Vítima, mais uma vez

Segue relato anônimo de uma seguidora. Aviso para filmagens sem o consentimento da vítima.


Hoje eu fui vítima do machismo, de novo…

Estava na Crocobeach com a minha mãe e fui fazer massagem numa barraca que meu pai sempre fez e gosta muito.

Eu quase nunca vou a praia porque me assusta muito os homens me olhando e me abordando, então como sempre por cima do biquini fui de short e blusa. Mas dessa vez eu precisava de ar livre, de mar, descansar com minha mãe após uma semana mofando em casa doente.

E é claro que eu chego e escolho a mesa de massagem mais distante, da quina, mais escondida, eu fico com a cabeça na direção da abertura da barraca e coloco minhas pernas na direção contrária, virada para ‘parede’ e peço para ser a massagista mulher.

Então que no fim da massagem eu escuto duas mulheres conversando “tu viu? o cara veio aqui pedir para filmar a menina” “eu vi, eu estranhei porque ela tinha vindo com a mãe, não com o pai”, “ele ficou aqui filmando ela” nesse momento eu já tremo completamente, fico assustada, sinto meu corpo congelado, acaba a massagem e vou pra mesa.

Eu falo para minha mãe o que ouvi, e que estava esperando que fosse outra história, de outro dia, qualquer coisa. Eu fico na mesa enquanto ela vai perguntar o que aconteceu, já morrendo de medo e tremendo.

Ela volta com a resposta: um homem tinha sim entrado na tenda, filmando, segundo a conversa que eu ouvi ele tinha pedido para me filmar, mas segundo o que disseram para minha mãe ele tinha entrado já filmando e foi me filmar, no que a minha massagista desconfiou e tentou ficar na minha frente, mas que me filmaram.

Eu lá, de biquini, de costas com o laço de trás aberto, como se faz nas masagens com um pano no olho, completamente vulnerável e alheia a situação, ninguém fez nada, chegou um homem e me filmou.

Esse filme ele pode estar usando para me ver agora, sem a minha autorização, sem meu consentimento, mas comigo exposta nele. Pode estar compartilhando no whatsapp com quem ele queira, rindo, fazendo comentários sobre mim. Pode colocar num player.

E eu aqui, não bastasse tudo que eu já passei, agora tremendo, assustada, com o estômago frio e embrulhado o dia todo de que apesar de todas as feridas que o machismo já me fez, agora tem essa filmada, por aí.

E eu aqui, sem poder fazer nada, sem saber quando vai acontecer de novo igual ou pior. E com meu trauma de praia que estava finalmente passando agora ficou muito maior.

Era para ser um momento de descanso com minha mãe após uma longa semana doente de cama sem poder mesmo ir para a faculdade, nas duas últimas semanas de aula, provas e entregas de projetos e trabalhos e eu só consigo tremer, ficar agitada e nervosa, com medo, com o estômago embrulhado e frio, e com meu corpo congelado.

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Não bastasse isso, mais de uma hora antes eu fui para o mar com minha mãe, ela ficou na areia me vendo e eu fiquei pulando ondas. Eu sentia um homem me olhando o tempo todo e me seguindo pros lados que eu ia, eu fiquei com medo e saí. Cheguei na areia e falei para a minha mãe, ela disse “não filha, ele tá olhando e tomando conta do filho dele, que tá aqui”, “mas eu tô com medo dele”, eu disse. Eu pensei que podia ser medo da minha cabeça por causa de experiências anteriores e voltei para o mar, agora muito mais longe dele.

Quando eu vejo, ele estava do meu lado de novo. Mas com o filho perto. Eu pensei “não, deve ser coisa da minha cabeça, ele deve estar só acompanhando o filho, ele não deve estar me seguindo com o filho dele aqui, ainda mais porque ele deve estar dando atenção ao filho”.

Mas ele chegava cada vez mais perto e uma hora eu vejo minha mãe em pé na areia, sinalizando para que eu saísse dali. Eu saio e ela me diz “ele tava te seguindo mesmo filha, se dependesse dele o menino tinha se afogado, ele não tava nem aí, tava olhando pra você o tempo todo e te seguindo, abestalhado, por isso que não é bom você ficar nunca sozinha, ao menos eu podia fazer alguma coisa se ele chegasse mais em cima de você”.

E eu sinto os olhos dele, ele chegando perto, meu medo. Eu sinto a impotência de não poder fazer nada sem ser caçada, objetificada, usada como entretenimento.

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Na barraca que meu pai sempre vai, de massagem, os homens estavam lá, despreocupados, deitados na frente da porta, de pernas abertas viradas para a porta, nem aí. Os homens mergulhavam nas ondas despreocupados.

Mas eu não sou homem para ficar tranquilo, eles são um perigo constante para mim sobre o qual eu devo estar sempre alerta, sem descanso, assustada, em todo e qualquer lugar, sem um dia tranquila com minha mãe após uma semana doente.

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Adendo: minha mãe chegou a falar com policiais na Crocobeach, eles disseram que já tinham levado homem direto para a delegacia dali pelo mesmo motivo, filmar mulheres sem consentimento em situação vulnerável, mas como ninguém sinalizou na hora eles não podiam fazer nada. Mais uma vez o agressor sai impune.

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Você passa a vida toda tomando todo o cuidado do mundo para que nada do tipo aconteça com você, que você morre por dentro toda vez que expõem uma mulher ou menina contra a vontade dela, mas isso vem e acontece, porque no fim, a vítima não tem poder ou escolha alguma… parece que não importa o quanto você se proteja, o machismo sempre acha um jeito de te atacar quando você menos espera. O que mais me angustia dessa vez é saber que isso foi registrado e está por aí, sem minha autorização, mas comigo para que o abusador delibere quem pode me ver.

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eu tô muito cansada dessas coisas e eu tô muito assustada
porque dessa vez
diferente de todas as que já sofri algum tipo de abuso
ela foi registrada
tem um vídeo meu
que um abusador pode escolher o que bem fazer dele
parece que essa dor não é só minha
ela é exposível
que eu não posso esquecer porque ela sempre vai estar por aí
eu não sei como, eu não sei onde, eu não sei com quem

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Eu não acredito que está dando uma da manhã e eu ainda não consegui ir tomar banho porque estou com medo de me despir. Toda hora que me lembro de ir tomar banho minha barriga embrulha, meu corpo fica congelado, eu fico ansiosa e assustada.

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