19/08/2014 - Por Reflexões

50 Tons de Cinza é perturbador

50 Tons de Cinza é perturbador. Não digo isso pelo componente sadomasoquista da história ou porque a qualidade literária se aproxima de uma redação malfeita de um aluno de colegial, mas pelo que esse best-seller nos diz sobre o que é uma relação romântica. (esse texto contém spoilers)

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A protagonista Anastasia Steele é o estereótipo de insegurança ambulante. O livro é permeado pela imagem da recatada heroína virgem e sua relação com Christian Grey, um lindo milionário superpoderoso de 20-e-poucos anos. Grey pratica sadomasoquismo e quer que Anastasia seja sua nova Submissa.  Mas, para isso, a jovem deve assinar um longo contrato que estipula, entre outras coisas, quantas horas ela deve dormir por noite, que tipo de alimentos pode comer e quantas vezes por semana deve praticar exercício físico. E as exigências não param por ai. Christian escolhe sua ginecologista, seu personal trainer, seus seguranças, compra a empresa que a jovem trabalha e lhe afasta de todos seus círculos de amizade.

Acredito que fica claro que o que choca no livro não é a abordagem da temática sadomasoquista e sim, como a relação abusiva de Christian e Anastasia é tida como romântica. Na verdade, seria ótimo se a trama desmistificasse a prática e encorajasse os leitores a explorarem melhor sua própria sexualidade. Mas a história acaba associando o interesse de Christian por BDSM a um trauma de infância, criando uma ideia de que o fetiche é algo doentio que deve ser “curado”.  Quando, na verdade, os desejos sexuais de Grey são a parte menos distorcida de sua personalidade controladora e arrogante. 

Christian vê Anastasia como sua posse. Após seu casamento, a primeiras palavras que ele profere são: “Finalmente, você é minha.” Ele não a enxerga como pessoa, muito menos como uma mulher independente. Com a justificativa de querer “protege-la” do mundo Grey controla cada passo de sua vida e acaba arrancando-lhe qualquer resquício de autossuficiência. Ela veste aquilo que o agrada, ela experimenta sadomasoquismo para provar seu amor por ele, ela só sente sexy por meio de seus elogios. Nada do que ela tem ou sente nasce de sua própria vontade. 

É preocupante que as pessoas assimilem as atitudes doentias de Christian como expoentes de masculinidade e a relação dos protagonistas como “aquilo que toda mulher deseja”.  É extremamente perigoso que garotas leiam isso e acreditem que um homem pode te tratar mal contanto que ele “as ame muito”. Ou acreditem que mulheres precisam ser infantilizadas para se sentirem seguras em um relacionamento. Ou ainda que um elas possam “consertar” seu parceiro abusivo se o amarem o suficiente.

Minha esperança é que, aqueles que escolham ler a trilogia, a aproveitem com discernimento. Meu lado otimista torce para que o número de vendas reflita a quantidade de mulheres lendo erótica sem se preocupar com retaliações morais e espero que o livro sirva de base para que mulheres se sintam a vontade para falar sobre sexo e explorar mais seus próprios desejos. Talvez, com alguma sorte, o próximo best-seller erótico choque pelos motivos corretos. 

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