06/10/2014 - Por Reflexões

A esperança de uma minoria

Meu aniversário de 16 anos foi uma data especial para mim, mal podia esperar – todos os meus amigos eram mais velhos que eu e já tinham a idade, que, por motivos que nem sei explicar, parecia muito mais adulta do que os meus 15 anos. Para mim, parecia simbolizar uma era de independência, um novo momento na minha vida.

Junto com uma série de liberdades, eu teria, agora, a possibilidade de participar das eleições. Nem sei explicar o porquê, mas eu mal podia esperar – nem duas semanas depois do meu aniverário já fui tirar meu título de eleitor, apesar de saber que só poderia votar no ano seguinte. O processo foi um saco, o sistema estava com problema, demorou horas, mas eu fiquei feliz de sair de lá com aquele pedaço de papel, de saber que poderia ajudar a escolher os candidatos que iriam governar meu país.

Apesar disso, meus primeiros votos foram basicamente repeteco do que haviam me ensinado – votei como todos na minha família votaram, de anotar o número que me ditaram e só. Nas próximas, fui um pouco melhor – pesquisei meus candidatos e, embora tomando decisões bem conservadoras, votei em pessoas que eu minimamente conhecia. Em 2010, fui ainda mais ‘ousada’ – contra uma família votando PSDB, votei PT e ajudei a eleger nossa atual presidenta.

Bem, entre 2012 e 2014, uma coisa aconteceu que mudou minha relação com política: eu virei feminista. Dessas terríveis mesmo, misândrica se você acredita nessas coisas – num processo linear, passei de “nem toda feminista é lésbica, feministas não odeiam homens, queremos igualdade” para “e se eu quiser ser uma feminista lésbica e gorda que odeia homens??? Tenho mais do que o direito!”. Então, pela primeira vez na minha vida, estava envolvida com os resultados das eleições – queria mais que tudo candidat@s que representassem minimamente meus interesses e, cercada de pessoas liberais ou pelo menos não completamente conservadoras, senti o Brasil na beira de uma revolução.

E daí, claro, Alckmin foi eleito em um primeiro turno, Feliciano e Bolsonaro dispararam e temos Dilma e Aécio no segundo turno. Em uma tarde, minha esperança política despencou – sei lá como eu tinha esperança de que alguém que eu queria ia ser eleito, mas eu tinha, e vi o negócio despencar na minha frente.

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Ilustração retirada daqui

A Carol Patrocinio, colunista do Yahoo, postou ontem as palavras que eu não queria dizer em voz alta: “O que os resultados de hoje dizem sobre nós como sociedade? O que dizem de nós como humanos? Em algum momento tudo deu errado e a gente esqueceu de parar e consertar antes de seguir em frente. (…) Desculpem, mas meu otimismo foi embora com os resultados de hoje.”.

Não queria ter que reclamar do Brasil. Amo esse país de uma maneira que não sei explicar, sem noção mesmo, de ficar ofendida quando sugerem que eu vá morar em outro no futuro. Achei que estávamos prontos para mudar alguma coisa, mas vejo os mesmo políticos de sempre, nas mesmas disputas de sempre. Não vai ter discussão sobre aborto, não vai ter leis pra proteger a comunidade LGBT – se bobear, não vai ter nem água em São Paulo.

Quis escrever esse texto para saber se tem alguém aí que poderia me dar alguma esperança. Queria muito alguém pra me explicar o que vai acontecer agora, quais são as possibilidades, como podemos fazer para remediar. Sei que Jean Wyllys foi eleito, que Minas quebrou uma onda de anos de PSDB. Mas pela primeira vez, percebo o que não cansam de me falar, o que Levy Fidelix tanto disse em pleno debate entre presidenciáveis: somos minoria. Estamos perdendo para uma maioria esmagadora, que não quer ouvir e não quer mudar – me sinto empacada politicamente e quero desistir, dar um reset na política e talvez no Brasil inteiro.

Essa amanhã acordei cansada e meio puta com o mundo a minha volta. Fui direto pro Facebook pra ver as mesmas discussões, o mesmo povo cansado. No meio disso, uma amiga postou algumas palavras que me animaram. Ainda não estou pronta pra justificar minhas escolhas, pra sair na rua, nem pra discutir com o pessoal do Facebook. Mas amanhã talvez esteja. E, não tenha dúvida, daqui a 4 anos, lá estarei eu de novo, com mais algumas esperanças, mais alguns sonhos e mais vontade ainda de ver as coisas mudarem.

“Acordei deprê. (…) Mas agora tomei um café e me reergui. Chega de mimimi. Não vou ficar tentando separar o lado de lá. O lado de lá não me interessa. Quero juntar o lado daqui. To pronta pra continuar lutando. E vocês?”.

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