Unam-se

Entrei no ônibus para ir ao trabalho, estava quase vazio a não ser por algumas senhoras tagarelas sentadas nos bancos preferenciais. Encontrei meu lugar preferido escondida do Sol e coloquei os fones de ouvido como sempre faço. Na próxima parada uma menina entrou no ônibus. Parecia estar indo à escola: carregava uma mochila grande nas costas e usava uma camisa branca com um brasão que parecia um uniforme, era aparentemente mais nova do que eu, talvez uns quinze, dezesseis anos.

Na outra parada um homem subiu no ônibus. E tudo começou a ficar estranho.

Ele pagou a motorista e passou pelos bancos lentamente, olhando as pessoas, passou por mim e encarou a menina que acabara de subir e se sentou ao lado dela. Não dei muita importância, pois pensei que pudesse ser um vizinho, um amigo ou alguém que ela conhecesse. Depois de um tempo comecei a notar uma movimentação estranha: a garota parecia encolhida entre o homem e a janela, quase jogada contra o vidro. O homem abrira as pernas, a prendendo no lugar onde ela estava, e se inclinava para ela colocando o braço ao redor do banco e aproximando seu rosto cada vez mais perto.

Achei estranho e tirei meus fones, sem encarar, mas prestando atenção no que acontecia. Não conseguia ouvir muita coisa, mas quando olhei de canto percebi que ele esticava a mão e a colocava na coxa dela, quase onde não devia, e a garota tentava tirá-la dali sem sucesso.

Em um segundo diversas coisas passaram na minha cabeça. Eu pensei em fazer um escândalo como eu normalmente faria se aquilo estivesse acontecendo comigo, mas tive medo por mim e por ela: o homem parecia ter pelo menos meio metro a mais, era claramente mais forte, uns trinta e poucos anos… E se ela descesse do ônibus antes de mim e ele resolvesse a seguir furioso e inconformado? Eu poderia chamar a motorista, mas novamente, ele poderia ficar furioso e fazer algo contra ela se ela descesse do ônibus.

Então olhei para a menina encolhida no banco e me levantei, indo até ela e fingindo a conhecer. Perguntei como estava a sua mãe, o cachorro… Ela pareceu entender e, apesar do medo estampado no rosto pálido, ela tentou ser convincente e conversar comigo como se me conhecesse. O homem me encarava com uma expressão quase indignada e eu perguntei se ele poderia trocar de lugar comigo, como se eu não tivesse visto tudo que ele estava fazendo.

O homem me olhou por alguns segundos, claramente percebendo que eu queria protegê-la, se levantou ainda me encarando e depois se sentou em outro banco e bufou como se achasse um absurdo.

Me sentei do lado da garota, que se ajeitou na cadeira e me deu um sorriso torto como quem agradece, mas está com muita vergonha. Ela permaneceu a viajem inteira olhando para baixo, mas quando o homem desceu do ônibus alguns pontos depois ela desabou.

A garota chorava e tremia muito, seu rosto estava vermelho e ela não parava de apertar a mochila que estava no seu colo. Ofereci a mão para ela e ela a agarrou como se aquele fosse seu único apoio e olhou pra mim, com um olhar desesperado que despedaçou meu coração.

Quando chegamos ao terminal eu a guiei para fora do ônibus ainda segurando suas mãos – ela não parecia disposta a soltá-las e eu não queria tirar o conforto dela – então ela se encostou em umas grades e eu tentei acalmá-la para que ela não andasse pelo terminal chorando, assustada.

Disse a ela que estava tudo bem, ele já tinha ido embora e ela estava segura, que não era culpa dela e ele não iria mais a tocar. A orientei a fazer um escândalo se isso acontecesse de novo ou, se ela estivesse sozinha, pra ela ligar para a polícia ou chamar alguém, entrar em alguma loja, qualquer coisa que fizesse o agressor desistir. Enquanto eu falava ela assentia com a cabeça, e ficava mais calma. Então eu disse que coisas assim infelizmente acontecem, e ela teria que arrumar um jeito de lidar com essas situações.

Dizer para aquela menina – mais nova, completamente apavorada e totalmente confusa – que ela deveria lidar com aquilo, lidar com um desconhecido tentando tocá-la sem permissão, doeu dentro de mim. Eu queria que ela nunca tivesse passado por aquilo e nunca precisasse lidar com nada disso.

Quer dizer… Estamos em pleno 2017 e ainda temos que lidar com homens (que não gosto de chamar de homens, são monstros) que não entendem um “não”, ou – pior ainda – que apesar do “não” continuam insistindo, tocando, intimidando. Ainda temos que lidar com o fato de poder sofrer esse tipo de agressão (ou pior) enquanto vamos à escola e ao trabalho.

Por coincidência a garota ia pegar o mesmo ônibus que eu e, antes de nos despedirmos quando dei sinal para descer, ela apertou minha mão e agradeceu. Eu sorri e então fui embora. Não precisava de agradecimentos, eu não vi aquilo como um “ato heroico” ou coisa do tipo, pois o que eu fiz não foi somente sororidade, foi uma obrigação como ser humano.

Isso é um desabafo, mas também é um aviso: unam-se. Ajudem umas às outras, pois a garota que está em uma situação parecida pode não ter a coragem que você tem. Nunca deixem que alguém as agrida dessa forma, façam um escândalo, façam a sua voz ser ouvida. Só a gente sabe o que a gente passa e se a gente não proteger uma às outras, quem vai?

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