10/07/2014 - Por Projetos Referências

Pandora Versus

Quando olhamos para capas de revistas femininas. Sinto que aquela mensagem é para mim. Mas ela não conversa comigo. Não conversa com quem eu sou de verdade. Ela conversa com quem eu deveria ser, segundo a sociedade. Cansadas dessa falta de representatividade das mulheres tão presente na mídia atualmente, um grupo de estudantes de jornalismo decidiu criar um espaço midiático para mulheres, no qual a mulher possa se enxergar verdadeiramente. Um espaço que fala um pouco sobre todas nós, considerando e respeitando nossas particularidades.

E assim surgiu a revista Pandora Versus (clique aqui para conhecer), construída pelas jovens Júlia Paolieri, Luiza Laude e Nina Franco. Para falar dessa ideia linda, fomos bater um papo com a Nina.

 

 

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NAQ: A Pandora Versus surgiu de uma lacuna encontrada na mídia para o público feminino, certo? Fala mais sobre esse desejo de um espaço que converse com a mulher da maneira como vocês têm conversado.

 

Nina – Quando começamos o Pandora Versus a nossa ideia era de estabelecer o diálogo antes de qualquer coisa. Não tem como falar sobre mulheres sem reconhecer a diversidade de mulheres. Para nós, o grande erro da maioria das revistas é conversar mais com o imaginário social do feminino do que tentar conhecer quem são suas leitoras.

Nós não queremos falar sobre “ coisas de mulher”, se é que isso existe, nós queremos falar sobre mulheres, isso para gente é importante. Há muito conteúdo “ para mulher” por aí, mas ninguém fala sobre nós, sobre como é ser mulher, se isso é algo fácil ou difícil, ninguém discute os nossos problemas, muito pelo contrário, a mídia hoje nos inventa e impõem problemas, como por exemplo a questão física e afetiva – as revistas são muito levianas ao tratar desses assuntos. Outra coisa que percebemos é o fato de se discutir pouquíssimo as questões de gênero na grande mídia e isso é um erro, afinal diariamente somos atingidas por esses problemas, no trabalho, na universidade, nos nossos relacionamentos em tudo. As mulheres precisam saber o que outras mulheres sofrem e entender porque sofrem.

Não queremos ditar nada, nem criar manuais como a maioria das publicações e blogs costumam fazer, queremos apenas ajudar nossas leitoras a refletirem, principalmente se é justa e se está correta a forma como a mídia tem nos tratado. Queremos conversar da mesma forma que conversamos com uma amiga: sem julgamentos, sem imposições, apenas tentando entender e ajudar.

 

 

 

NAQ –  Nós também somos (quase) profissionais de mídia e estarmos nesse meio nos estimulou muito a encontrar problemas nele. Você acha que ser estudante de jornalismo foi um fator importante para a criação da percepção que vocês têm sobre a mídia atual?

 

Nina – Estudar jornalismo foi fundamental para criar a nossa percepção sobre a mídia atual! A visão de dentro da coisa tornou tudo muito mais absurdo para a gente.  Primeiramente percebemos que se debate pouco o jornalismo feminino na universidade, deveríamos falar mais sobre o assunto, afinal hoje as mulheres são maioria nas redações. Essa realidade foi o que nos motivou a iniciar o debate sobre o tema, aquele momento em que pensamos “ pera aí, eu não quero ler somente essas revistas, cadê uma revista que converse comigo de forma mais honesta, sem subestimar a minha capacidade de tomar decisões e ter opinião?”. Estudar jornalismo nos ajudou muito a desenvolver essa criticidade.

Outro fator importante foi o feminismo, entendendo o feminismo nós conseguimos enxergar com maior clareza como a mídia é opressora com a mulher, como esse retrato aparentemente inocente nos aprisiona, limita.

 

NAQQual você acha que é o maior problema dentro da comunicação voltada para a mulher hoje em dia? (em revistas, filmes, novelas, séries…)

 

Nina – O maior problema da mídia para mulheres hoje é conversar com um conceito de mulher imaginário e, pior, nos fazer acreditar que todas as mulheres são da forma que ela retrata e apenas “eu e você” não nos enquadramos nesse modelo.  Claro que a mulher Vogue existe, ela merece respeito e tudo mais, mas até essa mulher tem outros interesses e cadê a revista que ofereça esse algo mais? Há um padrão estabelecido do que é ser mulher e eles não estão nem aí se a coisa é totalmente diferente dessa fotografia. Estabelecer um padrão é a maior crueldade que uma publicação que pretende me representar pode fazer. Afinal se ela me representa e eu não estou compatível com o que ela me diz, o erro deve estar em mim, certo?

Na verdade, a representação é péssima! Recentemente fizemos uma matéria sobre mulheres e cinema e nos revoltamos com a caricatura que fazem de nós e isso contamina totalmente a forma como a sociedade nos vê, ainda mais em um mundo no qual a mídia é a maior ferramenta de educação.

A sociedade cobra muito das mulheres e essas revistas, filmes, livros acabam enfatizando essa cobrança. Se o mundo grita “ seja magra” a revista tende a me ensinar formas de emagrecer ao invés de me fazer refletir sobre a questão “ Será que eu preciso emagrecer? ”. Falta entender a diversidade, falta bate papo, falta falar sobre mulheres, não só em revistas, mas a mídia em geral, afinal é um ciclo vicioso que sai da banca e vai para a novela, se estende para o comercial, chega no cinema, invade a literatura até sufocar a nossa realidade.

 

NAQSe você precisasse descrever a comunicação voltada para mulher em uma palavra, qual seria ela?

 

Nina – Escassa, a mídia feminina é escassa, há muita coisa, mas não há variedade.

 

NAQQual é a proposta da Pandora Versus para mudar esse cenário?

 

Nina – A Pandora que na mitologia foi a culpada por tirar da sua caixa todos os males do mundo, já é uma prova do retrato nada positivo da mulher na sociedade. Nós somos Versus a essa imagem, nós queremos discutir como essa imagem se dá ainda hoje, queremos ir contra esse discurso. O gênero feminino é tratado com desprezo, as mulheres precisam entender que não conquistamos tudo, precisam conhecer e entender a luta e, mais que isso, precisam lutar por mudança, queremos ajudar nesse processo.

A nossa proposta é tentar construir uma imagem diferente e questionar o retrato midiático vigente, que pensando bem é o mesmo desde sempre. Poucas são as diferenças entre as revistas de 40 anos atrás e as de agora e não somos as mesmas mulheres de 40 anos atrás, nem sei se há 40 anos atrás essas mulheres eram da forma que a mídia pintou.

Queremos discutir os problemas de gênero que são muitos e tentar desmistificar um pouco esse ideal feminino que maltrata mulheres do mundo todo e é sim a causa da maioria dos nossos problemas, começando pela opressão e violência psicológica e que acaba em dificuldades mais graves ainda como o abuso sexual e a taxa enorme de homicídios por motivo de gênero.

 

Nina também contribui com suas reflexões aqui no site. Conheça os textos dela por aqui.

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