11/07/2014 - Por Projetos

Cacheando em Salvador

“A mocinha quer saber por que ainda ninguém lhe quer. Se é porque a pele é preta ou se ainda não virou mulher. Ela procura entender porque essa desilusão. Pois quando alisa o seu cabelo não vê a solução” (Marias, Karol Conká)

Em nossa sociedade, é difícil ser mulher. É ainda mais difícil ser mulher negra.
E é pelo empoderamento dessa mulher que surgiu o projeto Cacheando em Salvador. A valorização da estética negra não deve ser ignorada, pois ela é uma ferramenta para a valorização de indivíduos negros e suas identidades. Não é uma questão pequena puramente estética, mas sim um grito de liberdade.
Com o propósito de valorizar o crespo, símbolo da luta de resistência contra os padrões de beleza eurocêntricos e racistas, o projeto terá seu primeiro encontro presencial em Salvador, no dia 27/07/2014, às 9h, no Parque Matropolitano de Pituaçu.
Conversamos com as administradoras do Cacheando.
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NAQ – Como surgiu a ideia do projeto Cacheando em Salvador?

CS – Existem muitas páginas, canais e blogs que tratam de cabelos, em especial os cacheados/crespos, mas tratam apenas dos cuidados, da saúde deles. E a partir disso foi que surgiu o desejo de fazer algo mais, de tratar o assunto como um “ativismo de cabelo”, já que não é apenas estética ou cuidados, é sobre empoderamento, aceitação e identificação. Além do mais, Salvador é a cidade com o maior número de negros fora da África e o maior número de negros no país, isso nos impulsionou mais a nos unirmos (As três adms) e começarmos com esse trabalho lindo.

NAQ – Vocês receberam algum tipo de crítica quando o projeto foi lançado?

CS – Recebemos algumas críticas quando o projeto foi lançado e ainda hoje como coisas do tipo “pro racismo acabar precisamos parar de falar nele”, críticas que orbitam em torno disso, de insinuar que exageramos ou inventamos, enxergamos racismo onde não tem. Mas são de pessoas que em geral se posicionam contrárias ao movimento negro, e felizmente, são menores do que os elogios e incentivos que recebemos

NAQ – Como vocês acham que a sociedade enxerga essa iniciativa de empoderamento da mulher e, prioritariamente, da mulher negra?

CS – A sociedade como um todo é machista, e se apresenta bastante hostil tanto o movimento quanto à prática de empoderamento dessas mulheres negras no dia a dia, se ousando a ocupar os espaços. Quando falamos de cabelo, soa para alguns, ainda mais que nos situamos dentro de um movimento feminista, como algo supérfluo e sem valor, porém acredito que a partir da mudança de mentalidade primeiramente das mulheres em terem outra relação consigo mesmas e com seus corpos, é possível que esse diálogo seja mais respectivo e respeitoso por toda a extensão da sociedade.

NAQ – Vocês identificam dentro do movimento alguma influência do feminismo?

CS – Sim, desenvolvemos o feminismo negro, que é muito mais amplo do que a discussão estética, dos nosso cabelos, mas passa por ela também. Obviamente a opressão de cor, e do cabelo crespo ocorre para homens e mulheres, mas é muito fácil reconhecer também a obrigatoriedade que recai sobre as mulheres de terem seus cabelos domesticados.

NAQ – Vocês têm a ideia de espalhar o movimento para outras cidades do país?

CS – Esperamos que sim, que o movimento se espalhe por todo o país, natural talvez que um dos primeiros lugares onde ele surgiu, e talvez onde tenha a maior força seja na Bahia, o maior estado negro do país, porém os negros e negras estão em todo o território nacional, e apesar do sul, por exemplo, ter esse menor percentual, há também um maior desenvolvimento de movimentos fascistas, e por isso também é importante que o movimento ocorra. Esperamos colaborar com a construção dele em todo o país, no que nos for possível fazer!

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