11/01/2016 - Por O que você tem para falar?

Sobre os ecos de um relacionamento abusivo e a importância do feminismo

.algumas considerações iniciais

Esse texto é em parte um relato [desabafo] e em parte uma tentativa de elaboração das consequências de ter vivido um relacionamento abusivo. É impossível deixar de pensar que se eu tivesse vivido essas situações hoje, depois de ter absorvido alguns conceitos de empoderamento e liberdade feminina, eu talvez não deixasse passar do primeiro sinal de abuso. Darei gêneros ao texto, pois sou mulher, feminista, e essa é a minha história.


.a importância do feminismo e a desconstrução

Recentemente, comecei a estudar o feminismo e a ler sobre empoderamento, sobre liberdade das mulheres, sobre violências, sobre abusos. Comecei a dolorosa desconstrução sobre as teias opressoras, machistas e abusivas a que, às vezes, nos amarramos tão habilmente. Comecei tudo isso muito tarde, talvez, mas antes tarde do que nunca. Depois de vários meses de depressão e de 13 quilos a menos, eu finalmente comecei a tentativa de resgatar a minha liberdade, os meus desejos, a minha beleza, o meu corpo. Resgatei a minha voz. Hoje, consigo dizer: sim, eu vivi um relacionamento abusivo. Não, não foi minha culpa. Eu não estava ali porque queria, ou porque gostava de sofrer. Eu não estava ali porque era confortável. Estava longe de ser.

Agora, meu principal objetivo é reafirmar os meus desejos, sustentar a minha liberdade e, sobretudo, continuar a minha reconstrução, que ainda não está completa. Afinal, os ecos de um relacionamento abusivo nos estilhaçam de maneira violenta, tornando muito mais difícil encontrar e juntar os incontáveis pequenos fragmentos que se espalharam pelo caminho.


.os abusos psicológicos

[Talvez esse seja o trecho mais difícil de se escrever. Mas eu sustento a importância dele na desmistificação de que os abusos psicológicos se resumem em proibir as roupas curtas e o batom vermelho. Os abusos têm várias caras, formas, tamanhos e sutilezas; e quanto mais nós, mulheres, compartilharmos nossos relatos, mais relacionamentos abusivos podem ser identificados.]

1. Logo no início, veio dele a proposta de não sermos amigos nas redes sociais, sob a justificativa de evitar conflitos na relação. Achei um pouco estranho, mas ok. Seguimos.

2. Não podia manter uma boa relação de amizade com meus ex-amores. Isso era muito desrespeitoso e, nos momentos mais drásticos, coisa de puta. Mas eu podia me relacionar com amigos homens, desde que nunca tivessem ficado comigo. Claro que ele não assumia isso abertamente, mas a matemática era simples. E sim, fui chamada de puta. E segui.

3. Saí sozinha para almoçar na rua, e meu celular – por algum motivo desconhecido – ficou fora de área. Obviamente, eu só percebi quando peguei o celular para fazer uma ligação, já um bom tempo depois do almoço. Liguei para ele para conversar qualquer coisa e sua voz estava absolutamente séria, fria. O que eu poderia ter feito de errado? Há poucas horas atrás estávamos bem… Repassei mentalmente cada passo do meu dia, procurando algum deslize, alguma frase torta. Depois de horas de discussão, de agressões psicológicas, de chantagens emocionais, vem o motivo: você desligou o celular de propósito pois estava com o seu ex. A acusação era tão absurda, que eu ri. Um riso cansado e nervoso. Nos meses seguintes, prestei uma atenção obsessiva no meu celular, para que ele não ficasse fora de área novamente sem que eu percebesse nos primeiros instantes.

4. Três dias sem falar comigo. O que eu fiz de errado?!, eu perguntava incisivamente. Nada, dizia ele, dando de ombros. Você fez alguma coisa de errado, por acaso? [tom sarcástico]. E fui relatando qualquer coisa, qualquer minúcia que acabei por omitir. Ele ria, e dizia – quer dizer que você não me contou isso? Até que, vencido pela exaustão das discussões, ele resolve confessar: olhei o seu celular. olhei o seu histórico na internet. olhei, inclusive, a sua lixeira. Moço, você não tem o direito me invadir dessa forma. Ora, mas pra mim isso é perfeitamente natural, somos um casal, temos que dividir as coisas, ele respondeu. E, envergonhada, confesso que seguimos.

5. Moça, pare de dizer que sou ciumento. Meu ciúme está totalmente dentro dos limites da normalidade. Na verdade, você que é a problemática e eu duvido que você ache alguém que te aceite como eu te aceito. Duvido que você consiga ser feliz sem mim.

6. Moça, essas dores de cabeça que eu sinto foi você que causou. Eu não tinha nada disso antes de te conhecer. Hoje essas dores me impedem de trabalhar, de sair… Não sei se tenho saúde para aceitar aquela proposta de emprego. E a culpa é inteiramente sua.

7. Filminho a noite na minha casa. Foi um dia exaustivo, eu estava muito cansada, peguei no sono. No dia seguinte, frieza. Você está chateado porque eu dormi? Ora, moça, você me chama pra sua casa pra ver um filme e dorme? Não foi pra isso que eu vim. E foi embora. Há muito já não me reconheço, mas segui.

8. Moça, quer dizer que você prefere ficar em casa no feriado escrevendo sua monografia do que viajar comigo? Não sei pra que essa merda, aposto que esse trabalho não vai dar em nada. Nem vai te levar a lugar algum…

9. Por favor, hoje não. Não vamos brigar, eu preciso do seu abraço nesse momento. Hoje fazem 4 anos que o meu pai morreu, eu não tenho forças pra essa discussão, por favor, hoje não… Moça, eu não tenho culpa nenhuma se o seu pai morreu nesse dia, isso é problema seu.


.os ecos de uma relação abusiva

Ao escrever os relatos acima, anos depois de eles terem ocorrido, eu me questiono firmemente sobre como consegui permanecer nessa relação por quase 5 anos. Tive outros amores antes dele, amores saudáveis, bonitos, sem abuso. Sempre me considerei forte, livre, esclarecida, jamais me permitiria ser assim, passiva e submissa. E foi aí que me perdi. Eu não me reconhecia nesse papel de obediência cega e, portanto, negava que estava vivendo um abuso emocional. “Tudo bem, ele é um pouco ciumento, mas não deve ser nada de mais, afinal, eu saio com as minhas amigas e alguns amigos. Não tem problema deixar de fazer uma coisinha aqui ou de ver uma pessoa ali, não é mesmo? Vamos evitar conflitos, é melhor pra todo mundo.”  E é justamente aí que a gente vai se diminuindo, se perdendo, se anulando. Até chegar em um ponto onde a gente não se reconhece mais. Onde nossos amigos não nos reconhecem mais.

Nem sempre temos plena consciência de estarmos sofrendo algum tipo de abuso psicológico dentro da própria relação. Existem os incômodos, aquela sensação de que algo não é natural e até mesmo alguns sinais: amigos e familiares não gostam dele. Mas você se agarra a qualquer vestígio de naturalidade e a qualquer bom momento que te permita afirmar: nós temos uma linda história, existe tanto afeto aqui, fomos tão felizes naquele fim de semana (…) não, não, aquilo não foi nada de mais, somos apenas um casal com mais problemas que outros por aí, e isso é um mérito, pois significa que temos mais força e garra para manter essa relação que enfrenta tantas dificuldades. Já chegamos tão longe…

Eu consegui sair dessa relação, ainda sem plena consciência da conjuntura toda. Acho que restou um pedacinho de mim que não se anulou por completo e conseguiu gritar: corra, moça, corra! Saí, ainda cega. E cega segui pra frente, que era pra onde eu sabia andar. Sigo ainda, só que hoje mais lúcida, mais forte. Ainda carrego os ecos de ter vivido um relacionamento abusivo e enfrento a difícil tarefa de aprender a ser o que se é de novo. Mas sigo, e agora sei que não estou sozinha. Sigo junto com todas as mulheres.

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