto foi banalizado tudo.

Eu morei com minha vó desde sempre, convivia pouco com minha mãe até os dez anos, mas mesmo assim sabia – ela apanhava do pai das minhas irmãs, muitas vezes ela chegava em casa com os braços roxos, então eu pegava um potinho de dipirona ao qual eu guardava álcool pra limpar o machucado. Eu sei não faz sentido, mas eu era uma criança, queria ajudar.

Uma vez fui visitá-la e ele bateu nela, ela estava grávida… As denúncias nunca iam para frente, quando ela não as retirava a família dele que trabalha “dentro” dava um jeito de sumir. Mas se eu pensava que tudo era ruim comigo não morando com ela, quando eu fui aos dez morar com ela, piorou.

Em partes culpo a ambos, ela tem culpa por meus problemas como depressão, auto-estima baixa, e ansiedade. Mas ele também tem, porque ele a infernizava, ela idealizava e vivia para ele, não ligava muito para nós. Era sempre ele, ele e ele. Mas isso nunca justificou o que ele fazia com ela – mesmo ela não sendo uma das melhores mães, e eu ter profundas mágoas, nunca justificaria ele dar um soco no olho dela e ficar roxo e dentro vermelho, chutar ela grávida, gritar para todos na rua que ela era coisas entre puta, biscate e outros piores, ou até mesmo no ano em que ela faleceu espancá-la tanto que eu intervim, eu entrei no meio, eu soquei as costas dele pra ele não bater mais nela, eu não queria que ela fosse machucada.

E então foi nesse dia que também fui agredida, uma menor, de quatorze anos. Porque eu só queria que ele não batesse mais nela – a cena ainda é viva na minha cabeça, como se eu vivesse aquele dia toda vez que conto a história, ou que ouço a maldita frase fazendo piadinha com esse tipo de coisa.

Nesse mesmo dia a irmã dele bateu na minha mãe eu gritava para parar, minha mãe estava levemente alcoolizada porque antes de tudo acontecer ela estava bebendo com ele, não sei muito bem o que aconteceu antes, mas lembro-me dela indo com nós  três, eu e minhas duas irmãs pequenas, até a casa dele porque ele havia quebrado o negócio que manda luz pra casa.

E aconteceu tudo isso, depois que chamaram a polícia, o policial ficou ao lado deles, um agressor, e sua família – entendo que ela estava desequilibrada mas isso também não justifica ele dar uma chave de braço nela, nada justificaria, nada justificava ele também jogar meu caderno de dez matérias na cabeça da minha irmã de quatro anos, porque estava drogado e bêbado.

Hoje ele está solto e vivendo a vida dele, minha mãe não está mais aqui. E nada aconteceu com ele, e eu continuo querendo justiça, que jamais vou ter. E então vejo as brincadeiras com mulheres sendo espancadas, e penso, não é engraçado quando você sente na pele, não é tão engraçado quando você vive com marcas de uma agressão. Mas é sempre muito engraçado quando você não é o oprimido, mas sim o que oprime.

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