26/06/2014 - Por Reflexões

A incrível geração de Mulheres-Maravilhas

Na semana passada, um texto sobre mulheres, da Ruth Manus, foi publicado no Estadão. Você provavelmente se deparou com ele em seus feeds de notícias, compartilhado por jovens mulheres dizendo o quanto aqueles parágrafos haviam conversado com suas experiências e realidades. O texto fala sobre uma geração de mulheres que foram criadas para o mundo, que são expansivas, ambiciosas e independentes. Toda essa geração, segundo o texto, é um repelente natural de homens, que foram criados sobre tradições e convenções sociais que divergem da educação dada para as mulheres.

 

Logo de cara, algo naquele título parecia meio fora do lugar. Ao ler o texto, entretanto, tive um sentimento inicial de identificação. Aquele texto falava sobre mim. Sobre algumas de minhas amigas, minhas primas e talvez até sobre minha mãe. Mas ele não falava sobre uma geração inteira. É um pouco egocêntrico pensar que todas as mulheres brasileiras que nasceram nos últimos trinta e poucos anos correspondem àquela descrição. Um grupo privilegiado de mulheres teve essa educação pra explorar o mundo. Aquele texto não fala sobre mulheres pobres, mulheres criadas dentro de uma estrutura patriarcal e conservadora, mulheres que são ensinadas a servir um suposto marido e que esse é seu objetivo de vida. Ele não fala sobre mulheres cuja vida é submetida às vontades de um “dono” (Seja ele um pai, um namorado, um marido).

 

Com a segunda leitura, aquele sentimento de estranhamento voltou a me incomodar. Sabe, de repente, aquele texto talvez nem falasse de mim. Ou de qualquer mulher moderna e “emancipada” que eu venha a conhecer. Nós não somos a geração de mulheres que fazem o que querem, que são ótimas profissionais e ponto. Não. Somos criadas para sermos ótimas profissionais, ótimas amigas, ótimas esposas e ótimas mães. As funções “antigas” que uma mulher carregava por toda a vida ainda estão aí. Só que agora temos outras obrigações com a sociedade.

É a geração de mulheres-maravilhas, que tem que fazer tudo e fazer muito bem.

Faça acontecer!

 

 

“O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?” – todo mundo espera que sejamos perfeitas, que tenhamos um emprego incrível e uma vida digna de capa de revista.

A sociedade espera que as mulheres sejam melhores em tudo, para “compensar” o fato de serem mulheres. Já parou para pensar nisso?

 

Vamos imaginar uma situação hipotética. Uma mulher de seus 40 e tantos anos feliz e realizada com sua vida. A reação natural é logo imaginar por que essa moça é feliz. De certo, ela deve ter uma carreira brilhante, uma casa no campo, duas viagens pelo mundo, um cachorro, um marido e dois filhos. Digamos então que, na verdade, essa mulher não tenha filhos, não tenha uma casa no campo ou um Golden Retriever. Digamos que ela seja feliz somente por ter sido quem ela esperava e gostaria de ser. Ela se tornou o que sempre quis. Naturalmente, a ideia que se tem de felicidade para uma mulher AINDA está atrelada a existência de um companheiro.

Foi assim que eu me deparei com o que de fato mais me incomodou nesse texto: a forma como ele gira em torno da necessidade de um parceiro que nos aceite como somos. O texto se preocupa demais com essa ruptura entre o que nos foi ensinado e o que foi ensinado para os homens da mesma geração. Acontece que o tal “parceiro” ainda é o foco do discurso sobre a vida da mulher. Acontece que somos bombardeadas com esse “check-list da felicidade”, mesmo em conteúdos que celebram a emancipação da mulher. Nós temos que parar de acreditar que precisamos de uma companhia amorosa para sermos felizes, sermos completas. Não estou dizendo para nos tornarmos uma geração de mulheres ensimesmadas que ignoram a possibilidade de se relacionar afetivamente. De jeito algum! É bom se relacionar. Mas que isso não seja necessário. Que isso não seja mandatório. Que nós sejamos verdadeiramente a incrível geração de mulheres que fazem o que querem.

Ps. Acho muito importante que nós, mulheres que podem escolher fazer o que querem,  reconheçamos nossos privilégios e juntemos forças com os demais grupos de mulheres, que também precisam se empoderar dessa forma!

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