24/11/2015 - Por Referências

O episódio final de Buffy e o empoderamento feminino

Esse texto foi escrito por Mariana Guerra, publicado originalmente no seu blog aqui.


 

Comecei a ver Buffy há algumas semanas (obrigada, Netflix) e me apaixone logo de cara. Assisti o episódio final anteontem e, infelizmente, não achei nenhum texto relacionando esse episódio ao feminismo. Não é possível que só eu tenha percebido isso.

Para quem não conhece, caso isso seja possível, Buffy é uma série americana que foi ao ar entre 1996 e 2003. A série começa com ela e mudando com a mãe para Syunnydale, Califórnia, após uma série de incidentes e o divórcio dos pais. Buffy tinha apenas 15 anos quando descobriu que era a Escolhida, a slayer (ou caça-vampiros, em português) e ela era guiada por um Sentinela (Watcher), ligado ao Conselho de Caça-vampiros. A série mostra as aventuras e desafios enfrentados pelos dois e seus dois amigos, Xander e Willow.  Ao longo de 7 temporadas, a série aborda diversos temas do mundo adolescente até o amadurecimento, passando por sexo, homossexualidade, total ausência do pai, magia, demônios variados, relacionamentos conturbados e diversas tentativas de apocalipse. Buffy foi uma das principais séries com protagonismo feminino na década de 90 e passa lindamente no teste de Bechdel (quantos filmes da mesma época falham miseravelmente e ainda sim tem o protagonismo feminino? Acho que, tipo todos).

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Os efeitos especiais são sofríveis, porém muito divertidos. Mas o que mais me chama a atenção para essa série é a questão feminina. O criador e roteirista, Joss Whedon, irritado com o esteriótipo das loirinhas-burras-que-morrem-primeiro-nos-filmes-de-terror, decidiu escrever uma heroína que atendesse esse padrão estético, mas que chutasse bundas vampirescas (e também masculinas). Os papéis femininos são bem construídos e complexos, com destaque para a Willow, que protagoniza diversas questões importantes na série. E os temas que as envolvem vão muito além de garotos e vampiros bonitinhos, como qualquer garota real.

De todas as séries e filmes que eu vi, é uma das poucas que não tem medo de usar a palavra “misoginia”.

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“Eu, Anya, prometo amar, estimar e honrar você, mas não te obedecer, claro, porque isso é misógino e quem você acha que é, um capitão de navio?”

Acho que um dos poucos problemas gritantes de Buffy é a ausência de personagens negros. A primeira a aparecer com alguma importância é a Kendra, e é presente em apenas três episódios. Algumas outras aparecem depois, como outras slayers e um diretor de Sunnydale High, mas ainda sim, não respeitam a proporção da realidade.

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Como eu pretendo falar especificamente do último episódio da série, eu preciso te perguntar: você já assistiu a série até o final? Se sim, siga em frente. Se não, você planeja assistir a série um dia e spoilers estragam a graça pra você?

Bom, se você resolveu seguir, vamos falar primeiro dos Homens das Sombras, que deram origem ao Conselho de Watchers. Buffy, no episódio 15 da sétima temporada, descobre que esses três homens “criaram” a primeira slayer ao colocar dentro de uma mulher a essência de um demônio, dando essa força a ela. O problema é que isso foi feito contra sua vontade, ela estava acorrentada. Buffy é assertiva nesse momento: eles violaram o corpo de uma mulher. Aqui já possibilita uma análise interessantíssima: três homens com poderes místicos decidem fazer algo para salvar o mundo dos demônios, mas esse trabalho é muito arriscado, a expectativa de vida de uma slayer é de 25 anos. O que eles fazem? Vamos tirar os homens da reta, vamos usar uma mulher!

Buffy encontra esses três magos que tentam colocar essa essência nela, ela recusa e luta contra eles. Eu acho esse momento essencial na discussão, vocês vão entender mais para frente. Mas, percebam: eles “oferecem” uma arma para salvar o mundo. Esse oferecimento não envolveu consultar a Buffy e explicar os efeitos colaterais, apenas forçaram isso nela.

E, só esclarecendo um ponto, a linhagem de slayers funciona assim: várias slayers potenciais nascem em em cada geração, quando uma morre, a próxima é ativada (ganhando uma força sobre-humana). Elas não eram pagas pelo serviço prestado, apenas os Sentinelas recebiam um salário do Conselho.

E agora, a peça essencial da discussão: o Primeiro, o chefão final da série. Tentando resumir bastante, o Primeiro é a essência primeira do Mal no mundo e ele é mais um dos vários vilões que tinham planos de destruir o mundo. Seu plano era acabar com a linhagem de slayers matando todas as potenciais e então abrir a “boca-do-inferno” em Sunnydale e libertar um exército de vampiros primitivos. O Primeiro, por não possuir forma corpórea e sólida, entrava em contato com as pessoas, se mostrando como alguma pessoa morta; foi assim que ele conquistou um aliado, o Caleb. Esse é um dos personagens que mais me dá nojo: Caleb é um padre católico misógino e serial killer de mulheres, que se baseia na bíblia para cometer tais assassinatos. Cara bacana, né?

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“Sua puta!” “Você deveria cuidar da sua linguagem. Se alguém não te conhecesse, pensariam que você é um idiota que odeia mulheres”.

Caleb e o Primeiro escondiam de Buffy uma arma desconhecida: uma foice (ou scythe, no original), que a auxiliaria a acabar com essa tentativa de apocalipse. No penúltimo episódio, Buffy, com a foice em mãos, busca o significado daquela peça. Aí nesse momento meu coração se encheu de amor e sororidade: existia uma ordem de Guardiãs que “ficava de olho” no Conselho que, afinal, a maioria era um bando de homens. Ou seja, mulheres cuidando, de longe, de outras mulheres. Elas haviam criado essa arma com a essência do poder das slayers, e haviam a escondido de todos para que um dia fosse usada nessa batalha.

Nesse momento, Caleb aparece e mata a guardiã, com raiva após a Buffy ter pego a foice. Eles lutam e acontece uma das cenas mais simbólicas desses episódios: Buffy corta ele pela metade, começando pela genitália dele.

A “misândrica sádica” dentro de mim deu pulos de alegria: Buffy acerta com a foice (a essência feminina slayer) o falo do personagem mais misógino e então o mata.

E a simbologia não para por aí! No discurso mais bonito da série, Buffy relata às potenciais o plano para salvar o mundo (arrepio toda vez que leio): “E se vocês puderem ter essa força… agora? Em toda geração, uma slayer nasce, porque um bando de homens que morreu há milhares de anos fez essa regra. Eles eram homens poderosos. Mas essa mulher (Willow) é mais poderosa que todos eles juntos. Então eu digo que vamos mudar a regra. Eu digo que meu poder deve ser seu poder. Amanhã, Willow vai usar a essência da foice para mudar nosso destino. A partir de agora, toda garota no mundo que pudesse ser uma slayer, vai ser uma slayer. Toda garota que pudesse ter o poder, vai ter o poder. Cada uma de nós. Vocês estão prontas para serem fortes?”

Esse discurso é seguido de imagens lindas de garotas se levantando e sendo fortes, e também mostra a Willow sendo tomada pela energia das Guardiãs.

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Todas as slayers na batalha são ativadas, elas destroem os vampiros primitivos e, com a ajuda e sacrifício de Spike, a boca-do-inferno é destruída e o apocalipse, evitado.

Apesar de tudo isso se referir a apenas às slayers, eu não consigo evitar a analogia: a estratégia de Buffy para salvar o mundo do Primeiro (como agia através de um padre misógino, podemos vê-lo como o machismo em si) foi se rebelar contra os Homens da Sombra e o Conselho (que pode ser visto como o patriarcado ou como alguma entidade que regule as mulheres) e ativar todas as slayers (leia-se, empoderamento feminino).

Essa decisão de Buffy, Willow e as outras slayers, como consequência, muda o destino de todas as slayers. É um tanto maluco pensar que apenas uma mulher no mundo todo tinha o dever de matar todos os vampiros e demônios. E, note, elas não escolheram isso. Elas simplesmente foram ativadas e suas vidas eram baseadas nisso e morreriam antes dos 30 (e sequer eram remuneradas por isso). Na terceira temporada, Buffy percebe que não poderia fazer faculdade porque esse era o destino dela: ser slayer. Ela não pediu por isso, ela não quis isso, ela foi escolhida.

Ao mudar a regra, nenhuma slayer mais tinha o dever de ser slayer. Se ela quisesse seguir essa “carreira”, ela seguia, se não, ela podia ter uma vida normal. Fazer faculdade, viajar, namorar e eventualmente casar, ter uma carreira, ter amigos, morrer velhinha. Mesmo as que escolherem ser slayers, teriam sua expectativa de vida aumentada drasticamente, afinal, agora tinham milhares de outras se ajudando.

Apesar de ser escrito e dirigido por um homem, a simbologia do empoderamento feminino no final da série é muito bonita, é necessário levantar essa discussão, principalmente por se tratar de uma série importante e famosa. Diversas outras questões sobre papéis femininos podem ser discutidos em Buffy, até mesmo sobre os personagens masculinos. Angel, Xander, Spike, Giles, todos eles tem uma posição fundamental na trama, mas nenhum consegue ofuscar as mulheres nessa série, por mais fortes e inteligentes que sejam. Bom, numa série que tem a Willow, uma bruxa lésbica especialista em computadores, ninguém consegue competir, nem mesmo a própria Buffy.

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“Meninos são tão frágeis”

E, para fechar, aqui fica uma montagem linda que resume bem meus sentimentos por Buffy:

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“As mulheres são as fortes”

 

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