16/09/2015 - Por Projetos

Filha da Índia

Ontem fomos ao lançamento de um documentário chamado India’s Daughter (Filha da Índia), que conta a história de uma estudante de medicina de 23 anos que sofreu um estupro coletivo dentro de um ônibus em Dezembro de 2012 em Deli, na Índia. O estupro foi extremamente brutal, resultando na morte da jovem alguns dias após essa barbaridade.

Depois da exibição do documentário, tivemos o privilégio de participar de uma sessão de perguntas e respostas com a diretora do filme, a britânica Leslee Udwin. Uma mulher incrível e uma grande inspiração na luta diária, difícil e necessária que é a promoção dos direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres.

O filme é ótimo, pesado e retrata perfeitamente a realidade sobre o tema na Índia (apesar do problema existir em absolutamente todos os países do mundo, infelizmente). Fiquei pensando em outro adjetivo para tentar descrever o documentário mas “pesado” parece ser o mais adequado. Saímos do cinema sem conseguir explicar direito o que estávamos sentindo – era uma mistura de raiva, tristeza, impotência e ao mesmo tempo satisfação e esperança por ter conhecido mulheres com iniciativas incríveis para colocar um ponto final nesse problema.

O documentário conta com o apoio da Plan Internacional, que está promovendo uma campanha chamada “Quanto Custa a violência sexual contra meninas?”. A campanha faz parte da ação global “Por Ser Menina” que pretende mostrar os problemas e desafios que meninas de países pobres e emergentes sofrem todos os dias.

Se você está aqui no nosso site lendo esse post, provavelmente vai achar super óbvio o que eu vou falar agora, mas vamos lá: campanhas/iniciativas/ações como essas são EXTREMAMENTE importantes não só para dar visibilidade a um assunto que, ainda em 2015, gera muito tabu, vergonha e culpabilização da vítima, mas também para ajudar diretamente milhares de crianças, contribuindo para um futuro cada vez mais justo e seguro para essas meninas.

A Plan Internacional, através da ação “Por ser menina” tem o objetivo de combater a discriminação de gênero, promovendo o direito das meninas através de educação e desenvolvimento de habilidades em zonas de pobreza. No Brasil, mais de 80.000 crianças já foram beneficiadas com seus programas. São em programas como esses que encontramos a solução para a desigualdade de gênero, a educação.

No bate papo, a diretora do filme nos contou que enquanto entrevistava os estupradores para o documentário, percebeu que todos faziam parte de uma classe social extremamente pobre e que não tinham frequentado a escola, então ela pensou “aí está o problema, falta de acesso à educação” – mas então ela foi entrevistar os advogados desses criminosos e percebeu que eles reproduziam os mesmos discursos dos estupradores: “ela não podia estar andando sozinha as 20:30”, “ela não deveria ter lutado contra eles” e tantos outros absurdos que torcem o estômago da gente só de lembrar. Foi assim que ela chegou a conclusão que não é somente o acesso a educação que vai mudar a realidade e o pensamento da sociedade e sim o conteúdo do que se ensina para as crianças (ela está com uma campanha para fazer isso com a ONU, trazendo um currículo escolar que trabalhe isso. Infelizmente, só achei links em inglês, mas você pode conferir mais informações aqui)

O que me choca é que isso é tão óbvio. Por que continuamos ensinando os meninos que eles podem fazer tudo que querem porque são meninos? Que eles não precisam ajudar com as atividades domésticas? Que eles não precisam ter horário para voltar para casa? Por que os pais continuam achando lindo quando seu filho arruma uma namoradinha, mas acham um absurdo quando a filha faz o mesmo? Por que ainda ensinamos que se alguém mexer com você na rua, você é obrigada a gostar, afinal ele está te ‘elogiando’, não é? E se você não gostar, você só é uma dramática “mal comida”. Por que ainda achamos importante saber que roupa a menina estava usando quando foi abusada? Ou chamando outras mulheres de putas e vadias porque elas gostam e fazem sexo sem compromisso, quando isso é tão normal nos homens? Por que ainda questionamos se uma mulher casada pode ser estuprada pelo marido? Afinal ela existe no casamento para isso, né? Servir o marido em todos os sentidos, mesmo quando não está afim.

Eu sei que algumas pessoas podem ler esses questionamentos e pensar “mas calma aí, eu penso um pouco assim, mas não é por isso que eu acho certo estuprar”, pois bem querido leitor que pensou isso, vou tentar explicar.

Esse tipo de pensamento reforça a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens, que elas tem menos direitos, que elas não podem e não devem fazer certas coisas simplesmente porque são mulheres.

Quando você reforça esse tipo de pensamento, você também reforça que por serem inferiores aos homens, um homem pode fazer o que bem entender com elas, que o homem tem absolutamente todo o poder do mundo e por isso as mulheres devem obedecer, sem questionamentos. Aí talvez você pense “Nossa, mas como você é exagerada”, não sou. Se você pensa um pouquinho assim, porque em vez de entrar na defensiva achando que é tudo exagero e mimimi, você não se questiona? Mas faz isso de verdade. Para, pensa, leia, pergunte, se informe. Tá aí uma atitude super transformadora que pode ajudar a combater todos esses horrores, uma pessoa de cada vez.

É, afinal, nessas pequenas atitudes e pensamentos que encontramos o machismo e vemos como ele atinge e molda todos nós. Homens e mulheres, ensinados a pensar nessa maneira – e só é necessário somar isso a um pouco mais de raiva, um pouco mais de vontade de mostrar seu poder, que essas palavras e pensamentos se transformam em ações contra as mulheres.

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