22/12/2015 - Por Reflexões

Afinal, o que é uma Mary Sue?

De vez em quando, eu esqueço que nem todo mundo é um fã 100% ativo, nem entende todo o vocabulário que existe nos “fandoms” e no mundo das fanfiction. Para quem não sabe, fanfiction são histórias, escritas por fãs, baseadas em histórias pré-existentes – os filmes da Marvel, Star Wars, Harry Potter, o que for.

Principalmente quando eu era mais jovem, e era extremamente ativa nesse meio (muitos fanfics de Harry Potter nos Favoritos do meu computador), um termo que vivia aparecendo era a “Mary Sue”.

“Mary Sue” se refere a uma personagem feminina, criada pela escritora (sim, geralmente, por mulheres), que eram “perfeitas” – ela funcionava como uma versão idealizada da escritora, como uma maneira de viver tudo que queríamos. Era um dos piores insultos que você podia dar a um personagem, como se fosse dizer que era uma personagem sem criatividade, irreal – essa personagem, que vinha do nada, e se descobria a mais especial das especiais, todos os personagens se apaixonavam por ela, ela geralmente era filha de alguém muito importante e tinha diversas habilidades incríveis.

Quem fala inglês e quiser ver mais sobre essa ideia, pode ler aqui.

Vou descrever aqui pra vocês uma Mary Sue:

Ela virou órfã de maneira trágica e é mais rica que qualquer um. Todo mundo se apaixona por ela, mas ela rejeita todos no final, porque é dedicada demais à sua missão. Ela é super inteligente, atlética, e bonita. Ela não tem habilidades supernaturais, mas mesmo assim é mais competente que pessoas que tem, e todos são extremamente leais a ela, mesmo quem ela não trata muito bem. Todos a respeitam e a temem, e obedecem suas ordens. Todo mundo é obcecado por ela, mesmo seus inimigos a querem. E ela está geralmente sempre certa.

Pequeno problema – eu acabei de descrever o Batman.

Essa comparação foi feita nesse texto, que discute essa ideia da Mary Sue. Afinal, o que é essa personagem “ruim e mal-escrita?” A ideia de que nossos personagens são idealizados é a base de toda a ficção – Harry Potter, Luke Skywalker, Aragorn, todos eles, se baseiam na ideia de que, por alguma razão, aquela pessoa é especial, amada, boa em tudo que faz, e que só ela pode mudar o mundo. A história deles vai terminar bem, porque tem que terminar bem, eles ganham tudo que queriam e terminam felizes.

Mas, quando colocamos personagens femininas no papel, de repente, temos um problema. Existe, a princípio, uma versão masculina da Mary Sue, o “Gary Stu”, mas fica difícil definir o que seria ele, quando tantos personagens masculinos da nossa cultura tem traços de “Gary Stu”.

As pessoas tendem a nem concordar no que exatamente definiria uma Mary Sue – a autora do texto que citei comenta, que na página do TV Trope, diz que você pode ser uma Mary Sue por ter falhas demais, falhas de menos, por consertar tudo, por errar tudo, por ser heroína ou vilã. Nesse sentido, parece muito mais uma maneira de definir “personagem pela qual não tenho interesse”, o que, para muita gente, é quase todas as personagens femininas.

A autora comenta que a ideia por trás da Mary Sue é que as mulheres têm que “merecer” ser o personagem central, têm que “ganhar” poder, amor, devoção. Homens não precisam explicar – Luke Skywalker, por exemplo, é especial porque é, descobre grandes poderoso e vai mudar o mundo, e ninguém acha isso estranho – mas se uma mulher tivesse uma história similar, de repente, temos em mão uma Mary Sue, já que “não tem porque” ela ser tão talentosa, tão querida, tão especial.

Chegamos aqui ao porquê eu quis escrever sobre isso. Recentemente, saiu o filme novo de Star Wars, e uma das personagens centrais do filme é a Rey – o filme mal saiu faz uma semana, e já temos acusações chovendo de que Rey é Mary Sue. Sem entrar em spoilers, dizem que ela é perfeita demais, talentosa demais, central demais. Ela é idealizada, talvez, mas não diferente de qualquer personagem da história da cultura pop – e é por isso mesmo que esses personagens são tão importantes para nós, por isso são nossos heróis e inspirações.

Uma Mary Sue não é o problema de história nenhuma – histórias ruins são ruins por uma série de motivos, e às vezes, até por terem personagens ruins. Mas não porque as mulheres são poderosas, especiais e divertidas – não é isso que torna uma personagem real ou não. Suas habilidades e sua importância na trama são apenas o que impulsionam a história, e uma personagem feminina pode ser “perfeita” e ainda mostrar uma profundidade, uma razão de ser, e uma personalidade perfeitamente real. Assim como todos os personagens masculinos que dividem os mesmos traços e ainda são considerados perfeitamente reais e bem-escritos.

Então, se uma Mary Sue é simplesmente uma personagem idealizada, que todas queremos ser, a Rey é mesmo uma Mary Sue. E que bom – espero ver, no futuro, mais e mais personagens femininas que possam carregar esse nome, que sejam centrais, importantes e especiais, que despertem em todas nós a vontade de ser como elas.

PS: para quem quiser saber, eu absolutamente amei o novo filme de Star Wars e só não escrevi sobre o assunto porque ia ser basicamente eu apaixonada por tudo e chorando por causa dessa história maravilhosamente circular. Quem quiser ler uma crítica (CHEIA DE SPOILERS) pode ver a do Collant!

Tags:,

Comentários