Uma lembrança

Enfim. Até um 1 ano e meio atrás, eu pensava que tinha perdido a virgindade com um namorado que tive em 2005, que tinha sido tudo lindo e romântico. Até me sentia privilegiada, já que a maioria das mulheres não têm uma história dessas pra contar.

O caso é que, de repente, assim mesmo, do nada, sem nenhum gatilho, me veio à mente uma lembrança horrível e que eu ainda me assusto com ela. Uma lembrança que está afetando muito a minha vida.

Meu namoro, na época, era aberto e eu saía sem o X às vezes e ficava com outros caras. Nunca tinha passado de beijo e abraço e, muito raramente, um amasso que nunca chegava a tocar nas genitálias. Um dia eu bebi bastante (na verdade, pro meu padrão de fim de semana da época, nem era tanto assim) e fiquei com um rapaz, amigo de uma amiga, que eu sempre achei muito atraente.

O rapaz fazia faculdade na mesma universidade que eu e a gente sempre ficava conversando. O caso é que, eu soltei que eu sentia muita atração por ele e que já quis transar com ele (a gente já estava ficando, mas nem tinha rolado amasso nem nada, ainda). Minha casa ficava perto da praça onde estávamos e eu costumava usar o meu banheiro, no lugar de ir no banheiro do bar. Ele foi comigo (ele já tinha ido na minha casa muitas vezes).

Começou a rolar uns beijos mais quentes e ele quis tirar a minha roupa. Eu deixei, mas, depois, eu desisti de dormir com ele. Eu queria, mesmo, era ter a minha primeira vez com o tal namorado da época. O cara insistiu e acabou “fazendo o que queria”.

No outro dia, acordei e fui pra aula. Muitas amigas comentaram que ele espalhou pra todo mundo que “tinha me comido” e que não tinha mais nenhuma virgem no campus. Eu não entendia, por que eu não me lembrava que a gente tinha transado. Eu só me lembrava de ele ir até a minha casa comigo e da gente se beijar no portão. Na minha cabeça, eu tinha usado o banheiro e ido dormir em seguida… bem… não foi o que aconteceu.

Contei para o meu atual namorado, que recebeu a “confissão” muito bem. Não me julgou e nem fez tempestade em copo d’água. O problema é que, depois disso, dificilmente eu tenho vontade de fazer sexo. Eu amo muito o meu atual namorado, estamos juntos faz muito tempo e ele não pressiona, nem usa o fato de a gente raramente transar nas brigas.

O problema é com relação a mim mesma. Me sinto fisicamente mal sempre que tenho prazer com alguma coisa que envolva meu corpo. Nunca me senti privada dos meus “direitos sexuais”, nem pelos meus pais. Meus namorados sempre puderam dormir na minha casa. Provavelmente este rapaz nem faz ideia que estuprou uma menina (eu tinha 20 anos, agora tenho quase 30), nem faz ideia do mal que causou depois de tanto tempo… Só me sinto aliviada pela certeza de que ele não me passou nenhuma doença venérea (graças às doações de sangue frequentes e os exames preventivos anuais no ginecologista). Ele deixou meu coração doente (não sei em que medida isso é pior ou melhor que a primeira opção).

Obrigada por lerem até aqui. Espero que meu depoimento ajude outras meninas a entender o que aconteceu. Mais ainda, espero que ajude outras meninas a serem firmes com o “não”, mesmo que este “não” apareça num momento em que elas pensem que não tem mais jeito.

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