13/07/2014 - Por Reflexões

A Verdade Sobre Nárnia

Convivendo em um ambiente feminista, é difícil lembrar que o mundo nem sempre pensa como eu. Que ele não é tão colorido e que as pessoas nem sempre estão abertas a discussão. Normalmente, elas se acham detentoras da razão, mesmo sem saber sobre o assunto ou sobre as experiências do outro.

Por exemplo, as pessoas se acham no direito de saber cada mínimo detalhe sobre a orientação sexual dos outros, mesmo que essa pessoa ainda não esteja pronta para isso. Afinal, a definição da sexualidade de um indivíduo depende dele e somente dele.

Tive um colega – vamos chamar ele de Paulo – que podia jurar que um conhecido nosso era gay. “Ah! Aquele viado faz aquilo, ouve aquilo, não sei porque ele não sai do armário logo.” E era assim quase todos os dias. O Paulo não conseguia entender porque aquele conhecido não só admitia de uma vez que era gay. Afinal, todos já sabiam!

Eu acho engraçado. Eles não são amigos. Porque o Paulo teria o direito de saber sobre sexualidade de alguém que mal conhece? E por que ele contaria para alguém que faz questão de tratá-lo mal, chamar ele de viado e reprovar qualquer atitude dele que não fosse tida como “de homem”?

Sair do armário não é um ato único e pontual – puf! de repente todos os seus problemas acabam. Estamos sempre em contato com novas situações e pessoas, o que significa que temos que decidir sair do armário várias vezes ao longo da nossa trajetória. Primeiramente nos descobrimos não-hétero. Depois, medimos os prós e contras de contar para nossos amigos (e para quais amigos), criamos coragem para nos abrirmos com nossa família e até mesmo quais repercussões que isso pode ter no trabalho.

Ficamos em uma constante negociação de identidade, mostrando mais ou menos dependendo de com quem estamos, e se nos sentimos seguros naquele ambiente ou não. Muitas vezes, somos afetados diretamente por pessoas que considerávamos amigos e ficamos completamente sem reação, o que acaba criando uma relação de desconfiança com aquela pessoa.

No final das contas, aprendemos que esse jogo de cintura é muito mais complexo do que parece. Além do alívio ao encontrar um grupo no qual é possível se sentir à vontade para ser quem você é. Às vezes, só queria que o mundo fosse mais feminista.

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