26/01/2016 - Por Referências

Carol (2015)

Atenção: esse texto contém spoilers da trama do filme.


“You seek resolutions because you are young” (você busca resoluções porque é jovem)

Carol é uma gota d’água no meio do deserto. Uma pequena gota em meio à areia pesada do deserto. Você olha para o horizonte e só enxerga areia, areia, areia. No entanto, apesar de pequena, essa gotinha é poderosa. Ela não deixa que a tempestade de areia seja um empecilho, e faz com que o horizonte – mesmo distante – não pareça algo inatingível. Carol é uma história poderosa que restaura minha fé em Hollywood, uma crença quase cega de que um novo horizonte de tramas emocionantes nos espera. Um sopro de vida nesse deserto de histórias que não representam a comunidade LGBQT.

As definições de fé no cinema foram devidamente restauradas.

Escritoras não eram muito numerosas nos anos 50. Escritoras que escreviam histórias sobre amor entre duas mulheres eram mais raras ainda. Patricia Highsmith foi uma vela na escuridão que assolava a literatura. A bicha teve um de seus romances, Pacto Sinistro, adaptado por ninguém mais, ninguém menos, do que Alfred Hitchcock! Porém, O preço do sal desvia completamente dos thrillers que ela geralmente costumava escrever. Aqui, temos a figura de Carol Aird – uma misteriosa mulher de cabelos louros e com um casaco de pele enorme – que aparece na loja de departamento onde Thérèse Belivet trabalha para comprar uma boneca para sua filha. As duas trocam olhares e pronto, Thèrèse está completamente rendida ao charme misterioso da compradora. Pela descrição que Highsmith nos fornece, é impossível ficar imune ao feitiço de Carol. Detalhe: Carol tem uma filha e está se divorciando. Toca fogo nesse cabaré, Patricia!

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Patricia Highsmith

O preço do sal não causou rebuliço apenas pela temática, mas também pelo fato de que carrega um final feliz consigo. A personagem principal não morre para se redimir de seus pecados. Um homem não a salva de seu “desvio de comportamento”. Não, nesse romance as personagens principais terminam juntas. Dá para acreditar? Nos anos 50? Quase não dá! Muitas pessoas escreveram para Patricia relatando o quão felizes ficaram com aquele final. Pessoas que amavam outras do mesmo gênero também tinham direito à felicidade.

A autora inspirou-se na própria vida para escrever O preço do sal. No livro A talentosa Highsmith, Joan Schenkar nos conta que uma mulher casada, “loira e elegante”, de Nova Jersey, enfeitiçara-a quando ela era vendedora temporária na loja de departamentoBloomingdale’s. Kathleen Wiggins Sen tinha ido até a seção de bonecas, onde Highsmith trabalhava, para comprar uma boneca para a filha. Pat (fazendo a íntima) sentiu-se tão atraída por ela que anotara o endereço de entrega do brinquedo e mandou um cartão de natal para Kathleen. A mulher misteriosa nunca respondeu. O que teria acontecido se Kathleen tivesse respondido está imortalizado nas páginas de O preço do sal. Patricia começou a escrever o romance freneticamente. Como ela mesma relata: “fluiu da minha caneta como se viesse do nada – começo, meio e fim”.

Com todo esse background, dá para imaginar minha ansiedade para assistir a esse filme! A surpresa não poderia ter sido melhor: Carol transpõe o livro respeitando a “verdade” do mundo criado por Patricia Highsmith. Algumas coisas foram modificadas, é claro, mas a verdade permanece.

A transposição do clima da história para a tela do cinema foi algo que me arrepiou. Não se trata apenas de reproduzir os anos 50: há algo muito maior, que é a maneira como a trama funciona. Em O preço do sal, temos a tensão sexual crescente entre as personagens, aquele clima de que “algo vai acontecer mas não acontece”. A cada capítulo elas, vão se aproximando mais, nos deixando mais ansiosos. Carol respeitou – e demais! – o ritmo da história de Patricia. Já em relação à tensão sexual, a câmera de Todd Haines nos presenteia com detalhes tão pequenos de nós dois, closes na boca das personagens, nos cabelos, nas mãos. Sutilezas que nos fazem entender como Thérèse se sente perto de Carol.

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Filmes que retratam relacionamentos amorosos entre mulheres, geralmente, são bastante problemáticos. Uma mulher lésbica ou bissexual com certeza já ouviu que falta um homem em sua vida, que ela está com outra mulher porque ainda não conheceu o homem ideal. Declarações como essas deslegitimam todos os dias a orientação sexual dessas mulheres. Não se admite que possa existir uma relação afetiva e muito menos o prazer sem o homem. Muitos filmes, como Minhas mães e meu pai, reproduzem a figura do homem salvador. Ou daquele homem que chegará e provocará a discórdia. SimoneAzul é a cor mais quente são alguns exemplos desse tipo de filme. Mas Carol não. Carolnão tem a figura do homem salvador. Aliás, todos os homens nesse filme estão no seu estado mais babaca possível. Não há um que se salve. O “amigo” de Thérèse, todo boa pinta, a beija sem o seu consentimento. Richard, affair de Thèrèse, é bilesbofóbico. O marido de Carol, Harge, pune o “desvio de comportamento” da ex-esposa tirando-lhe a guarda da filha.

As cenas de sexo entre mulheres também são bastante problemáticas. Azul é a cor mais quente, o último grande filme sobre relacionamento amorosos entre mulheres, continha cenas constrangedoras de sexo. Por favor, não confundir constrangedor com conservador. O que quero dizer é que as cenas entre as personagens Adèle e Léa me deram a impressão de terem sido rodadas para satisfazer o olhar masculino. Nove minutos de sexo que soava automático. Depois, ao ler as entrevistas das atrizes dizendo que tinham sido sofrido abusos por parte do diretor, qualquer admiração que eu poderia ter por esse filme desapareceu. Já em Carol, a tão esperada cena de sexo entre as personagens é de um envolvimento e delicadeza ímpar. Como disse acima, os detalhes tão pequenos de nós dois é o que faz desse filme uma gota de esperança entre os filmes LGBQT de Hollywood. O corpo das atrizes trabalha para envolver o espectador no que elas sentem; não as objetifica. Não as torna objetos do desejo masculino. Carol prova que três minutos de sexo valem mais do que nove.

Ao contrário de vários filmes sobre relacionamentos lésbicos ou bissexuais, Carol nos mostra os problemas que as personagens enfrentam. Se hoje as mulheres ainda sofrem preconceitos, nos anos 50 as coisas eram ainda piores. O filme de Todd Haines não procura minimizar os problemas apresentados por Highsmith no livro. Pelo contrário, lá está o marido de Carol tentando tirar-lhe a filha por causa de seu “desvio de comportamento”. Em uma das cenas mais tocantes do filme, vemos Carol em silêncio enquanto advogados e juízes decidem se ela pode ter ou não a guarda da filha. O advogado dela alega que a personagem está “curada” e que nunca mais verá Thérèse. Alguns minutos depois, Carol  abre a mão da guarda de sua filha para ser ela mesma.

Por fim, quando os indicados ao Oscar foram anunciados, Carol não estava presente na categoria Melhor Filme. Para mim, essa é uma grande prova de que Hollywood não está pronta para colocar um filme sobre um relacionamento amoroso entre mulheres para concorrer a melhor filme. É como se eles tolerassem o filme em outras categorias – Carolfoi indicado a seis delas. Olhando a lista de indicados desse ano, sim, Carol merecia estar lá, muito mais do que outros filmes. Porque esse filme fala sobre representatividade, sobre muitas pessoas que sofrem os mesmos preconceitos que Carol e Thérèse enfrentaram. Elas passam por isso para ter direito à felicidade. Uma felicidade que, para algumas pessoas, hoje em dia, ainda é clandestina. Dentro do armário, escondida de todo mundo.

Carol abre a porta do armário e mostra que lá dentro existe de tudo: felicidade, sofrimento, amor. E é por isso que ele merece ser celebrado. Nunca me senti tão bem representada em um filme. Quando esse objetivo é atingido, não há falta de indicação ao Oscar que ensombre isso.

Revisão do texto: Pâmela Lima


Jessica Bandeira

Tradutora profissional francês-português e inglês-português

Professora de francês

Colaboradora do Cine Espresso

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