Que tipo de amor você ensina para os seus filhos?

Relato enviado anonimamento pelxs nossxs leitorxs.

Isso vai ser difícil de escrever e eu sei disso porque eu estou parada escrevendo e apagando vários e vários parágrafos seguidamente sem conseguir encontrar as palavras certas para expressar o que quero dizer. Não quero que esse relato se torne algo “vitimista” apesar de ser escrito pela vítima, também não quero que seja necessário colocar nele um aviso de gatilho ou algo assim, mas é algo que eu preciso tirar do peito por várias razões, algumas delas não centradas apenas na minha melhora psicológica, mas também espero poder ajudar garotas jovens como eu era.

Eu fui abusada na adolescência. Sim, eu sei que é estranho ler isso de forma tão clara e é estranho para mim falar também, me vem um nó na garganta muito grande só de pensar no assunto, mas é algo que precisa ser falado, principalmente hoje em dia onde a informação que chega nas mãos das nossas jovens nem sempre vai beneficiá-las.

Não foi um estupro, nem nada concretizado fisicamente. Eu tinha entre 13 e 15 anos – não me recordo com precisão, mas não foi nem mais cedo nem mais tarde que isso – estava em um momento confuso da adolescência onde tinha muitos problemas familiares em especial com meu pai, homem este cujo até hoje não nos damos nem um pouco bem. É um pouco difícil descrever a dinâmica deficiente da minha relação com ele, mas desde sempre dizemos coisas perversas um para o outro, coisas que, depois de um tempo, eu parei de dizer e comecei somente a ouvir. Era uma dinâmica de relacionamento onde eu estava sempre tentando alcançar a sua aprovação e ele, sempre prostrado em um trono inalcançável, mostrava quão patéticas eram minhas tentativas. Não importava a nota alta em Língua Portuguesa, pois não era Matemática; E se a nota alta viesse em Matemática também não valia nada, pois era uma escola pública; Não valia nada escrever muito bem, pois nunca viveria disso; Pouco importava meu livro escrito, era só uma distração; Se pensasse diferente dele tudo virava um pandemônio e era censura atrás de censura, mesmo que discreta. A depressão chegou e tudo piorava, pois eu era “a preguiçosa que queria chamar atenção de todos e colocar a culpa que era minha nele” ou então “a menina ingrata que quer que o pai vá embora”.  Desde sempre eu entendi que o amor era isso: um jogo de interesse e poder, onde eu só seria amada se seguisse um “roteiro”. Eu me desfiz e refiz várias vezes tentando alcançar o amor – que para mim significava algo como a perfeição –, mas eu não percebia que aquilo não era minha culpa, eu engolia toda a frustração para mim quando o ouvia dizer que eu não o amava enquanto me destruía para conseguir que ele só parasse de dizer coisas ruins.

A parte importante dessa história a que quero me focar é: que tipo de amor você anda ensinando para os seus filhos?

Sei que é difícil entender a cabeça de um abusador, mas saiba que abusadores são pessoas extremamente inteligentes. Eles estudam a sua relação com o mundo e usam as deficiências dessas relações para conseguirem o que querem e no meu caso, o meu abusador usou o meu relacionamento ruim com meu pai.

Foi um homem bem mais velho que conheci na internet e rapidamente ele me envolveu em uma lavagem cerebral terrível, ele entendeu que eu queria aprovação e foi isso que me deu no início e, assim que entendeu minha depressão e minhas relações deficientes, começou a cobrar pela aprovação, pois tinha certeza que eu pagaria por ela. Quando recusei seu preço ele ameaçou entrar em contato com meu pai e dizer mentiras, contar a ele coisas que eu nunca fiz e foi com uma única frase que ele me fez entender que era tarde para sair dali: “Em quem você acha que ele vai acreditar? Em uma adolescente ridícula como você ou em mim? ”. Esse homem me fez acreditar que ele me amava, que aquilo era normal e que tudo que ele fazia era porque tinha muita admiração por mim, mas era mentira… Ele era só mais um homem nojento e perverso que terminou de bagunçar minha cabeça.

Quando meu pai descobriu, finalmente, eu me senti péssima, envergonhada, humilhada, principalmente porque – se prepare para não ficar surpresa – a culpa foi atribuída a mim. Eu fui a garota que fez aquilo para atingir a família, para chamar atenção. Ainda existem resquícios dessa culpa que pipocam nas reuniões de família e todos falam como se aquilo nunca tivesse sido um abuso.

A mensagem que deixo aqui é: o amor que você ensina e demonstra para suas filhas e filhos vai influenciar a vida delas e deles positiva ou negativamente. Se você demonstrar que amor é um jogo de poder, serão frágeis até passarem pelo mesmo que eu – ou até pior. Nós erramos como seres humanos quando usamos o amor como moeda de troca ou como justificativa para crimes desumanos muitas vezes cometidos contra mulheres, mas erramos mais ainda quando ensinamos – literalmente ensinamos – nossas crianças a aceitarem de peito aberto esses comportamentos: fazer isso é tirar das nossas futuras mulheres o poder de lutar, de serem donas de si e isso é inaceitável.

Por favor, ensine que o amor deve manter as pessoas seguras e confiantes e elas nunca aceitarão algo menor que isso.

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