A Culpa de Ser Feminista

Ser feminista quer dizer um monte de coisas diferentes para muitas pessoas diferentes. Eu devia ter uns dez anos quando decidi que nunca mais ia assistir ao SBT. Foi depois de ver uma daquelas Banheiras do Gugu e Garota da Blusa Molhada, do Sabadão Sertanejo. Eu não tinha a menor ideia do que era ser feminista, mas de alguma forma eu sabia que aquilo que estava na televisão era errado.

Mais ou menos na mesma época, eu sonhava em ser atriz de cinema. Eu queria fazer escavações perigosas e lutar contra vilões superpoderosos. A medida que fui crescendo, comecei a me dar conta que, além de não querer ser atriz e sim escrever essas aventuras, na grande maioria das minhas histórias e brincadeiras favoritas eu não era a protagonista. Eu brincava de Indiana Jones no quintal de casa, mas eu nunca era o protagonista, eu era a outra arqueóloga aventureira e divertida, amiga do Indiana. Eu admirava o Superman e o Batman, mas não queria ser a Batgirl, eu queria ser o Batman. Foi só quando eu encontrei a Vampira (dos X-Men) que eu realmente me tornei a protagonista, e talvez por isso ela tenha virado uma das minhas personagens favorita, por ter se tornado um marco pessoal de independência, amor e poder. 

Eu sempre tive opiniões muito fortes sobre um monte de coisas, e durante muito tempo sempre tentei guardar as mais “polêmicas” para mim mesma. Eu não queria incomodar os meus amigos e nem chatear as pessoas que não concordavam comigo. Especialmente quando o assunto envolvia os meus gostos nerds e assuntos relacionados a isso, a palavra de ordem era abafar. Até que eu liguei o foda-se. E esse foda-se aconteceu quando eu descobri o feminismo e realmente fui atrás daquilo que ele significava pra mim. 

Foi nessa mesma época que eu comecei a lidar com a culpa.

Às vezes, eu digo que queria continuar como a menina de dez anos que era feminista e não sabia, poder deixar de ver tudo aquilo que estudar sobre o movimento e sobre o machismo me permitiu ver. Não porque eu deixei de acreditar na nossa luta, mas porque ela é um processo exaustivo.

Durante toda a nossa vida, escutamos que não somos tanto quanto os garotos. Não tão inteligentes e não tão fortes. Somos intrometidas enquanto eles são inteligentes. Nos dizem que não sabemos ser amigas de verdade de outras meninas, enquanto os meninos são o totem da fraternidade. Nós nos sentimos mal pela nossa aparência, pelo modo como as outras pessoas nos veem, pelo modo que caminhamos, nos vestimos, dirigimos, bebemos, comemos, nos divertimos, amamos e pelo modo que lidamos com o nosso corpo e nossa sexualidade. Nos empurram para baixo constantemente de tantas maneiras já institucionalizadas pela sociedade, que muitas vezes não conseguimos enxergar a opressão. Mesmo nas nossas brincadeiras nós não somos as protagonistas.

Um simples comentário sobre como aquele filme é legal mas tem um problema com personagens femininas pode resultar num virar de olhos de pessoas amigas. Um post criticando uma editora de quadrinhos resulta em “vai assistir novela” de um desconhecido, a discussão vira sobre você ser qualificada ou não para discutir o assunto – claro, você nunca é.

Ser feminista é lutar contra a culpa. A culpa que a gente sente por ter uma opinião. A culpa que a gente sente por “incomodar” os outros com a nossa luta.

 

Algumas de nós cresceram acreditando na falsa simetria, achando que tínhamos tantos direitos quanto os homens, tanto respeito quanto os homens, que somos todos iguais perante a lei – algumas de nós ainda acreditam nisso. Quando tomamos consciência de todo o sistema de opressão que nos cerca e queremos discutir e falar sobre o assunto, os olhares e comentários de reprovação começam.

Ninguém quer que a outra pessoa aponte o dedo para o problema. Ninguém quer entender que existe privilégio. Ninguém quer estar errado – mesmo quando o erro não é intencional –, faz parte da cultura machista em que vivemos.

Além de lutar de fato contra um sistema opressor, de ter que explicar milhões de vezes porque cantada de rua não é necessariamente elogio, porque objetificação sexual de mulheres existe e é um problema e porque nós também deveríamos ser tratadas como, sei lá, pessoas, a gente também precisa lutar contra o machismo que está arraigado dentro de nós. Aquela culpa que te faz hesitar antes de dar uma opinião, que te faz se perguntar todos os dias se você está falando demais sobre feminismo. Que te faz duvidar das suas próprias convicções.

Se sentir culpada por ser mulher é só um dos absurdos que o machismo traz pra nossa vida. É a luta interna mais difícil que eu travo todos os dias, todas as vezes que coloco a minha opinião e a minha visão daquilo que me cerca na página do computador, toda vez que essa opinião atinge os desconhecidos.

Aí eu me lembro o que eu devo àquela garotinha brincando como a outra arqueóloga, como a ajudante do super-herói: não desistir. Que a luta não é só para as irmãs, é para mim. Que a minha luta dá a outras mulheres e meninas a chance de sonharem com (e se tornarem) mulheres protagonistas e tridimensionais. E então, eu subo no meu triceratops, coloco a minha capa feita de couro de dragão, afio a minha espada de adamantium e encaro novamente os olhares de reprovação, as viradas de olho e até os gritos desesperados de raiva daqueles que não me aceitam e parto para a luta.

A gente nunca quer incomodar, principalmente os nossos amigos, e sempre que pode tenta discutir um assunto da maneira mais calma e civilizada possível, mesmo quando o cara quer te explicar o que é feminismo e porque você estaria errada. Eu tento sempre manter a calma. Mas às vezes é difícil.

Ninguém pode me culpar por ser mulher e lutar pelo que eu acredito. Nem eu mesma.

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